Representatividade nas eleições, o perigo do conto do vigário

Iniciamos mais um processo político em nosso país. Desde as eleições de 2014 fomos golpeados com momentos turbulentos seguidos de dias bastante temerosos. Mudanças em diversos setores importantes para a sociedade foram realizadas ao que chamamos “toque de caixa”, um após o outro apesar dos apelos populares. Tivemos gritos de revolta, gritos de apoio e assistimos diversos personagens importantes sendo acusados e presos por corrupção. Acompanhamos tudo com aquela sensação terrível de impotência.

Descrição: Imagem do personagem Caco, um sapo, com a mão esquerda na boca tremendo ansiosamente. Fim da descrição.

Vimos também o assassinato de Marielle Franco, seguida de toda morosidade do processo de investigação. Novamente, acompanhamos atonitamente mais um episódio de impunidade, desta vez alcançando uma figura de importância política, defensora dos direitos humanos. Até hoje, dia 20 de agosto de 2018, o crime segue sem culpados.

No Congresso, a mesma rotina que nos lembra o refrão da cantiga do programa “A praça é nossa”: “A mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores, o mesmo jardim. TUDO É IGUAL.”

Enquanto isso, na margem das discussões, partidos se organizam para formularem suas chapas e alianças para conquistarem mais um período de quatro anos no poder. A baixa popularidade do presidente e suas reformas fez com que deputados e senadores mudassem suas legendas afim de confundir o eleitor. Nos bairros de periferia já podemos ver o milagre das verbas para obras eleitoreiras. Aquela rua que o vereador X disse não ter verba para fazer, aparece no dia seguinte com tratores e asfalto “gentilmente” concedidos pelo candidato a deputado do mesmo partido do vereador. Coincidências apenas.

Sua representatividade…

Descrição: Imagem em movimento de uma mulher com roupa esportiva dançando como uma bailarina da direita para esquerda. O passo consiste em levantar uma perna para cima fazendo surgir um arco-íris que some ao fechar as pernas e iniciar o mesmo passo para o outro lado repetindo o efeito. Os braços balançam seguindo o ritmo da dança. Fim da descrição.

Ao contrário dos últimos anos, nestas eleições vemos um apelo pela diversidade. Diversas pautas exploradas pelos movimentos sociais são transformadas em proposta de governo por diversas candidatas e candidates a Senado e Câmara. Essa mudança nos planos demonstra a força das lutas feministas, da condição do negro e dos LGBTQ, porém infelizmente ainda não temos a mesma potência para pessoas com deficiência.

Em seminário promovido pelo Supremo Tribunal, chamado “Elas Por Elas”, a ministra Rosa Weber critica a diferença entre a quantidade de candidatas e a quantidade de eleitoras, 52,5% do eleitorado brasileiro é feminino, porém apenas 30,7% das candidaturas são de mulheres.

“Façamos, mulheres, ao exercer todas nós esse direito essencial da cidadania que é voto, a diferença para um fortalecimento para o estado democrático de direito, conquista diária e permanente de todos nós, com a consciência de que em nossas mãos, mulheres, está o destino do País, com a construção de sociedade que todas queremos, igualitária, justa e inclusiva.”

Em contrapartida, esse ano tivemos um aumento de candidatos LGBTQ. Segundo a matéria “População trans reage a transfobia e se candidata nas eleições de 2018” do site NLCON, pelo menos 47 candidaturas foram registradas de acordo com o levamento realizado pela ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais). Acredita-se que os diversos casos de homofobia e transfobia tenham sido motivador para busca de uma representação política do grupo, afim de legitimar suas existências.

Também houve um aumento na quantidade de candidatos negros, 9% a mais em relação a última eleição em 2014. É importante lembrar que de acordo com números da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) divulgados no fim do ano passado, a população é formada em maioria por negros: 54,9%, sendo 46,7% de pardos e 8,2% de pretos. Esses dados mostram a importância da representatividade deste grupo, uma vez que ainda temos uma maioria branca ocupando os cargos.

… pelo seu voto

Vote consciente
Descrição: Desenho de várias mãos, nas cores azul e alaranjado, segurando papéis de voto para colocar em uma urna branca no lado esquerdo inferior. Fim da descrição.

É satisfatório observar o aumento de nossas representatividades nessas eleições, é como se reacendêssemos uma chama de esperança diante deste cenário turbulento que estamos vivendo nos últimos anos. Afinal, para garantir nossos direitos (ou o que nos resta deles) precisamos de deputados/senadores que estejam alinhados com as necessidades aclamadas pela sociedade. Caso contrário, novamente assistiremos um espetáculo de conchavos e interesses escusos.

Mas não devemos nos enganar pela roupagem apresentadas em campanhas. Nem todo político ali terá o compromisso com seus eleitores, há muito de estratégia de marketing e pouca escuta nas falas e projetos. Terá muito candidato (a) a favor das mulheres, contra a discriminação às pessoas com deficiência, a transfobia/homofobia/racismo e cheio de intenções em transformar esse país em um reduto de amor, porém não se engane. 

Observe a trajetória dessas pessoas, o que realizaram durante os anos de mandato, como se portaram diante das decisões turbulentas que passamos, veja se as propostas são viáveis e possíveis de se realizar. E o mais importante: vamos cobrar resultados!

Agora se você tem deficiência e está lendo esse texto, fique COMPLETAMENTE alerta com os (as) candidatos(a). Perdemos muitos direitos nos últimos anos, seremos duramente afetados pelo congelamento de verbas na saúde, na educação corremos o risco de sermos impedidos de frequentar as mesmas escolas e ter a mesma qualidade de ensino das outras pessoas sem deficiência. Há muitas coisas ameaçando nossas existências, aprovadas por quem não tem deficiência e também por aqueles que tem deficiência (com condições bem diferentes da maioria da população).

Nesse momento tão frágil em nossa democracia, não basta somente nos representar. É preciso nos escutar.

 

Deficiente, sexualidade e solidão: em busca do empoderamento

* Por Jhonatan Zati

Nós somos o país que mais mata pessoas LGBT no mundo. Segundo dados levantados de acordo com o GGB, Grupo Gay da Bahia, nossas estatísticas do ano de 2016 superam as do Oriente Médio e da África, em regiões em que a pena de morte por ser parte dessa parcela da população é legalizada.

Aproximadamente a cada 25 horas, uma pessoa é vítima da LGBTfobia no Brasil – mais ou menos uma por dia. Isso é medido de acordo com o que nos chega aos ouvidos, ou seja, há chances de o número ser ainda maior e nós nem sabermos.

Mas o que faz com que não fiquemos sabendo? Grande parte da responsabilidade se dá à impunidade; há pouquíssimos dias a ideia da criminalização começou a engatinhar nas sedes dos nossos poderes. Além disso, são crimes culturalmente acobertados e alimentados por uma construção social que teme o diferente e ridiculariza o que não se encaixa em seus padrões.

Gif de um homem conversando com outro e gesticulando com as mãos pedindo foco.

Sendo assim, partimos para o foco deste texto:

se nossa cultura assume uma postura de repulsa com o que não lhe é dito como natural, como ficamos nós, pessoas com deficiência, em meio a esse fogo cruzado? Lhes digo a partir de minhas próprias experiências.

Nossa sexualidade é nula. Ponto final. Não há discussão a esse respeito. Por mais que o estabelecimento de relações humanas se dê muitas vezes a partir desse ato considerado biológico, ele não está permitido se você não tiver seu corpo funcionando com destreza.

É como se eles dissessem “você não está socialmente autorizado a se abrir socialmente para relações, principalmente caso elas envolvam a sua sexualidade”.

Descobrir-se homossexual, então, envolve conflitos homéricos – é uma redescoberta de toda a sua função no mundo. Ao se revelar, você abre alas para que as pessoas destilem o seu receio – quiçá até sua repulsa compulsória – para com o que desconhecem.

É notória a solidão emocional a que somos submetidos quando nossos corpos são anomalias sociais. Quando são substituídos pelos corpos eficientes sem explicação qualquer.

Quanto aos aplicativos – seja sincero e talvez a sorte grande te abrace. Porque sua deficiência é repelente e, no máximo, sirva para que os seus alvos se sintam melhores com eles mesmos, afinal, “não se deve reclamar da vida se não tem deficiência”.

Gif de uma menina com uma feição irônica tirando e colocando os óculos como se estivesse provocando

Eu não sei de muitas coisas na vida, mas sei que cansei de fingir não ver algo que está a palmos de distância: nascemos para o ostracismo, em qualquer uma de suas formas. Mas me recuso a aceitar essa covardia. A vida nos oferece mais do que pode parecer.

Jhonatan Zati tem 22 anos é graduando em Letras pela Universidade Federal de Alfenas (MG). Possui paralisia cerebral e gentilmente aceitou escrever para o blog. Se considera “crítico, observador e fascinado pelo mundo. Artista wannabe e deficiente com orgulho.”