Barbie não transa

A Barbie não transa, mas eu sim!

Por Luana Milan

A famosa boneca da Mattel, muitas vezes usada para representar nosso ideal de corpos reais, falha em não possuir a principal característica de toda mulher: sua xoxota. O padrão mais desejado de face e corpo ainda hesita em divulgar o que todas temos em comum. O medo de sexualizar a maior ferramenta de formação de princesas do planeta, só reafirma o fato de vivermos em uma sociedade misógina. Mas será que a Barbie não sente tesão?

Não posso falar por ela, mas inúmeras experiências me levaram a crer que muitos me vêem como a Barbie: linda e sem xoxota. Eu tenho algo absurdamente surpreendente para lhes contar: eu tenho uma xoxota.  E esse estereótipo não se aplica apenas a mim, mas a maioria das mulheres com deficiência.

Barbie Nua
[Descrição: imagem de uma boneca Barbie nua, sem cabeça e deitada em um fundo branco. Fim da descrição.]
Assexuadas ou Invisibilizadas?

Desde o primórdio somos invisibilizadas quando o assunto é sexo. Não vou entrar em todo o contexto histórico acerca da pessoa com deficiência, mas quero frisar que nossos corpos sempre foram escondidos, assim como nossa voz e vontade. Por todo a áurea de exemplo de superação e blá blá blá capacitista, fomos colocadas em uma condição, que muitas vezes não representa nossa realidade.

Com isso, transformaram nosso corpo em um lugar secreto e para você acessá-lo precisará unir as 4 esferas do dragão, porque só o mais bravo dos heróis, aquele cuja pretensão seja nos salvar e viver para sempre ao nosso lado terá direito de tocá-lo. Precisa jurar amar na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Mas será que queremos mesmo toda essa burocracia?

Óbvio que devemos ser tocadas com respeito, assim como qualquer pessoa, mas às vezes, a gente só quer sexo, sabia? Sem o compromisso de estreitar laços afetivos, sem a promessa de relacionamento. E ainda mais, sem o cuidado de estarem lidando com uma boneca. Porque, acreditem, a frase que eu mais ouvi até hoje na hora H foi “eu tenho medo de te machucar, você parece uma bonequinha”. Ok, eu posso parecer uma boneca, mas eu adoraria que fosse uma inflável, pelo menos. Porque as de porcelana pegam pó e a Barbie nem xoxota tem.

Estamos nos aplicativos de relacionamento, nas baladas e barzinhos também esperando uma oportunidade de termos um orgasmo. Buscamos por prazer, sexo sem compromisso, trocamos nudes, assistimos pornô e até nos masturbamos. Isso significa autoconhecimento e liberdade. Assumir que sentimos tesão e que, mesmo tendo alguma deficiência, somos sexualmente ativas, descaracteriza qualquer imagem puritana depositada em nós. E é exatamente o que eu adoraria que acontecesse.

Sim, temos tesão!

Então entenda, eu tenho xoxota e eu faço sexo. Não se preocupe se só quiser transar comigo, provavelmente eu também só queira isto. Sem casamento, filhos, um cachorro em uma casinha com cerca branca. Tudo bem quem não se sente confortável com isso também, é um direito, é uma escolha. No entanto, a única pessoa que pode falar sobre minhas escolhas, sou euzinha.

Então vamos nos poupar dos discursos próximos ao que um garoto já ouviu por manifestar que só queria transar comigo: “Você é um escroto por querer isso com ela. Vai comer a guria e abandonar ela.”. Que horror, mas quem me dera, né, gente!

A minha condição física não faz de mim uma Barbie sem xoxota. Portanto, não se sintam acuados quando este for o assunto, só procurem saber quais são nossas escolhas. De resto, um copo de água e um orgasmo não se nega a ninguém. 😉


Luana Milan Teles tem 25 primaveras de idade é formada em Design Visual e pós-graduada em Marketing Digital. Tem Charcot-marie-tooth tipo 2. Mãe de três felinos, feminista e adepta ao amor livre. Acredita que os bons são maioria. Seu instagram pode ser acessado aqui e o facebook aqui.

A imagem em destaque faz parte do projeto Naked Dolls de Catarina Paulino, mineira de Belo Horizonte fez um tumblr para divulgar este trabalho. Se tiver interesse em conhecer mais, confira uma matéria realizada para o site “Resumo Fotográfico” aqui  onde ela expõe os objetivos do projeto, e seu porfolio aqui.

Qual é a voz do seu corpo?

Se me perguntarem uma das palavras para representar a tendência visual da nossa época, sem dúvida responderia “corpo” ou “auto imagem”. Acredito que não houve em outro momento um sentimento de controle do corpo, ou body control, como a atual. Somos donos da nossa identidade e a usamos para nos reafirmar. A selfie na frente do espelho para nutrir o ego, abriu espaço para os ensaios fotográficos e fotos espontâneas para mostrar nossas belezas naturais e casuais.

Claro que as redes sociais ajudaram no processo, os perfis abarrotam-se com posts conceituais e quase editoriais daqueles que por mero acaso acabaram se tornando influenciadores digitais. Ver alguém semelhante a você em situações antes exclusivas de modelos inacessíveis, facilitam essa identificação com esses famosos instantâneos. Principalmente se você pertencer a uma minoria.

Na ausência de pessoas para nos representar, recorremos ao cotidiano para construirmos nossas narrativas pessoais. Nessa lacuna vemos surgir vários personagens para todos os tipos de identidade, dentro do mesmo espectro representativo. Por exemplo, pessoas com deficiência, temos: cadeirantes, surdos, mudos, surdo e mudos, cegos e por aí vai. Qualquer um pode ser um representante de uma minoria, e isso não é demérito. É liberdade e, principalmente é resistência.

Entretanto, como disse acima, estamos na era dos corpos e com ela trazemos a luz um importante debate: até onde minha exposição vira objetificação?

Antes de iniciar meu ponto de vista, gostaria de deixar claro que não estarei defendendo uma posição conservadora em relação ao tema. Defendo a liberdade de todo mundo fazer o que quiser. Inclusive, se quiser, manda nudes! 😀

Para ilustrar esse pensamento, usarei como exemplo o questionamento da Matrioska no twitter que foi o catalizador dessa avalanche de ideias que vieram em minha cabeça esses dias, rsrs.

Quando comecei a me sentir confortável com meu corpo, me sentindo capaz de conquistar e seduzir alguém, tomei a decisão de fazer um ensaio sensual. Ver-me linda em uma foto era uma espécie de confirmação de minha capacidade de ser mulher. Após esse período me sentia confortável comigo, ao ponto de postar imagens que hoje pensaria duas vezes antes de publicar. Talvez seja essa pirada que a Raquel cita acima, mas também é como expus em um texto realizado para o blog “Cadeira Voadora”, da minha querida Laura Martins (que você pode ler completo aqui):

A fotografia possui uma força transformadora, especialmente quando não temos corpos dentro dos padrões, pois nos permite assumir papéis desconhecidos ao nosso ser, porém reveladores de uma essência adormecida. É como se por um instante tivéssemos o poder de ser o que sempre sonhamos. Talvez seja por este motivo que algumas pessoas com deficiência, após participarem de ensaios fotográficos, sintam-se mais confiantes ao observarem o resultado nas fotos.

Olivier Fermariello, fotógrafo italiano, autor do ensaio chamado “Je t’aime moi aussi” onde diversas pessoas com deficiência posavam nuas, defende que a deficiência é um espelho da sociedade, pois a maioria de nós não estão de acordo com os padrões da beleza manipulada. Por esse motivo, buscou retratar nas suas fotos situações variadas, transitando entre o cotidiano e a sensualidade com o propósito de tratar o tema nudez com a naturalidade que se espera para esses corpos. Ou como bem explicou a escritora Ellyn Kail, em seu blog Feature Post (no link há mais imagens do ensaio, mas cuidado, há cenas de nudez 😉 ),

“sob seu olhar, o corpo humano não é ignorado nem fetichizado, existindo em um continuum nuançado de desejo individual. À medida que suas imagens se movem sonhadoramente entre a esfera surreal do devaneio erótico e o escopo do todos os dias, o corpo nu torna-se um meio de desafio, uma afirmação corajosa do eu amoroso em uma cultura que o nega “. 

Descrição da imagem: modelo deitada em um sofá de modelo antigo e estofado marrom claro. Ela está usando uma camisola branca, pernas para cima, usando um sapato de salto alto vermelho e segurando um balão rosa em formato de coração. Na parede, de aparência antiga e descascada, há uma foto da virgem Maria.

Em entrevista para o site HuffPost, Olivier afirma que “a diversidade é assustadora para as pessoas porque reflete nossa aparência longe da perfeição. Quando se trata de assuntos como sexualidade e deficiência, geralmente nos sentimos desconfortáveis ​​e preferimos não falar sobre isso. A diversidade, portanto a deficiência, diz respeito a todos nós de certa forma e, como tal, a sociedade precisa combater seus fantasmas falando livremente sobre isso, a fim de crescer “.

Descrição da imagem: Imagem de um banheiro com azulejos brancos com pequenos detalhes pretos. No centro da imagem, em frente a um espelho está uma mulher anã com toalha enrolada nos cabelos, de costas em cima de um banco usando calcinha e sutiã azul escuro como se tentasse alcançar o seu reflexo no espelho. Ao seu lado esquerdo tem uma toalha rosada pendurada no suporte. Do direito, há um secador no chão sobre papéis, mas com o fio ligado na tomada.

A gente tem essa necessidade de se afirmar quando não estamos dentro da caixinha social, mas muitas vezes acabamos presas aos padrões. O corpo é nosso, mas as regras ainda são ditadas por eles. Nesse looping precisamos nos equilibrar na tênue corda entre minhas liberdades pessoais e minhas escolhas. Quero demonstrar que sou uma pessoa sexual e sensual para quem? Porquê? Deixar de mostrar meu corpo favorece a quem?

Pessoalmente, acredito que o limite está em nossas mãos. Cabe a nós a reflexão que esteja mais favorável com nossas convicções e estar preparada para suportar as consequências delas, sejam positivas ou não. Quando eu me mostro há ali vários sentimentos que dizem respeito ao modo que eu me vejo, porém quando alguém se vê em mim, o que sou deixa de ser único e se torna coletivo. Minha imagem se torna uma mensagem maior do que a inicial. Acredito que é neste ponto que devemos focar. O que diz a sua nudez? Qual é a voz do seu corpo, afinal?

Para finalizar, reitero que tudo está em completa transformação nesse mundo. Por isso, o que hoje pode ser diverso, amanhã se tornará padrão.

Link de apoio ao conteúdo:

http://www.beautifuldecay.com/2014/07/31/intimate-portraits-people-disabilities-questions-societies-notions-beauty/?view=true  

Deficiente, sexualidade e solidão: em busca do empoderamento

* Por Jhonatan Zati

Nós somos o país que mais mata pessoas LGBT no mundo. Segundo dados levantados de acordo com o GGB, Grupo Gay da Bahia, nossas estatísticas do ano de 2016 superam as do Oriente Médio e da África, em regiões em que a pena de morte por ser parte dessa parcela da população é legalizada.

Aproximadamente a cada 25 horas, uma pessoa é vítima da LGBTfobia no Brasil – mais ou menos uma por dia. Isso é medido de acordo com o que nos chega aos ouvidos, ou seja, há chances de o número ser ainda maior e nós nem sabermos.

Mas o que faz com que não fiquemos sabendo? Grande parte da responsabilidade se dá à impunidade; há pouquíssimos dias a ideia da criminalização começou a engatinhar nas sedes dos nossos poderes. Além disso, são crimes culturalmente acobertados e alimentados por uma construção social que teme o diferente e ridiculariza o que não se encaixa em seus padrões.

Gif de um homem conversando com outro e gesticulando com as mãos pedindo foco.

Sendo assim, partimos para o foco deste texto:

se nossa cultura assume uma postura de repulsa com o que não lhe é dito como natural, como ficamos nós, pessoas com deficiência, em meio a esse fogo cruzado? Lhes digo a partir de minhas próprias experiências.

Nossa sexualidade é nula. Ponto final. Não há discussão a esse respeito. Por mais que o estabelecimento de relações humanas se dê muitas vezes a partir desse ato considerado biológico, ele não está permitido se você não tiver seu corpo funcionando com destreza.

É como se eles dissessem “você não está socialmente autorizado a se abrir socialmente para relações, principalmente caso elas envolvam a sua sexualidade”.

Descobrir-se homossexual, então, envolve conflitos homéricos – é uma redescoberta de toda a sua função no mundo. Ao se revelar, você abre alas para que as pessoas destilem o seu receio – quiçá até sua repulsa compulsória – para com o que desconhecem.

É notória a solidão emocional a que somos submetidos quando nossos corpos são anomalias sociais. Quando são substituídos pelos corpos eficientes sem explicação qualquer.

Quanto aos aplicativos – seja sincero e talvez a sorte grande te abrace. Porque sua deficiência é repelente e, no máximo, sirva para que os seus alvos se sintam melhores com eles mesmos, afinal, “não se deve reclamar da vida se não tem deficiência”.

Gif de uma menina com uma feição irônica tirando e colocando os óculos como se estivesse provocando

Eu não sei de muitas coisas na vida, mas sei que cansei de fingir não ver algo que está a palmos de distância: nascemos para o ostracismo, em qualquer uma de suas formas. Mas me recuso a aceitar essa covardia. A vida nos oferece mais do que pode parecer.

Jhonatan Zati tem 22 anos é graduando em Letras pela Universidade Federal de Alfenas (MG). Possui paralisia cerebral e gentilmente aceitou escrever para o blog. Se considera “crítico, observador e fascinado pelo mundo. Artista wannabe e deficiente com orgulho.”