Imagem com fundo avermelhado com uma ilustração de uma pessoa andando de bengala em frente a um painel com várias ilustrações de pessoas com deficiência. No meio a frase em branco "Um olhar sobre a deficiência" e no rodapé, também em branco, o logo do blog.

Um olhar sobre a deficiência

Por Amanda Gondim

Oi pra você que está lendo esse texto com seus olhos, espero que seja interessante porque confesso que por conta da minha baixa visão eu levei um tempo maior do que geralmente levaria.

Foto de Amanda estilo selfie. Ela tem cabelos castanhos um pouco ondulados, está com um sorriso delicado. Está usando uma blusa preta e o fundo da imagem sugere que ela está sentada em um banco acolchoado cinza.
#pratodosverem Foto de Amanda estilo selfie. Ela tem cabelos castanhos um pouco ondulados, está com um sorriso delicado. Está usando uma blusa preta e o fundo da imagem sugere que ela está sentada em um banco acolchoado cinza. Fim da descrição.

Bom, eu sou Amanda, mas pessoas me conhecem mais como Gondim. Sou advogada em Direito de mulheres, lgbtqs, a minha causa são os direitos humanos, uma forma de ressignificar o direito na minha vida e viver com um propósito, porém mais recentemente as pessoas com deficiência passaram a estar inseridas na minha percepção de mundo e ser humano.

Pra que isso ocorresse precisei ir além do convívio com essas pessoas durante a vida toda. Precisei viver essa realidade, esse mundo diverso do que fui condicionada a tentar me encaixar nas ilusórias construções sociais de padrões inalcançáveis.

A minha diabetes tipo 1, que caminha comigo desde a infância ativou em mim uma retinopatia diabética proliferativa e então vivo esse processo de perda gradativa da visão desde o ano de 2015 e de lá pra cá me vejo em um mundo diferente e que talvez, se eu não vivenciasse, não reconheceria sua existência. A baixa visão me trouxe uma nova perspectiva sobre a sociedade e como não somos educados para conviver e reconhecer as particularidades dos indivíduos.

Mesmo sendo mulher, advogada em direito de mulheres, lgbts, e ser portadora de diabetes tipo 1, já vivi em meu cotidiano e enfrentei na área profissional e pessoal, situações desumanas e desesperadoras, mas me deparo com esse novo mundo de pessoas que sempre estiveram aí e são invisíveis à sociedade e condicionadas em um capacitismo horrível que remove delas suas particularidades, potencialidades e vontades tornando algumas tentativas de inclusão, uma verdadeira hipocrisia que só nos mostra que a perda dessa habilidade sensorial não é uma tragédia particular e sim social.

Partindo disso, quero mostrar a realidade e o processo de uma pessoa comum em seus enfrentamentos com a baixa visão, e no meu caso, a questão do direito e dos grupos vulneráveis e trazer a informação e desconstrução dos preconceitos sobre as pessoas com baixa visão e as diferentes perspectivas que enriquecem a experiência humana.

Quero deixar uma mensagem positiva à todxs que assim como eu vivenciam situações e experiências sob um olhar ressignificativo. E que ressignificar nossa vida é uma oportunidade incrível. Além de promover a desconstrução desse papel de vítima ou de super-herói que em alguns momentos acabam sendo colocados nas pessoas com deficiência.

Desejo mostrar a realidade desse processo e dar uma voz às pessoas que possuem deficiência. A sociedade ainda esconde a pessoa com deficiência sob pretensões deturpadas de inclusão e os caminhos para que consigamos o respeito e o reconhecimento como pessoas de direitos são a educação, a informação, a inserção nos espaços e a representatividade.

Ilustração: Dadu Shin | Foto: Arquivo pessoal


Amanda é advogada, feminista, ativista em direitos das mulheres, ascendente em áries e umbadista. Arquétipo de Xangô, acredita que o amor é a maior forca que existe e luta pela justiça. Tem diabetes do tipo 1, é deficiente visual e mãe de um gato chamado Ice.

Sobre cafeterias inclusivas, final do ano, filantropia e mundo melhor

Por Manoella Back

Para quem não sabe eu vivo em Blumenau/SC e é daqui que vem a “Cafeteria Especial” que, por sinal, fica super pertinho de onde moro. A Cafeteria Especial tem no seu quadro de funcionários pessoas com Síndrome de Down. Os elogios a iniciativa estão sendo unânimes, é claro. Mas a gente sempre faz questão de chamar a galera para pensar um pouquinho: muitas pessoas com deficiência fogem dos termos capacitistas e gostam de dizer “que estão na luta de pessoas deficientes”. Mas por que então exaltar uma atitude cuja a nomenclatura se refere a gente um termo tão excludente como “Especial”?

Aceitar o termo “especial” não nos coloca na categoria de seres humanos que merecem ser reconhecidos como outro ser humano. E vocês conseguem entender o motivo? Sim, meus queridos! Ter deficiência é um conceito de relações que não nos faz melhor, nem pior que nenhuma outra pessoa. Em outras palavras: não estamos nem ao céu, para sermos chamados de “especiais” e nem ao inferno para que adotem o termo “aleijados”. Mas é justamente neste céu e inferno que a sociedade ainda insiste em nos colocar silenciosamente.  É tão prejudicial quanto o outro termo midiático e socialmente aceito que é o “Exemplo de Superação” sendo que, na realidade, a gente não supera porra nenhuma. Só precisa lidar com um mundo incrivelmente inacessível e injusto. Pensar em nomenclaturas pode até parecer uma perda de tempo para alguns.

Mas não é à toa que as e os grandes teóricos da deficiência pensam nelas há mais de 20 anos já que ouvir, ler e cunhar determinadas palavras e relacioná-las às deficiências dói muito. E o termo “especial” a uma cafeteria que busca inclusão precisa, sim, ser revisto. E por falar em cafeteria, tive uma prévia deste projeto na penúltima Feirinha da Servidão – feira que acontece mensalmente aqui na cidade – em que uma moça apoiadora do projeto da cafeteria inclusiva me atendeu e eu realmente fiquei me questionando se as pessoas com Down serão emancipadas para realizar o atendimento ao público ou se serão rostos que as associações utilizarão para se promover como reza a vã filantropia.

E já que falamos em filantropia, causa PCD e estamos em época natalina preciso lembrar que nada se compensa com suas bondades e orações, senhoras e senhores. Nada se compensa com doações ou caridade. Filantropia sempre foi prática das classes dominantes em busca do reconhecimento social, alcance de poder e até absolvição divina. Mas calma! De forma alguma estou a julgar quem resolver visitar orfanatos, hospitais ou fazer doações com fotos em suas redes sociais neste fim de ano. Mas vocês já tentaram se comprometer com programas permanentes ou até com um ideal de país igualitário? Confesso que dá muito mais trabalho, menos holofotes, mas pode ser até mais gratificante: são estas as iniciativas verdadeiramente capazes de mexer nas estruturas das desigualdades que precisamos modificar.

E nós “defiças” nesse rolê todo?

Não adianta vocês frequentarem os “Cafés Especiais” da vida se colocam em cheque o ponto de vista defendido pela pessoa com deficiência ou não dá voz a ela. De nada adianta, amores, ir a cafeterias inclusivas se as pessoas com deficiência da sua empresa estão lá só para preencher as cotas, com cargos auxiliares ou para que você não pague uma multa. Finalmente, de nada adianta se você, pessoa sem deficiência, se sente “tocado” pelas nossas pautas mas estaciona na vaga preferencial quando vai à igreja pedir remissão de seus pecados.

Por último, desejo um ho, ho, ho de todo o coração para quem REALMENTE nos respeita e não compactua com quem diz que minorias devem se curvar às maiorias.

Um 2019 de muita luta, saúde e energia para nós!


Manoella Back é jornalista, especialista em Cultura & Literatura, aquariana-louca-da-astrologia, fã de Harry Potter, samba, teatro, cerveja e MPB. Luta por um mundo melhor por meio da justiça, direitos humanos e promoção da igualdade.


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Dia Nacional da Luta das pessoas com deficiência

Dia Nacional da Luta (diária) das pessoas com deficiência

Hoje dia 21 de setembro é considerado o dia nacional da luta das pessoas com deficiência, porém hoje também comemoramos o dia da árvore. Antes de achar se tratar de uma coincidência, saiba que a escolha desta data foi intencional, aproveitaram a proximidade da primavera para inspirar em seu simbolismo principal: nascimento. O florescer da estação representa o surgimento de uma nova era de busca pela inclusão.

Dizem que a escolha da data foi ideia de Cândido Pinto de Melo, um dos fundadores do Movimento pelos Direitos das Pessoas Deficientes – MDPD, organização de pessoas com deficiência que já se reuniam mensalmente desde 1979, e discutiam propostas de intervenções para a transformação da sociedade paternalista e da ideologia assistencialista.

Descrição da imagem: Foto de Cândido sorrindo. Ele está com camisa branca, possui barba densa um pouco grisalha, cabelos grisalhos cacheados e usa óculos. Fim da descrição.

Recentemente, tenho estudado muito a respeito da vivência com deficiência, de teorias sobre o corpo e todo tipo de conceito acadêmico capaz de dar conta dos meus questionamentos. Por isso, ao pesquisar sobre o que escrever hoje fiquei pensando no que representa ter uma data exclusiva para celebrar toda uma jornada em busca de fazer valer nossos direitos.

Tantas pessoas se esforçaram nesse caminho, tanto se discutiu qual seria a melhor forma de nos classificar. De médicos para sociólogos. De homens com deficiência para mulheres com deficiência. Tivemos necessidades especiais, depois portamos nossas lesões e hoje somos “alguém com”.

Deixarei aqui como confissão ainda não saber toda a nossa história, desconheço grande parte das pessoas que lutaram por nós no Brasil, apesar de estudar muita coisa. Talvez seja por anos de desinteresse e, de certo modo, resistência em reconhecer a deficiência como parte de minha identidade. Minha atuação se fortaleceu nos últimos anos, coincidindo com a aceitação do meu corpo por meio do feminismo.

Ah, o feminismo. De suma importância para nós, mulheres, porém essencial para o reconhecimento do cuidado na vida de alguém com deficiência. Se por um lado buscamos nosso reconhecimento como indivíduos capazes de tomar decisões de forma autônoma, por outro necessitamos reconhecer e respeitar nossos impedimentos físicos, de modo que não signifique um sinal de incapacidade, mas de característica das nossas vivências. Esse recorte foi graças às mulheres com deficiência feministas. 

As barreiras arquitetônicas ainda existem, seguem imensas, estreitas, com vários degraus, sem descrições, sem sinais, em silêncio obrigatório. Espreitam nas esquinas de lugares públicos, daqueles destinados a determinado público e não a todos. 

Descrição da imagem: Desenho colorido de um rapaz usando bengala ao centro olhando para o interior da imagem. No fundo diversos desenhos em preto e branco estão espalhados, são pessoas com diversos tipos de deficiência andando e algumas com placas de protesto. Fim da descrição. Image by Dadu Shin

As barreiras atitudinais também persistem, porém às vezes elas perdem a força. No contato com o diferente, na busca de entender o outro, há momentos em que a dúvida vira entendimento e, de repente, ganhamos um aliado nesta jornada

A caminhada será longa, muitas vezes difícil e solitária como toda luta contra esse gigante sistema padronizado. As engrenagens da máquina seguem firmes, tentando controlar nossas existências. Uma hora ela inverte a produção, percebe que a demanda mudou, a voz nas ruas (agora virtuais) é mais alta do que o barulho da grande tela. Aliás, agora manifestação está ao alcance da mão, roda o mundo inteiro e conecta ideias.

É tempo de florescer e renovar as forças para continuar. Feliz nosso dia, feliz todos os nossos dias de luta! 

Do auto ódio ao que se dane padrões

Por Manoella Back

 

Você já sentiu ódio de si? Pois este é algo que nos acomete/ acometeu por diversas vezes. Consciente ou inconscientemente. Muitas delas por não corresponder aos sinais fenotípicos ou normalizados por uma sociedade de padrão europeu e sem quaisquer limitações de bom senso.

“Ahhh, mas Manu, todos nós já nos odiamos e blá, blá”… ZZZzzz

Sim, mas somos indesejáveis em algum momento de nossas vidas como naquela escola tida como “de valores” ou “inclusivas” quando colegas e professores são excludentes em suas aulas.

Somos indesejáveis quando empresa “X” te limita aos cargos menos valorizados ou teus colegas te colocam para fazer trabalhos mecânicos e que “não precisam pensar” – sim, eu já ouvi isso! – mesmo sabendo dos seus quereres e capacidades.

Há aqueles que, não importa o teu esforço, não te reconhecem porque meritocracia é coisa para gente reacionária ver e história para boi dormir.

E aquele boy/ girl mega progressista que diz que te ama, te admira (ahaaam, seeeei!) mas que não te assume? Isso é porque você é defiça, meu bem! Isso e mais o auto ódio.

Porque as pernas não se mexem. Ou não se mexem como deveria. Ou porque você não ouve. Não enxerga como “dizem ser para enxergar”. Por causa da ausência de muitas políticas públicas. Por causa de uma mídia que não te representa ou faz uso de humoristas racistas e capacitistas em trabalhos duvidosos e desumanos.

Ou quem não lembra dos anões do Pânico na TV?

Preconceitos e afetos velados.

Descrição: Desenho de uma silhueta feminina em branco com pontilhados para recortar contornando. Ela está sentada em uma cadeira preta. Fim da descrição. Imagem de Stephen Wood

Nosso discurso no espaço privado e micropolítico é silenciado. Quando se é mulher e tem deficiência, nem se fala. Porém, quando você consegue ter força o suficiente para fazer com que sua voz ultrapasse algumas fronteiras receberás aplausos de quem te criticou. Participarás de mesas com educadores ou artistas em que as palavras construção, liberdade de criação, subverter, acolher, respeitar e libertar serão constantes mas, ao atingir, as questões da deficiências, estas mesmas palavras se transformarão em “problema” ao tocar o tema da deficiência ou suas experiências são surrupiadas sem dó, nem piedade. Ou seja, aceitação e inclusão até a página 7.

De novo, nós, submetidas e submetidos às relações de poder normatizadas. Há quem diga constantemente que somos tímidos ou nos pintem “sem querer querendo” como “dóceis”. Mas é a história. De subjugação. É o silenciamento que nos faz estar ou deixar de estar em determinados espaços.

Levantar estas questionamentos me recorda uma passagem de Simone de Beauvoir em O Segundo Sexo em que aponta que “somente as que têm um credo político, que militam em sindicatos, que confiam no futuro, podem dar um sentido ético às ingratas fadigas cotidianas.”  Puxo esta afirmação aos desafios de pessoas com deficiência e minorias para que se promova o poder de questionar o que mundo nos oferta.

Para quem leu ou releu até aqui, sinto desapontar. Os que nos leem com mais frequência por aqui sabem que somos mega bem humorados, mas desta vez, aquelas palavrinhas que podem te deixam com borboletas no estômago não vão rolar. Auto ódio não é brincadeira: são nossas autoestimas e formas de olhar, rir e viver a vida em jogo. Não tenho uma pílula mágica sobre como lidar com o auto ódio. Eu só encontro palavras como imposição e enfrentamento. Em tudo. Para todos.

Há quem me acuse de ressentida ou atribua adjetivos do tipo. Mas quero crer num processo de construção intelectual/ cognitiva em conjunto. Empatia, pode ser, mas só para facilitar o rolê porque ela ainda é uma palavra bonitinha-da-malandragem.

Não tenho respostas porém, faço perguntas: é fácil não nos ressentir frente às atuais conjunturas sociopolíticas que deficientes, mulheres e outras minorias vivem? O que esperar de famílias, amigos, relacionamentos ou governos além do que está [im]posto? O campo dos comentários está aí para que vocês reflitam comigo. Quero é fumacinha saindo de nossas cabeças de tanto pensar. Vem comigo?


Manoella Back é jornalista, especialista em Cultura & Literatura, aquariana-louca-da-astrologia, fã de Harry Potter, samba, teatro, cerveja e MPB. Luta por um mundo melhor por meio da justiça, direitos humanos e promoção da igualdade.

 

Entre o mundo de lá e o mundo de cá: A epopéia das pessoas com deficiência

O texto de hoje é de autoria do Lucas Lopes, seguidor e admirador da página. Apesar de ser muito jovem, chamou minha atenção pelas suas palavras, principalmente pequenos poemetes em que coloca para fora suas reflexões sobre ter deficiência. Por esse motivo, o convidei a escrever para vocês afim de encorpar ainda mais nossas discussões por aqui.

Por isso, sejam bem carinhosas e carinhosos com ele, hein? 😉


Meu nome é Lucas Silva Lopes, tenho 22 anos, sou estudante de Direito, moro no interior de São Paulo e tenho paralisia cerebral, com resultado sempre andei com as perninhas tortas e um pouquinho atrapalhado.

Bem, minha infância foi como a maioria das pessoas com deficiência neste país, permaneci a maior parte do tempo no trajeto entre casa, instituições de reabilitação e a escola.

Infância? Nunca tive muitos amigos, sempre ficava admirando e invejando o “mundo de lá”, o mundo das pessoas que caminhavam sobre dois pés e que conseguiam se enxergar mutuamente com tanta naturalidade – e que nunca era dirigido a mim da mesma forma.

Foi no ingresso à Universidade, junto com a entrada para a vida adulta, que pouco a pouco fui adentrando e me vi imerso ao “mundo de lá”.

Sempre tentei deixar bem claro o quanto eu era privilegiado por ter deficiência e poder frequentar a universidade, ao contrário das outras pessoas com deficiência, e que essa desigualdade decorria muito mais das barreiras atitudinais e arquitetônicas do que qualquer falta de vontade.

Entretanto, não importava o que eu falava, pois sempre era tomado enquanto objeto motivacional? Isso é um saco, não?

A pessoa com deficiência com aura angelical cujo único projeto de vida é inspirar os outros: por incrível que pareça eu estava no “mundo de lá” e mesmo assim não recebia aqueles olhares de naturalidade que eu tanto invejava.

A gente sabe, não sabe? Quando alguém é extremamente sociável conosco, mas no fundo dos olhos tem aquele incômodo lasco de piedade que parece que anula qualquer outra característica ou potencialidade que portemos.

Descrição: Imagem de um labirinto e uma pessoa cadeirante presa em um lugar sem saída. Fim da descrição.

Eis que surge o grande paradigma da integração: fisicamente eu estava naquele espaço, no “mundo de lá”, mas me via impedido de usufruir dele da mesma forma e na potencialidade dos demais, ante as gigantes barreiras atitudionais. 

Acredito que todo mundo já tenha tido essa sensação, não? A constante sensação de distância de tudo e de todos, mesmo que espacialmente tudo esteja ao seu alcance.

Me despedacei, me esgotei para suprir (baixas) expectativas das pessoas que andam sobre dois pés, mas acontece que não podemos sempre nos sentirmos responsáveis em dar desfecho ao preconceito e à falta de maturidade emocional de todo mundo, não é mesmo?

Desde então descobri que podemos coexistir no “mundo de lá” e no “mundo de cá”, sem pedir permissão para ninguém.

Aos companheiros e companheiras com deficiência que vivem no “mundo de cá”: O “mundo de lá” não é tão bom quanto o fazem parecer, mas ainda sim temos tanto direito sobre ele como as demais pessoas.

Àqueles que tem o privilégio de transitar entre os dois mundos: em nome de nosso bem-estar mental não precisamos nos responsabilizar sempre pela falta de empatia alheia, nem comprar a imagem midiática de que as pessoas com deficiência devem vencer todos os obstáculos com um sorriso no rosto e o coração aberto – e que se o rumo da história for diferente é porque não nos esforçamos o suficiente.

Podemos sim jogar as cartas na mesa (quando quisermos) e cobrar que cada um enfrente preconceito de forma responsável, principalmente quando revestido por condutas caridosas ou guiadas pela piedade.

Independentemente do lado que você esteja é importante que mantenhamos em mente que merecemos o mesmo respeito, oportunidade e dignidade que são atribuídas às pessoas com deficiência e que NÃO SOMOS OBRIGADOS a aceitar nada a menos.

Não podemos nos contentar com resquícios de atenção e bondade, até por que somos seres humanos por inteiro, não é mesmo?

 

Imagem de Stuart Briers para matéria no NY Times

A revolta pelos Canudos

Quem já segue as redes sociais do Disbuga sabe o quanto os últimos dias foram agitados para pessoas com deficiência por causa da polêmica gerada em torno de uma postagem sobre o banimento dos canudos de plástico nos estabelecimentos. Se você não está sabendo o que aconteceu, continue a leitura que vou explicar o que aconteceu.

No dia 10 de julho, Marina começou a expor no Twitter como essa política de banimento dos canudos plásticos prejudicaria a vida das pessoas com deficiência. Foram vários tweets onde ela apresentava justificativas e explicações baseadas em informações sobre tipos de deficiência, produção de lixo e a ausência de inclusão desta medida.

Descrição: Print do tweet de Marina com o texto “As pessoas que comemoram o fim do canudo plástico, que é dobrável e não machuca, nunca tentaram dar nada pra um PcD como eu beber. Just saying” Fim da descrição.

Várias pessoas começaram a expor suas experiências pessoais ou com familiares para endossar a importância da fala de Marina. Foram diversas curtidas e retuites que surpreenderam a própria autora do debate. Entretanto, quando falamos de internet tudo pode acontecer.

Guerra dos Canudos

Como haveria de ser, várias (mas VÁRIAS) pessoas começaram a explicar maneiras de driblar a ausência de canudos, com soluções “sustentáveis” para Marina, como se sua fala reduzisse apenas às suas necessidades. Surgiram diversas opções de canudos de alumínio, bamboo, silicone, de papel, laváveis, biodegradáveis e alguns até apareceram com engenhocas dignas do doutor Buginganga, porém nenhuma dessas pessoas se atentou ao básico de toda discussão: inclusão.

Descrição: Imagem com fundo branco. No centro, o texto em destaque “Por que as pessoas, ao invés de quererem banir, não cobram às empresas que treinem para quando você recusar o canudo, o funcionário vai lá e coloca na bandeja do mesmo jeito? Quer o canudo? Não quer? Deixar de usar o canudo, diminui o consumo, mas não acaba com a produção. Tem gente que precisa, o uso é essencial para alguns”, ressalta.” Fim da descrição

Tal comoção resultou em matérias no Buzzfeed e no G1 de Campinhas que levaram a conversa para além da rede social dando início a uma verdadeira Guerra dos Canudos. De um lado, pessoas supostamente preocupadas com a preservação do meio ambiente. Do outro, pessoas tentando explicar como a medida exclui uma parcela da sociedade. Uma onda de ataques direcionados à Marina fez com que várias pessoas com deficiência rebatessem as mensagens negativas. Foram dias bastante turbulentos, porém muito reveladores. 

O show de horrores

“Se quiser por à prova o caráter de um homem, dê-lhe poder” disse Lincoln e nesses dias pude observar a essência desta frase. Foram tantas manifestações singelas e escancaradas de todos os tipos de preconceito, que fica até difícil enumerar aqui. Por esse motivo, vou separar alguns assuntos para facilitar.

  1. Capacitismo: este é o mais claro e óbvio de todo debate. Diversas pessoas ignoraram a fala de Marina com o falso pretexto de expor soluções ao problema, para simplesmente assumirem suas decisões. Essa atitude é comum nas pessoas sem deficiência, grande parte se acha mais capaz de avaliar nossas necessidades e desqualificam nossos argumentos, considerando-os “má vontade” ou “rebeldia”. Comentários do tipo “nossa, mas você nem tentou fazer tal coisa” ou “ah, mas você também quer o quê?” são típicos exemplos capacitistas. Sem contar, nos ataques diretos à pessoa.
  2. Machismo: diversas mulheres com deficiência falaram sobre a importância da fala de Marina, expuseram dados e informações relevantes sobre o tema. Entretanto, alguns homens não só ignoraram sua fala, como sequer compartilharam as postagens de outras mulheres. Aliás, é bem comum observar como alguns homens (inclusive com deficiência) desvalorizam nossas falas, assumem nossos protagonismos e ignoram completamente nossas discussões sobre feminismo. Mas, como costumam dizer: nada novo sobre o sol, não é mesmo?
  3. Ambientalismo fake: Aqui a discussão assume até um caráter jocoso. Foi impressionante observar como as pessoas são incoerentes quando se fala de medidas para salvar o ambiente. Alguns casos é possível notar a falta de conhecimento sobre o processo de produção de lixo, contudo em outros percebemos o esvaziamento do discurso. Ora essas, se você usa um canudo por hobby e não por necessidade real, de nada importa se ele é de bamboo ou inox. Você é apenas um hipster tentando ganhar likes pela postura “sustentável” que tem.

O assunto é inclusão

Essa discussão que Marina propôs é conhecida e arduamente debatida pelas comunidades de pessoas com deficiência nos outros países, tendo como foco o mesmo ponto: inclusão.

Nós não pedimos pela poluição dos oceanos, tampouco somos contra tartarugas, mas questionamos o verdadeiro sentido deste banimento. Retirar um produto de circulação não resolve nem 10% de uma situação grave como a produção de lixo no mundo, apenas dificulta a vida de uma parcela da população.

Inclusão é garantir um modo de vida em que TODA pessoa possa existir sem prejuízo de valor. Encontrar lugares acessíveis (ou minimamente acessíveis) é uma das maiores dificuldades que temos. Há toda uma ansiedade envolvida quando resolvemos sair de casa por causa disso, portanto não é correto nos onerar com mais essa questão.

Não tenho que sair de casa com canudo, porque não é algo que diz respeito somente a mim. Também não diz respeito somente a Marina, afinal não somos as únicas pessoas com deficiência no mundo. Diz respeito a todos.

Infelizmente, bem sabemos que esta discussão vai perder sua força, o banimento vai seguir progressivamente e nós mais uma vez teremos que inserir mais um item em nossas listas. Hoje é o canudo, e amanhã?

 

 

O capacitismo nosso de cada dia nos dói hoje

O texto de hoje é da Manoella Back (lembram dela?) onde expõe uma experiência bem desagradável, mas que trouxe reflexões interessantes para ela. Vamos conferir?

O que eu mando aqui no Disbuga hoje é um certo sustinho que eu tive exatamente há um ano. Dores. Algumas dores. Sempre defendi que toda pessoa com deficiência carrega dores. Mas as que volta e meia se instalam em mim são as emocionais. Que diga esta minha Lua em Câncer!
Porém aqui, me refiro às últimas dores físicas deste um ano atrás mesmo.

Para quem não sabe, há 16 anos eu fiz uma cirurgia bastante séria e, a grosso modo “colocou minhas pernas tortas no lugar.” Doeu tanto que, no último ano, achei que iria para a faca novamente. Mal estava andando. Mas mais do que as tais dores físicas, foram as feridas emocionais que estavam abertas outra vez. Lembro exatamente como tudo aconteceu, até ter virado “textão” aqui por estas redes.

Descrição: Imagem com fundo preto e várias frases vermelhas em inglês. No meio, um desenho em preto e branco de um jovem cadeirante com uma mão no rosto em uma expressão cansada. Fim da descrição.

Havia feito raio X, soro e algumas horinhas de hospital. Ao entrar no Pronto Atendimento, pedi ajuda para minha mãe caminhar comigo quando a enfermeira veio com “voz de pedagoga de educação infantil”:

– Mamãe, ela é especial?

Fiz a minha maior cara de “WHAT A FUCK?!?”

E a enfermeira continuou como se meu carão de nada servisse: “Ahhhh, é sim! Todos somos especiais, né?” [blá, blá, blá]…

É óbvio que não aguentei, dei piti, daria outro se fosse preciso, discursei o que gostam de chamar de politicamente correto na frente da equipe médica que o meu “problema” não era mental como eles estavam interpretando e que ninguém precisava falar comigo naquele tom. Aliás, mesmo se minha limitação fosse mental, não falariam assim comigo. Aquela forma de tratamento não foi justa. Desde a infância eu passava por isso. Expus meus pontos de vista e projetos de vida afim de que se calassem.

Precisei me reafirmar e mostrar que eu não aceito que me tratem como tola. De novo!

Eu chorei, o povo se escandalizou e eu falei alto. Falaria de novo se fosse preciso. Doeu a alma. Entretanto, como falei para vocês, fui breve.

O que eu quero dizer com tudo isso? O preconceito aparece onde a gente menos espera. As pessoas não estão preparadas para olhar nos olhos e falar com a alma. O fato aconteceu há um ano, mas minha posição ainda se mantém: teria “dado de dedos”, argumentado mais e dado uma “voadeira” porque pacífico é o oceano.

Continuamos rezando a missa de cada dia: não é porque tenho certas limitações físicas, permanentes ou temporárias, que não posso sentir, expressar e me manifestar. Não sou menos humana por isso e nem está tatuado “incapaz” na minha testa. Parece óbvio, mas esta situação deixou claro que nada é tão claro assim. Ou seja, não estou inventando a roda por aqui!

Além de toda essa situação precisei enfatizar para alguns – como se não fosse possível observar – minha deficiência física e que tenho DIREITO a acompanhante no Pronto Atendimento, já que “não estou gestante!”

Descrição: Gif da Alice (personagem do desenho “Alice no País das Maravilhas) batendo os dedos no rosto com uma expressão entediada. Fim da descrição.

Discriminação? Bem sorrateira e inimaginável! Eu poderia ter feito mais, muito mais. Acionar área jurídica, contudo certamente ficou um aprendizado aos profissionais que vieram me pedir desculpas e dizer que eu estava certa depois de tudo aquilo. Outra vez., reafirmação constante.

Fiquei bem, medicada, de repouso por enquanto, mas doida para sair rebolando a raba por aí porque assumi o rótulo de rolezeira e ando abusada mesmo.

As dores do ano passado foram resultado de um esforço físico enorme porque o meu “não para quieta” é um ato de resistência no meio de todas as – possíveis – dores. Por isso, para quem me pede para “quietar o facho”, eu só lamento! Não sei mais seguir regras. (Leia- se Sol em Aquário, rs)! E vou continuar assim porque deficientes não são anjinhos com auréola e sorriso doce. De calada, já chega a Virgem Maria, monamú. (Leia- se vou beber hoje, mas ninguém precisa saber!)

A sensação que fica desta história é de que este é só um passinho do eterno “rasgar-se” e “remendar-se” na cara da sociedade. Por isso, eu continuo aqui. Todos os dias.

Mas isso é papo para a mesa de bar!


Manoella Back é jornalista, especialista em Cultura & Literatura, aquariana-louca-da-astrologia, fã de Harry Potter, samba, teatro, cerveja e MPB. Luta por um mundo melhor por meio da justiça, direitos humanos e promoção da igualdade.

Imagem by tumblr