Descrição: foto de Ieska sentada na cadeira de rodas com um fundo de parede amarela, chão com pedras e uma faixa de grama. Ela está sorrindo olhando para o lado direito, usa óculos escuros com aros vermelhos e suas mãos estão repousadas sobre os joelhos. Ao seu lado, a frase Inhotim para está sobre uma faixa vermelha, seguida da palavra cadeirantes sobre uma faixa azul. Logo abaixo, a frase por Ieska Tubaldini está em uma faixa amarela. Ocupando uma parte da faixa azul e amarela, uma pequena faixa roxa escrito Parte II. Fim da descrição.

INHOTIM PARA CADEIRANTES – parte II

Você chegou aqui e não faz ideia de quem eu sou. Está certo, não te culpo por isso!

Olá! Eu sou a Ieska (com “i”!) e a Fatine me convidou para essa pequena invasão no mês de janeiro. Começamos falando do Instituto Inhotim e pode ser que você encontre mais sentido nisso tudo se começar pela parte 1 desse relato.

Pronto? Então sigamos 🙂

A verdade é uma só: eu não queria sair da Galeria Psicoativa. Nossa motorista perguntou qual era o próximo destino e eu respondi um sincero “qualquer lugar que você quiser me levar, moça”, já que, depois do que eu tinha acabado de viver (incluindo as trilhas de ida e volta pelo meio do mato, lógico), eu me esqueci totalmente do que mais eu queria ver ali.

Analisamos o mapa e decidimos ir à Galeria do Cildo Meireles e é aí que entra, mais uma vez, a simpatia e a disponibilidade do pessoal do Instituto. Não fosse a dica da nossa motorista, eu não teria visto duas obras que eu estava louca para ver: Elevazione, de Giuseppe Penone, e Beam Drop Inhotim, de Chris Burden. Ambas ficam a céu aberto, no caminho entre galerias, e a moça foi muito gentil nos levando até bem pertinho delas e ainda manobrando o carrinho para que eu pudesse fazer as fotos nos melhores ângulos possíveis.

Galeria Cildo Meireles

Nosso último destino com o carrinho privado foi a Galeria Cildo Meireles, pois eu estava doida para experimentar a obra “Desvio para o vermelho”, tanto que eu nem sabia que ela não era a única da galeria e tive mais duas ótimas surpresas chegando lá!

Começamos pela “Glove Trotter”, uma sala escura cujo piso é coberto por bolas dos mais diversos tamanhos sob uma manta de aço. Maravilhosa! Passamos um tempão nessa obra, porque, veja bem, a primeira palavra que eu falei quando era bebê foi “bola” (palavras da minha mãe, não minhas palavras!!!), então, é, o tema da obra me atraiu bastante.

Uma coisa muito legal foi percebermos, mais uma vez, as diferentes visões de cada um sobre uma obra. Eu e meu padrasto batizamos esta de “mundo da bola”. A primeira foto eu que tirei, de cima para baixo, como se eu estivesse vendo esse planeta de uma espaçonave (o efeito da câmera até dá a entender que temos estrelas nesse “céu” escuro!). A segunda, ele tirou, abaixado, como se tivesse aterrissado no planeta e fizesse parte dele. Acho que essas são minhas duas fotos preferidas de todo o passeio!

Descrição: A manta de aço é prateada, iluminada por luzes brancas, dando um aspecto lunar à obra. É possível ver a forma de bolas de diversos tamanhos, dispostas por todo o chão.

Legenda: Cildo Meireles, “Glove Trotter”, 1991. Foto feita por mim.
Descrição: A manta de aço é prateada, iluminada por luzes brancas, dando um aspecto lunar à obra. É possível ver a forma de bolas de diversos tamanhos, dispostas por todo o chão.
Descrição: Por ser tirada de um ângulo mais baixo, a iluminação está mais forte e é possível ver o contorno das bolas sobre o fundo preto das paredes, dando um aspecto de diversas montanhas.

Cildo Meireles, “Glove Trotter”, 1991. Foto feita pelo meu padrasto.
Descrição: Por ser tirada de um ângulo mais baixo, a iluminação está mais forte e é possível ver o contorno das bolas sobre o fundo preto das paredes, dando um aspecto de diversas montanhas.

Depois, chegamos ao que eu tanto queria: a sala vermelha repleta de informação vermelha e sentimento vermelho. Objetos fascinantes, uma bagunça perfeitamente orquestrada. Eu amei demais essa instalação. Não vou mostrar tudo dela porque vocês tem que ir!

Descrição: Foto tirada no espelho de um armário. Estou ao centro, em minha cadeira de rodas, sorrindo. Ao fundo, as paredes brancas da galeria apinhadas de objetos vermelhos, nos mais diversos tons, como quadros, móveis e todo tipo de objeto do cotidiano. O piso também é vermelho.

Legenda: Cildo Meireles, “Desvio para o vermelho”, 1967-1984.
Descrição: Foto tirada no espelho de um armário. Estou ao centro, em minha cadeira de rodas, sorrindo. Ao fundo, as paredes brancas da galeria apinhadas de objetos vermelhos, nos mais diversos tons, como quadros, móveis e todo tipo de objeto do cotidiano. O piso também é vermelho.

Por fim, fomos para “Através”, o chão de vidro. Nessa eu não entrei, por motivos puramente logísticos: meus pneus infláveis não sobreviveriam, rs, mas fiz meus acompanhantes entrarem para eu escutar o som dos cacos. Não basta ser família, tem que participar, né?

O som da Terra

Inhotim é gigante e, em condições “padrão”, já é preciso saber priorizar, porque é impossível ver tudo em um dia só. A essa altura estávamos há cerca de três horas em Inhotim e, com aquele tanto de “sacolejos”, meu corpo já pedia arrego, então era hora de escolher como encerrar o passeio. Algumas das obras que eu queria conhecer estavam em manutenção no dia, assim, a escolhida foi a brilhante “Sonic Pavilion”, de Doug Aitken.

Descrição: À esquerda, meu tênis cor de vinho no apoio de pés da cadeira de rodas. Acima, os tênis pretos do meu padrasto e, abaixo, os tênis azuis claro com cadarços roxos de minha mãe. Estamos cercando um buraco com borda de metal no chão, que é um carpete de madeira.

Legenda: Doug Aitken, “Sonic Pavilion”, 2009. Nossos pezinhos em volta do som da terra
Descrição: À esquerda, meu tênis cor de vinho no apoio de pés da cadeira de rodas. Acima, os tênis pretos do meu padrasto e, abaixo, os tênis azuis claro com cadarços roxos de minha mãe. Estamos cercando um buraco com borda de metal no chão, que é um carpete de madeira.

Eu sou muito ligada à música e a sons de modo geral. Não à toa, essa foi a minha obra favorita junto com o “Forty Part Motet”. Fiquei assim, pertinho dessa abertura no chão escutando a voz que o nosso planeta tem a 200 metros de profundidade. Depois me afastei dele, fechei os olhos e só voltei pro “mundo real” quando me cutucaram para irmos embora. Que experiência!

Despedida… de volta para a favorita

Decidimos voltar para onde começamos, já que aquela obra não saía da nossa cabeça. Ao contrário da primeira vez, onde eu só fiquei parada no centro da sala, dessa vez escolhi rodar pelas caixas de som e parar logo abaixo de uma delas. Estando sentada na minha cadeira, ouvindo o som de baixo para cima, minha sensação era de estar mergulhada em um mar de música. Talvez quem ouça essas vozes em pé, à mesma altura da caixa, tenha uma sensação diferente, e eu acho esse tipo de diversidade simplesmente fantástico! No fim, entre primeira e segunda visitas, passamos cerca de meia hora só na instalação do “Forty Part Motet”.

Valeu?

Muito mais do que eu consigo expressar! Inhotim não é passeio só para quem gosta de arte. Você só precisa gostar de andar por um lugar belíssimo, repleto de plantas, flores, árvores, pavilhões e esculturas interessantes.

Penso que o carrinho foi providencial para o melhor aproveitamento do nosso tempo. Com a cadeira de rodas manual, seria bem cruel tanto para mim pelo piso acidentado quanto pela minha família, que precisaria me levar por todas as subidas e descidas. Também não teria chegado a todos os pontos que cheguei.

Talvez com uma cadeira motorizada seja possível maior autonomia, mas ainda sim recomendo o uso do carrinho e a visita fora da alta temporada, para que o atendimento seja tão diferenciado quanto o que eu tive.

Inhotim pode ser mais acessível do que é, com certeza – uma pequena faixa de asfalto pelas ruas de pedra não prejudicaria a paisagem e ajudaria muito a nossa circulação-, mas, como eu comentei no começo, ele já pratica o tipo de acessibilidade que considero mais importante: a acessibilidade atitudinal.

Saí de lá com o sentimento de que quero voltar mais quantas vezes forem possíveis, para conhecer e revisitar cada cantinho desse espaço inspirador – aceito convites, alô, Inhotim, me chama para resenhar toda a acessibilidade do Instituto, haha!

Assim, no fim das contas, apesar dos problemas que conhecemos muito bem, esse é um lugar que vale muito a pena.

Concorda? Discorda? Conhece Inhotim e teve uma experiência diferente? Conta para a Fati e para mim nos comentários do post e até a próxima aventura acessível! 🙂


Ieska é redatora, microempresária, ariana com lua em leão e tia de duas fofurinhas. Tem atrofia muscular espinhal e cinéfila sim ou com certeza?

Inhotim para cadeirantes

Por Ieska Tubaldini

Como a gente faz quando invade o blog da amiga? Acho que devo me apresentar, né? Isso, tudo bem.

Oi, pessoal! Tudo bem? Feliz ano novo! Muito prazer, eu sou a Ieska (com “i”!) 🙂

Em setembro de 2018 eu realizei um desejo de um tempão: ir para BH conhecer a mulher maravilhosa que criou esse blog e que, muito gentilmente, topou essa minha invasão. Então vamos começar? Decidi seguir a ordem cronológica da minha aventura mineira, por isso hoje vou falar sobre minha visita ao Instituto Inhotim. Nós optamos por dividir esse post em duas partes porque, veja bem, pelo jeito eu falei demais sobre esse lugar incrível, rs.

Inhotim é acessível?

Bom… Depende do que você entende por acessível?

A verdade é que, considerando todo o contexto de Inhotim – um lugar construído para lazer do proprietário, quase um templo particular de arte, em uma cidade pequena do interior de Minas, que antes sequer tinha pretensão de ser aberto ao público -, ele quase é o mais acessível para cadeira de rodas que pode ser. Sim, quase.

Inhotim conta com o que eu, pelo menos, considero o pilar principal da acessibilidade: pessoal treinado e muito disposto a fazer com que a experiência da pessoa com mobilidade reduzida seja a melhor possível.

Ao chegar com a minha família (nunca siga o caminho mais rápido proposto pelo seu gps, ele vai te mandar para uma estrada de terra e, sabemos, nada poderia ser mais terrível para nossas colunas), não precisamos sequer buscar ajuda antes de um funcionário surgir com um carrinho (daqueles de golfe que, tenho certeza, você também sempre quis usar) para nos levar até a recepção do instituto.

Cadeirante chegando em Inhotim

Eu poderia inserir uma foto da minha chegada em Inhotim, mas ela não foi exatamente bonita ou confortável, rs.

O piso é de pedra, um pouco melhor do que paralelepípedos, mas não tanto. O carrinho de transporte não conta com equipamento de segurança para travar a cadeira de rodas nele (ponto bastante negativo, que pode ser melhorado) e a minha cadeira de rodas também não tem cinto de segurança, então eu basicamente fiz o caminho me segurando, sendo segurada pelo meu padrasto e, confesso, só não me importando muito com isso, porque estar em Inhotim era um sonho e a gente fica um pouco passional nessas horas.

Ao chegar na recepção, fomos recebidos por funcionários muito simpáticos e muito, muito aptos mesmo a nos ajudar. Tomamos conhecimento que pessoas com mobilidade reduzida (desde cadeirantes até idosos) tem direito a 50 minutos de carrinho à sua disposição e, depois, podem fazer uso gratuito de todos os carrinhos que circulam pelo parque em rotas pré-determinadas, como se fossem linhas de ônibus.

Esse serviço é, geralmente, pago – o carrinho privado, com o motorista à disposição, para 5 pessoas custa R$ 500/diária ou R$ 200 por hora, enquanto os que circulam pelo parque custam R$ 30 por pessoa (você recebe uma pulseira na entrada e ela te dá o direito de pegar o carrinho a qualquer momento e ir para onde ele estiver indo). Você encontra todas as informações sobre isso aqui.

Como eu + um acompanhante tínhamos a gratuidade dos carrinhos com rotas pré-determinadas e estávamos em três pessoas, pagamos R$ 30 para a terceira pessoa e todos tivemos acesso ao serviço.

Nos foi explicado que nem todos os carrinhos tinham espaço para a cadeira de rodas e que iríamos depender disso durante nosso passeio, mas constatamos, no fim, que boa vontade não faltava e que bastava pedir para qualquer funcionário do parque um carrinho acessível que logo aparecia um para nos levar onde quiséssemos.

Importante: nós fomos em uma quinta-feira, fora da alta temporada, quando o parque está bem menos cheio do que costuma, então com certeza esse tipo de disponibilidade aconteceu por causa disso. Em dias mais cheios ou nas férias pode ser que as coisas sejam um pouco mais complicadas.

O presente de boas-vindas

Você gosta muito, muito mesmo de futebol e certamente não está esperando qualquer referência a ele dentro de um museu de arte, até que entra pela primeira porta que este museu te oferece (a Galeria Praça) e… dá de cara com um estádio para 1 milhão de pessoas. Inacreditável, né? Pois foi isso que aconteceu.

É preciso subir por uma rampa de madeira e nós fizemos isso sem a menor ideia do que havia lá em cima. Quase comecei a chorar quando chegamos e eu entendi o que era aquilo. Nessa foto vocês conseguem ter uma ideia do tamanho dessa “maquete”, pelo comparativo com a pessoa que está ao fundo.

Descrição: Maquete de um estádio de futebol circular, na qual constam incontáveis cadeirinhas azuis na arquibancada. É possível ter ideia da dimensão da maquete pelas pernas de uma pessoa, ao fundo, que ocupam o espaço de um único bloco de cadeiras. A foto foi tirada de cima, buscando dar a ideia da profundidade da maquete.

Legenda: Paul Pfeiffer, “Vitruvian Figure”, 2008
Descrição: Maquete de um estádio de futebol circular, na qual constam incontáveis cadeirinhas azuis na arquibancada. É possível ter ideia da dimensão da maquete pelas pernas de uma pessoa, ao fundo, que ocupam o espaço de um único bloco de cadeiras. A foto foi tirada de cima, buscando dar a ideia da profundidade da maquete.

Saindo dessa sala e já pensando que minha vinda já tinha valido a pena, entramos na sala ao lado e… bam, mais um momento mágico: um coral de caixas de som, onde cada caixa reproduz a voz de um integrante do coral da Catedral de Salisbury, Inglaterra. Magnânimo. Você encontra muitas resenhas sobre o que é essa obra e todas as outras que eu vou mencionar aqui. Eu não quero ser repetitiva, nem sou entendedora suficiente de arte, só gosto muito de estar em contato com ela, então vou só me ater ao meu sentimento geral sobre tudo o que vi e, é claro, sobre a acessibilidade de todo o passeio.

Descrição: À esquerda, o meu rosto. Estou sorrindo e olhando para o lado, em direção às caixas de som que estão à direita. É possível ver três das caixas, dispostas lado a lado, sobre pedestais.

Legenda: Janet Cardiff, “Forty Part Motet”, 2001. Tirei essa foto em um dos poucos momentos que me mantive de olhos abertos/existindo nessa dimensão.

Descrição: À esquerda, o meu rosto. Estou sorrindo e olhando para o lado, em direção às caixas de som que estão à direita. É possível ver três das caixas, dispostas lado a lado, sobre pedestais.

Pegamos o carrinho e… moça, por favor, me leva pra ver o Tunga!

Nossa motorista particular para a primeira hora de visita sugeriu que fizéssemos uso do serviço para visitar as galerias de arte mais isoladas ou de difícil acesso. Essa dica foi fundamental, pois eu descobri que a galeria que eu mais queria conhecer seria impossível de acessar a pé – ela é, literalmente, no meio do mato.

A Galeria Psicoativa do Tunga era com certeza um dos principais motivos que me levaram a Inhotim e a minha experiência nela já começou no caminho. Uma cadeirante não costuma ter chance de se ver embrenhada em uma trilha de difícil acesso, eu mesmo nunca tive a expectativa de viver esse tipo de aventura, mas foi exatamente o que aconteceu para chegarmos a essa galeria.

Cheguei completamente quebrada? Cheguei. Mas já estava muito empolgada pela experiência nova? Estava, sim!

Depois de chegar na galeria, ela é 100% acessível para circularmos pelos três pisos. São rampas de madeira bastante amplas e não tão íngremes, de modo que eu, pelo menos, não encontrei qualquer dificuldade e rodei por toda a galeria.

Descrição: Neste detalhe da obra, é possível ver um enorme esqueleto humano, preto e dourado, deitado sobre uma rede e suspenso a, estimo, cerca de 2 a 3 metros de altura.

Legenda: Tunga, “A luz de dois mundos”, 2010. Essa obra já esteve até no Museu do Louvre, em Paris, e certamente é a minha preferida dessa galeria.

Descrição: Neste detalhe da obra, é possível ver um enorme esqueleto humano, preto e dourado, deitado sobre uma rede e suspenso a, estimo, cerca de 2 a 3 metros de altura.

Dica: visitar essa galeria, especialmente, é uma experiência incrível se você estiver em um grupo de pessoas muito diferentes entre si. Eu, minha mãe e meu padrasto não poderíamos ser mais diferentes em relação ao gosto pelos diversos estilos de arte, então tivemos conversas e trocamos comentários MUITO legais mediante as obras de Tunga. Cada um escolheu um jeito de interagir e de sentir as obras. Rimos muito um do outro e, sinceramente, acho um saco quem acha ruim de pessoas que fazem piadas e interpretações diferentes da original, rs.

Saindo de Tunga, duas gratas surpresas… que você vai conhecer na parte 2 desse relato. Aguarde! 😉


Ieska é redatora, microempresária, ariana com lua em leão e tia de duas fofurinhas. Tem atrofia muscular espinhal e cinéfila sim ou com certeza?

Barbie não transa

A Barbie não transa, mas eu sim!

Por Luana Milan

A famosa boneca da Mattel, muitas vezes usada para representar nosso ideal de corpos reais, falha em não possuir a principal característica de toda mulher: sua xoxota. O padrão mais desejado de face e corpo ainda hesita em divulgar o que todas temos em comum. O medo de sexualizar a maior ferramenta de formação de princesas do planeta, só reafirma o fato de vivermos em uma sociedade misógina. Mas será que a Barbie não sente tesão?

Não posso falar por ela, mas inúmeras experiências me levaram a crer que muitos me vêem como a Barbie: linda e sem xoxota. Eu tenho algo absurdamente surpreendente para lhes contar: eu tenho uma xoxota.  E esse estereótipo não se aplica apenas a mim, mas a maioria das mulheres com deficiência.

Barbie Nua
[Descrição: imagem de uma boneca Barbie nua, sem cabeça e deitada em um fundo branco. Fim da descrição.]
Assexuadas ou Invisibilizadas?

Desde o primórdio somos invisibilizadas quando o assunto é sexo. Não vou entrar em todo o contexto histórico acerca da pessoa com deficiência, mas quero frisar que nossos corpos sempre foram escondidos, assim como nossa voz e vontade. Por todo a áurea de exemplo de superação e blá blá blá capacitista, fomos colocadas em uma condição, que muitas vezes não representa nossa realidade.

Com isso, transformaram nosso corpo em um lugar secreto e para você acessá-lo precisará unir as 4 esferas do dragão, porque só o mais bravo dos heróis, aquele cuja pretensão seja nos salvar e viver para sempre ao nosso lado terá direito de tocá-lo. Precisa jurar amar na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Mas será que queremos mesmo toda essa burocracia?

Óbvio que devemos ser tocadas com respeito, assim como qualquer pessoa, mas às vezes, a gente só quer sexo, sabia? Sem o compromisso de estreitar laços afetivos, sem a promessa de relacionamento. E ainda mais, sem o cuidado de estarem lidando com uma boneca. Porque, acreditem, a frase que eu mais ouvi até hoje na hora H foi “eu tenho medo de te machucar, você parece uma bonequinha”. Ok, eu posso parecer uma boneca, mas eu adoraria que fosse uma inflável, pelo menos. Porque as de porcelana pegam pó e a Barbie nem xoxota tem.

Estamos nos aplicativos de relacionamento, nas baladas e barzinhos também esperando uma oportunidade de termos um orgasmo. Buscamos por prazer, sexo sem compromisso, trocamos nudes, assistimos pornô e até nos masturbamos. Isso significa autoconhecimento e liberdade. Assumir que sentimos tesão e que, mesmo tendo alguma deficiência, somos sexualmente ativas, descaracteriza qualquer imagem puritana depositada em nós. E é exatamente o que eu adoraria que acontecesse.

Sim, temos tesão!

Então entenda, eu tenho xoxota e eu faço sexo. Não se preocupe se só quiser transar comigo, provavelmente eu também só queira isto. Sem casamento, filhos, um cachorro em uma casinha com cerca branca. Tudo bem quem não se sente confortável com isso também, é um direito, é uma escolha. No entanto, a única pessoa que pode falar sobre minhas escolhas, sou euzinha.

Então vamos nos poupar dos discursos próximos ao que um garoto já ouviu por manifestar que só queria transar comigo: “Você é um escroto por querer isso com ela. Vai comer a guria e abandonar ela.”. Que horror, mas quem me dera, né, gente!

A minha condição física não faz de mim uma Barbie sem xoxota. Portanto, não se sintam acuados quando este for o assunto, só procurem saber quais são nossas escolhas. De resto, um copo de água e um orgasmo não se nega a ninguém. 😉


Luana Milan Teles tem 25 primaveras de idade é formada em Design Visual e pós-graduada em Marketing Digital. Tem Charcot-marie-tooth tipo 2. Mãe de três felinos, feminista e adepta ao amor livre. Acredita que os bons são maioria. Seu instagram pode ser acessado aqui e o facebook aqui.

A imagem em destaque faz parte do projeto Naked Dolls de Catarina Paulino, mineira de Belo Horizonte fez um tumblr para divulgar este trabalho. Se tiver interesse em conhecer mais, confira uma matéria realizada para o site “Resumo Fotográfico” aqui  onde ela expõe os objetivos do projeto, e seu porfolio aqui.

Se for para rir, que seja comigo

Há sempre um tema recorrente em discussões em grupos de movimentos sociais: qual o limite da piada? Muitos foram os casos de manifestações inflamadas nas redes sociais contra comediantes que por descuido ou não deslizaram no tom de suas apresentações. Algumas pessoas acreditam no humor desmedido, livre de censuras e moralidades. Outros, defendem a ideia do humor politicamente correto, pois defendem que a origem de muitas piadas está na estrutura preconceituosa de nossa sociedade.

Existem alguns que defendem o auto-riso, fazem de sua experiência mote para diversas tiradas irônicas e sarcásticas como forma de aliviar as dificuldades pessoais. Me vejo neste último caso, não consigo levar a vida sem humor. Entretanto, acredito que tudo tem limite, principalmente quando lidamos com alguém diferente de nós. Somos todos diferentes, afinal.

Me incomoda a cobrança humorística que costumam colocar sobre pessoas com deficiência. É como se fôssemos obrigados a assumir uma posição jocosa e suave na vida, porém já sabemos a origem disso, não é mesmo? De todo modo, pretendo com esse texto mostrar um meio inteligente e muito engraçado de fazer piadas.

Uma vida com deficiência em quadrinhos

Duas irmãs canadenses, Jessica e Liana, resolveram documentar em desenhos divertidos as diversas vivências com deficiência. No tumblr chamado “The Disabled Life” (“A vida com deficiência” em tradução livre) recolhem comentários dos seus seguidores para transformarem em traços e posts engraçados.

Em entrevista para o site Mashable (disponível completa aqui), as irmãs relatam como o humor auxiliou a lidar com os receios e dificuldades encontradas na vida com deficiência.Ambas foram inicialmente diagnosticadas com atrofia muscular espinhal tipo 1 ao nascimento. Por esse motivo, receberam uma expectativa de vida curta devido as possibilidades de problemas respiratórios graves, fazendo todos acreditarem que não viveriam mais do que 2 anos de idade.

“Quando você cresce pensando que já superou sua expectativa de vida, realmente aprende a abraçar o desconhecido”, diz Jessica. “Nossos pais nos criaram para viver o dia a dia e aproveitar o momento. Realmente, nossa deficiência nos ensinou muito sobre paciência e aceitação – e também nos deu um senso de humor terrivelmente sarcástico.”

Descrição: Imagem com fundo branco com a palavra Selfies centralizada na parte superior. Abaixo dois desenhos de uma moça usando cadeira de rodas segurando um celular. Do lado esquerdo, ela faz uma pose para foto. Do direito, o celular cai de sua mão e ela fica aborrecida. Fim da descrição.

É impossível não se identificar com as diversas situações apresentadas no tumblr, mesmo em inglês é possível entender a linguagem corporal das imagens (todas com descrições). Essa universalidade foi uma das características que mais surpreenderam as irmãs quando começaram a receber relatos de seguidores por email. Para Jessica, ” ter uma comunidade que possa se relacionar e compartilhar histórias é uma coisa tão importante. Sempre tivemos a sorte de ter um ao outro para nos apoiarmos, de modo que poder ajudar a dar isso aos outros é incrível”.

Descrição: Imagem com fundo branco. A direita um desenho de um bumbum feminino com o título “How I think my butt looks” (“Como eu acho que minha bunda se parece” tradução livre). A esquerda um desenho de um bumbum pequeno, cheio de furinhos e com coluna torta. Acima a frase “How it probably looks” (“como ele provavelmente se parece” tradução livre) Fim da descrição.

Ria comigo 

Há uma sutil diferença no tom de uma piada realizada por alguém que vivencia a situação, para aquela realizada por alguém fora da condição. A conexão é imediata quando vemos essas imagens porque é o que vivemos. Em meio ao riso há a identificação, o conforto em perceber que mais alguém pensa como nós.

Já falei isso, mas sempre irei repetir: cada pessoa com deficiência é única. Temos pensamentos diversos, nem sempre o que será permitido para um, será para todos. Alguns podem aceitar brincadeiras de estranhos, outros não.

Pessoalmente, apenas aceito meus amigos e familiares tirarem sarro da minha condição. Aos estranhos, observo bem e dependendo da situação recorro ao bom humor para quebrar os gelos iniciais ou para explicar algo sobre deficiência. Alguns ensinamentos possuem melhor resultado quando o outro está relaxado e com a mente aberta.

Assim sendo, da próxima vez que pensar em fazer piada observe se há espaço para isso. Existe uma imensa diferença entre rir de mim e rir comigo.  

 

Imagens utilizadas do site “The Disable life”

De novo? Sério isso?

Se você tem algum tipo de deficiência física onde necessita de acessibilidade nos espaços, certamente já fez esta pergunta ao encontrar algum lugar sem adaptações necessárias para te receber. Talvez tenha dito algo semelhante enquanto navegava nas redes sociais e se deparou com uma postagem ou vídeo de alguém com deficiência comentando sobre suas dificuldades em espaços públicos/mobilidade urbana. Pois bem, sinto te informar, mas esse texto também é sobre este tipo de experiência. Portanto, sinta-se a vontade para dizer: aff, sério isso?

Sim, sério. Aliás, a seriedade no assunto às vezes acaba em riso quando nos deparamos com a criatividade de algumas pessoas ou empresas em adaptar (ou melhor improvisar) os lugares para nos receber. São situações em que nos perguntamos intimamente:

Não teve ninguém para dizer que isso está errado?

Bom, a ABNT já estabeleceu normas que regulamentam e orientam os profissionais responsáveis pelas construções de espaços destinados à pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, porém nem sempre são conhecidos ou seguidos de modo apropriado. Um bom exemplo disso são os vasos com o famoso buraco frontal que costumamos encontrar nos shoppings e em alguns lugares. Este vaso não é o recomendado, pois reserva-se ao uso em HOSPITAIS, porém acredito que alguns engenheiros ou arquitetos desconheçam este “pequeno” detalhe. Na imagem abaixo, extraída da ABNT (um pdf que você pode baixar aqui) podemos ver as instruções para fazer um banheiro:

Descrição: imagem com dois desenhos de banheiros adaptados para pessoas com deficiência. Do lado esquerdo mostra o vaso de frente, o lado direito mostra o vaso de lado. Ambos estão com as medidas de todos os itens do banheiro.

Eu ando com bonde

Ludmila, na época MC Beyonce, já dizia essa preciosidade da música brasileira: “Não olha pro lado que tá passando é o bonde”. Se não conhece, clica aqui e afasta os móveis para dançar até chão. Pode ir lá, eu te espero para continuar o texto.

Descrição: Foto em preto e branco de um grupo de mulheres. Elas estão em fila como se fossem entrar na passarela, na frente está uma cadeirante com prótese na perna e atrás dela, no lado esquerdo, estão as outras mulheres. Todas estão olhando para baixo e algumas estão usando lingerie.

Voltando nosso papo, essa falta de acessibilidade adequada nos espaços, por vezes prejudica não apenas nosso ir e vir, como também a possibilidade de divertirmos com nossos acompanhantes. É muito comum, cadeirantes (vou limitar a este tipo de deficiência, pois é meu caso) saírem com pessoas que muitas vezes não possuem deficiência. São familiares, amigos e, em alguns casos, paqueras/namorados(as)/maridos/esposas.

Saí esses dias com minha irmã e com minha sobrinha para assistirmos “Guerra Civil” no cinema de um shopping de Belo Horizonte chamado Boulevard. Normalmente, frequento outro shopping, chamado Estação, pois o espaço destinado para cadeirantes no cinema é um dos melhores que já encontrei. Porém, o horário não era bom e resolvemos tentar neste outro.

O visual do lugar chamou nossa atenção, tudo muito grandioso, bonito e com várias opções de combos para o filme. Como estávamos ansiosas tudo nos agradou, até o momento em que entramos na sala e vimos o espaço separado. Infelizmente, não haviam cadeiras para acompanhantes ao lado do espaço para cadeirantes, tivemos que solicitar cadeiras de escritório para que ambas pudessem ficar ao meu lado durante a exibição. Afinal, como disse antes “eu ando com bonde” e ele não se separa.

Claro que quando você sai com pessoas queridas, tudo vira farra. Rimos da situação, debochamos bastante, mas o incômodo ficou ali. Ora, como assim não tem cadeiras para acompanhantes. O que pensam de nós, afinal?

Um exercício diário

Já sabemos a resposta desta pergunta, também temos conhecimento do quão demorado é o processo de aprendizado social. Ninguém espera uma mudança drástica de uma hora para outra, mas há dias em que você simplesmente esquece disto e dá aquela suspirada, seguida de um “aff”.

Descrição: Imagem com fundo cinza de uma mulher revirando os olhos e pendendo a cabeça para frente como se estivesse entediada. Ela tem cabelos, olhos pretos e usa uma blusa na cor preta. Usa batom vermelho nos lábios.

Acredito que as pessoas com deficiência tem liberdade para viverem como acharem melhor, entretanto sem perceber nossa existência acaba se atrelando a um posicionamento político. No momento em que você orienta um gerente de restaurante ou o diretor de uma escola sobre acessibilidade ou inclusão já está agindo em favor da sua causa e de outras pessoas, uma vez que uma sociedade diversa abrange a todos.

Todos os dias precisamos nos posicionar, mesmo contra nossa vontade. Aqui, não pretendo te forçar um ativismo, de modo algum, mas um simples compartilhar de post, um vídeo ou uma postagem que fazemos é uma semente lançada. Minha jornada começou assim e venho tentando fazer alguma coisa para fazer as pessoas sem deficiência compreenderem minha vida e entenderem a necessidade de fazerem parte deste caminho.

Por isso, precisamos ocupar os espaços, mesmo aqueles sem adaptação. As pessoas precisam nos ver para “lembrarem” de nós, quantas vezes ouvi de amigos “nossa, depois que te conheci passei a reparar se os lugares são bons para você”. Bom, infelizmente não dá para conhecer todo mundo em Belo Horizonte (quer dizer, dá sim, me esqueci que BH é um ovo) então vamos aproveitar as oportunidades e sairmos de casa. Vá aos lugares, mostre sua vibe, oriente se necessário e disbugue tantos quantos conseguir.

Que consigamos mudar o tom da pergunta acima para

“ir ao lugar tal de novo? Só se for agora!”

Imagem by: https://www.instagram.com/p/BVE3EX7BhNS/?taken-by=elkelale

 

Qual é a voz do seu corpo?

Se me perguntarem uma das palavras para representar a tendência visual da nossa época, sem dúvida responderia “corpo” ou “auto imagem”. Acredito que não houve em outro momento um sentimento de controle do corpo, ou body control, como a atual. Somos donos da nossa identidade e a usamos para nos reafirmar. A selfie na frente do espelho para nutrir o ego, abriu espaço para os ensaios fotográficos e fotos espontâneas para mostrar nossas belezas naturais e casuais.

Claro que as redes sociais ajudaram no processo, os perfis abarrotam-se com posts conceituais e quase editoriais daqueles que por mero acaso acabaram se tornando influenciadores digitais. Ver alguém semelhante a você em situações antes exclusivas de modelos inacessíveis, facilitam essa identificação com esses famosos instantâneos. Principalmente se você pertencer a uma minoria.

Na ausência de pessoas para nos representar, recorremos ao cotidiano para construirmos nossas narrativas pessoais. Nessa lacuna vemos surgir vários personagens para todos os tipos de identidade, dentro do mesmo espectro representativo. Por exemplo, pessoas com deficiência, temos: cadeirantes, surdos, mudos, surdo e mudos, cegos e por aí vai. Qualquer um pode ser um representante de uma minoria, e isso não é demérito. É liberdade e, principalmente é resistência.

Entretanto, como disse acima, estamos na era dos corpos e com ela trazemos a luz um importante debate: até onde minha exposição vira objetificação?

Antes de iniciar meu ponto de vista, gostaria de deixar claro que não estarei defendendo uma posição conservadora em relação ao tema. Defendo a liberdade de todo mundo fazer o que quiser. Inclusive, se quiser, manda nudes! 😀

Para ilustrar esse pensamento, usarei como exemplo o questionamento da Matrioska no twitter que foi o catalizador dessa avalanche de ideias que vieram em minha cabeça esses dias, rsrs.

Quando comecei a me sentir confortável com meu corpo, me sentindo capaz de conquistar e seduzir alguém, tomei a decisão de fazer um ensaio sensual. Ver-me linda em uma foto era uma espécie de confirmação de minha capacidade de ser mulher. Após esse período me sentia confortável comigo, ao ponto de postar imagens que hoje pensaria duas vezes antes de publicar. Talvez seja essa pirada que a Raquel cita acima, mas também é como expus em um texto realizado para o blog “Cadeira Voadora”, da minha querida Laura Martins (que você pode ler completo aqui):

A fotografia possui uma força transformadora, especialmente quando não temos corpos dentro dos padrões, pois nos permite assumir papéis desconhecidos ao nosso ser, porém reveladores de uma essência adormecida. É como se por um instante tivéssemos o poder de ser o que sempre sonhamos. Talvez seja por este motivo que algumas pessoas com deficiência, após participarem de ensaios fotográficos, sintam-se mais confiantes ao observarem o resultado nas fotos.

Olivier Fermariello, fotógrafo italiano, autor do ensaio chamado “Je t’aime moi aussi” onde diversas pessoas com deficiência posavam nuas, defende que a deficiência é um espelho da sociedade, pois a maioria de nós não estão de acordo com os padrões da beleza manipulada. Por esse motivo, buscou retratar nas suas fotos situações variadas, transitando entre o cotidiano e a sensualidade com o propósito de tratar o tema nudez com a naturalidade que se espera para esses corpos. Ou como bem explicou a escritora Ellyn Kail, em seu blog Feature Post (no link há mais imagens do ensaio, mas cuidado, há cenas de nudez 😉 ),

“sob seu olhar, o corpo humano não é ignorado nem fetichizado, existindo em um continuum nuançado de desejo individual. À medida que suas imagens se movem sonhadoramente entre a esfera surreal do devaneio erótico e o escopo do todos os dias, o corpo nu torna-se um meio de desafio, uma afirmação corajosa do eu amoroso em uma cultura que o nega “. 

Descrição da imagem: modelo deitada em um sofá de modelo antigo e estofado marrom claro. Ela está usando uma camisola branca, pernas para cima, usando um sapato de salto alto vermelho e segurando um balão rosa em formato de coração. Na parede, de aparência antiga e descascada, há uma foto da virgem Maria.

Em entrevista para o site HuffPost, Olivier afirma que “a diversidade é assustadora para as pessoas porque reflete nossa aparência longe da perfeição. Quando se trata de assuntos como sexualidade e deficiência, geralmente nos sentimos desconfortáveis ​​e preferimos não falar sobre isso. A diversidade, portanto a deficiência, diz respeito a todos nós de certa forma e, como tal, a sociedade precisa combater seus fantasmas falando livremente sobre isso, a fim de crescer “.

Descrição da imagem: Imagem de um banheiro com azulejos brancos com pequenos detalhes pretos. No centro da imagem, em frente a um espelho está uma mulher anã com toalha enrolada nos cabelos, de costas em cima de um banco usando calcinha e sutiã azul escuro como se tentasse alcançar o seu reflexo no espelho. Ao seu lado esquerdo tem uma toalha rosada pendurada no suporte. Do direito, há um secador no chão sobre papéis, mas com o fio ligado na tomada.

A gente tem essa necessidade de se afirmar quando não estamos dentro da caixinha social, mas muitas vezes acabamos presas aos padrões. O corpo é nosso, mas as regras ainda são ditadas por eles. Nesse looping precisamos nos equilibrar na tênue corda entre minhas liberdades pessoais e minhas escolhas. Quero demonstrar que sou uma pessoa sexual e sensual para quem? Porquê? Deixar de mostrar meu corpo favorece a quem?

Pessoalmente, acredito que o limite está em nossas mãos. Cabe a nós a reflexão que esteja mais favorável com nossas convicções e estar preparada para suportar as consequências delas, sejam positivas ou não. Quando eu me mostro há ali vários sentimentos que dizem respeito ao modo que eu me vejo, porém quando alguém se vê em mim, o que sou deixa de ser único e se torna coletivo. Minha imagem se torna uma mensagem maior do que a inicial. Acredito que é neste ponto que devemos focar. O que diz a sua nudez? Qual é a voz do seu corpo, afinal?

Para finalizar, reitero que tudo está em completa transformação nesse mundo. Por isso, o que hoje pode ser diverso, amanhã se tornará padrão.

Link de apoio ao conteúdo:

http://www.beautifuldecay.com/2014/07/31/intimate-portraits-people-disabilities-questions-societies-notions-beauty/?view=true  

Será que sou eu?

Começa com uma ideia nova, um frescor de inspiração depois de um longo período sem produzir nada. A novidade nos revigora, dá ânimo para traçar novos planos, sonhar com possibilidades de mudar algo em nossas vidas. Ainda que seja pouca coisa como testar uma nova receita de molho ou mais significativo como mudar de emprego, quando estamos com intenção de buscar novos rumos tudo parece conspirar a favor.

É como se o universo dissesse “vai e arrasa”.

Gif da Beyoncé. Seu rosto é mostrado de cima com uma expressão serena, é possível ver seus cabelos trançados balançando e seus braços abertos. Ela usa um casaco de pele e abaixo está escrito “I slay” (uma gíria que significaria “eu arraso”).

A voz que tudo muda

Quando tudo parece dar certo, surge uma voz com a pergunta mais fatal do universo: será que você dá conta?

Gif de um boneco vermelho balançando os braços como se não soubesse o que fazer

É impressionante a força destruidora da dúvida. Podemos estar certos do que buscamos, mas se por algum motivo duvidarmos disso tudo começa a esvair como um castelo de areia quando recebe o toque das ondas do mar. O projeto é interrompido antes mesmo de ser colocado em prática. Inventamos desculpas para justificar e confirmar os falsos julgamentos. É a síndrome do impostor se fazendo presente em nossas vidas.

Somos todos impostores?

Emma Watson, atriz que fez Hermione em Harry Potter, declarou em uma entrevista à revista Rookie: “Parece que quanto melhor eu me saio, maior é o meu sentimento de inadequação, porque penso que em algum momento, alguém vai descobrir que eu sou uma fraude e que eu não mereço nada do que conquistei”. Esse sensação de ser uma farsa é muito comum, principalmente em mulheres de acordo com um estudo realizado pela psicóloga Gail Matthews, da Universidade Dominicana da Califórnia, nos Estados Unidos, que afirma que esta síndrome atinge em menor ou maior grau 70% dos profissionais bem-sucedidos.

É possível que algumas pessoas com deficiência desenvolvam a síndrome do impostor por acreditarem ser incapazes de desempenhar esta ou tal tarefa por causa de sua deficiência. É claro que precisamos criar adaptações para fazer algumas coisas, porém não há motivo para deixá-las inacabadas. Às vezes não será possível fazer um curso em um espaço por falta de acessibilidade, porém há condições de fazê-lo online, por exemplo. Em alguns casos, deixamos até mesmo de sair de casa para conhecer pessoas por medo do julgamento, ainda que tenhamos certeza do quão interessante nós somos.

Claro que tal síndrome não é exclusividade nossa, tampouco gira somente em torno dos atributos físicos. Geralmente a síndrome está relacionada a algum sentimento de incapacidade, inferioridade que alimentamos há muito tempo. Existem pessoas tímidas demais que se julgam incapazes de realizar algo por medo de exposição, outras pessoas desistem de um emprego por não acreditar ser inteligente o suficiente para o cargo mesmo tendo todas as qualificações para tal. Cada um direciona seu impostor para suas crenças limitantes.

Eu sou uma pessoa que constantemente deixa projetos inacabados, tenho facilidade em elaborar novas ideias, porém não consigo dar prosseguimento nelas. Essa incapacidade me deixa sempre chateada e quando percebo começo a acreditar que realmente não conseguirei sucesso naquilo que busco. Como sou ansiosa, inicio um círculo vicioso de pensamentos ruins centrados em uma única crença de incapacidade construída ao longo dos anos.

Como lidar com isso?

O Buzz Feed fez uma lista muito boa com 17 dicas bem úteis para lidar com isso, você pode vê-la aqui. Pessoalmente, após fazer terapia resolvi tomar algumas atitudes para amenizar minha síndrome:

1 – Fazer um check list: antes de começar minhas atividades, gosto de anotar tudo para ao longo do dia ir conferindo se consegui realizá-las. Dá uma sensação boa ver que ao final do dia fiz a lista toda ou boa parte dela.

2 – Entender o tempo: algumas coisas vão demorar para serem realizadas, mas não quer dizer que estejam paradas. Para evitar a procrastinação o item 1 ajuda bastante.

3 – Se conhecer: não é apenas saber seu nome, mas saber de suas qualidades reais. Observar suas conquistas, sua história e aprender a se valorizar por isso. Se conhecer ajuda no enfrentamento das dúvidas que eventualmente podem aparecer.

4 – Guarde suas conquistas: Uma foto, um email com cliente aprovando e elogiando seu trabalho, seja o que for crie um espaço para te fazer lembrar das suas conquistas quando você duvidar delas.

5 – Não tenha medo de errar: Muitas vezes deixamos de fazer as coisas por medo do erro, medo de sermos vistos como “burros”, porém é importante entender o valor do erro como oportunidade de aprendizado. Sei que vivemos em uma sociedade onde os acertos são celebrados, mas é preciso sair fora do esquema social para não ser refém dele.

6 – Minha deficiência não é algo ruim: Por fim, aceitar a deficiência é FUNDAMENTAL. Não somos incapazes, não somos piores por termos deficiência, portanto não podemos permitir sermos julgados por ela, tampouco nos diminuirmos também.

A síndrome do impostor pode aparecer em sua vida, mas cabe a você acreditar nela ou não. Muitas vezes fazemos as coisas com medo mesmo e ao final descobrimos sermos capazes de ir muito além do que esperávamos. Portanto, não pare. Respira fundo e mantenha a caminhada.

 

Gif de uma mulher de cabelos pretos usando óculos escuro, regata azul com os braços erguidos em posição de força. No fundo azul claro caem pétalas rosa que mudam de cor para o azul.

P.S.: Para fazer este texto eu levei três semanas e fiquei me questionando se deveria fazer mesmo ou não. Mas fiz e espero que gostem dele, assim como gostei de fazer. 😉
Sugestão de leitura e fonte: http://www.huffpostbrasil.com/2014/04/07/7-sinais-de-que-voce-e-uma-das-vitimas-da-sindrome-do-impostor_a_21667908/

Minhas férias em Recife

Finalmente 2017, pessoal!

Não sei como foi o ano passado para vocês, mas por aqui a coisa andou bem tensa. Muito trabalho, pouco retorno financeiro, inseguranças pessoais, rupturas de relacionamento… foram tantas mudanças que quase nem reconhecia minha vida. Era como se fosse a história de outra pessoa, rs.

Porém o relógio andou e o ano virou trazendo novas possibilidades (estranho falar isso no final de janeiro) para nós, não é mesmo? Aqui não só tivemos novidades, como apareceu uma linda viagem para descansar a beleza desta pessoa que vos escreve. Resolvi tirar férias em Recife e vou contar para vocês, bora lá?

Destino: RECIFE

praia_boa_viagem-450x298Antes de decidirmos o destino, fizemos uma busca das praias que possuíam acessibilidade para cadeirantes. Descobrimos que em Recife havia um projeto chamado “Praia sem Barreiras” – parceria do governo do estado, prefeitura e Universidade Maurício de Nassau (Uninassau) – que oferece cadeiras anfíbias para podermos desfrutar um pouco do mar na praia de Boa Viagem, considerada uma das melhores na região. Compramos um pacote de viagem pela Decolar, porém tivemos alguns contratempos, precisamos cancelar parte da compra e comprar a estadia no hotel com uma amiga agente de viagens.

Como não era a primeira vez que viajava de avião, fiquei bem ansiosa com o voo devido transtornos causados pela Gol durante o despache da cadeira de rodas. Desta vez viajamos pela Latam e para minha surpresa o procedimento deles foi menos traumatizante. Apenas um pequeno susto na ida, uma das baterias vazou um pouco porque a caixa de segurança virou durante o vôo. Entretanto a equipe se colocou a disposição para arrumar ou ressarcir se fosse necessário. Por sua vez, na volta, não tivemos problema algum.

É importante reforçar que toda pessoa com deficiência tem direito a um desconto na passagem de avião para o acompanhante, dessa vez eu deixei passar, mas não deixem de pedir caso façam uma viagem. Os procedimentos vocês encontram aqui.

O Hotel

É muito difícil encontrar um lugar com adaptações que atendam bem as necessidades de todos cadeirantes, por esse motivo é recomendável entrar em contato com o hotel e solicitar imagens para evitar surpresas desagradáveis. Quando pesquisamos o hotel levamos em consideração sua localização (o ideal era próximo à praia), a adaptação dos quartos e banheiros e piscina (afinal queríamos curtir tudo que a vida nos dá né nom?) como critérios de escolha. O Best Western Manibu tinha todos estes três fatores, mas o diferencial deles foi o banheiro.

Era bem espaçoso, com uma tampa de vaso normal (não aquela com abertura frontal) e barras de apoio próximas ao vaso e no chuveiro. Seria perfeito, não fosse a altura da pia. Infelizmente pecaram muito nesta parte. Cheguei a solicitar imagens do banheiro, mas não dava para ver direito se a pia era alta. Durante a estadia precisei usar uma almofada para dar altura. Para o banho, solicitei uma cadeira, para mim resolveu bem. Eles tem chuveiro de mão com dois registros de água para regular a temperatura, além do chuveiro no alto. Achei muito bom porque facilita na hora do banho (tenho pavor de tomar banho sem “chuveirinho”, dá uma sensação de não me lavar direito, rs)

Neste hotel o quarto com adaptação é da categoria luxo, portanto não tínhamos outra opção. No final compensou porque tinha um corredor largo, um espaço bom entre a cama e o guarda roupas que permitia manobrar a cadeira.

As dependências do hotel eram acessíveis com excessão da piscina. Ah! Essa foi uma grande decepção. Fomos para a cobertura, onde ela fica, e nos deparamos com duas escadas de acesso (fotos na galeria abaixo). Ficamos bem chateadas com isso, pois precisamos subir a cadeira para desfrutar do espaço.

A localização do hotel não é ruim. Fica duas ruas de distância da praia, em uma avenida com restaurantes, boate e supermercados. Bem movimentada, por sinal. O ponto negativo ficou para infraestrutura na cidade. As calçadas eram MUITO ruins o que dificultava os passeios noturnos. Ficamos um pouco limitadas para curtir a noite em Recife, pois além do acesso ser ruim, eles não possuem táxis adaptados.

Usamos táxi normal com o porta malas grande para caber a cadeira e ao indagar os taxistas sobre a ausência de transporte adaptado, me disseram (em unanimidade) que não havia demanda para isso. Achei no mínimo curioso, já que a praia é uma das opções para pessoas com deficiência como expus no começo do texto. Alguns quiseram estender o papo para questões políticas, mas naquele momento eu só queria sossego para minha cabeça. Não rendi assunto, como diria minha mãe.

Passeios

O mais legal dessas viagens são os passeios, portanto se pretende ficar uma semana em alguma praia do nordeste trate de reservar uma boa grana para visitar a maior quantidade de praias que puder. É sério! Vale muito a pena.

Nessa viagem fizemos dois passeios. Primeiro fomos para Porto de Galinhas e depois para Maragogi.

Em Porto de Galinhas compramos um passeio de bug que visitava as praias próximas, fazendo um mini circuito, sabe? Neste passeio vimos uma praia chamada Muro Alto que é perfeita para nós. Uma extensão imensa de piscina natural onde podemos ficar dentro d’água boiando, nadando, mergulhando sem medo de ser feliz, rsrs.

O bug foi relativamente tranquilo para mim, fiquei com medo de cair várias vezes, senti as pernas doerem, mas valeu a pena. O motorista, um senhor muito simpático chamado Carlos, teve o cuidado de ir com calma respeitando minha limitação. Além disso, foi um ótimo guia explicando os detalhes de cada praia.

Em Maragogi ficamos em um restaurante com praia privativa. Acho bacana este tipo de espaço, mas às vezes prefiro ficar em quiosques. Além de preços mais acessíveis, temos mais opções de escolha. Tirando isso valeu a pena ver o mar azul de Alagoas e matar saudade da viagem que fiz para Maceió.

Culinária

Se você for um dia a Recife, não deixe de passar no restaurante “Parraxaxá”. Além de ter diversas opções de pratos típicos, eles possuem um espaço bem adaptado para receber pessoas com deficiência. Como sugestão de sobremesa recomendo experimentar a “cartola”, um doce de banana cozida com queijo simplesmente delicioso e único. Em lugar algum você irá encontrar prato igual. Além deste fomos também no restaurante “Ilha Sertaneja”, próximo a feira de Boa Viagem, que além do mal atendimento, forjaram um banheiro acessível de doer o coração. Não recomendo.

Essa viagem era tudo o que precisava para iniciar o ano bem. Renovei minhas energias, me diverti e aproveitei cada minuto como pode. Se você tiver oportunidade faça isso também. Programe-se, organize-se e conheça lugares novos. Saia de casa e permita-se ver um mundo além da janela. Não pense que isto é exclusivo para quem tem grana, atualmente existem muitos pacotes e sites com promoções ideais para o seu bolso. Nada que um cartão de crédito/boleto dividido de 10x não resolva.

Agora é retornar firme e trabalhar bastante (para pagar a viagem)! Espero que tenham gostado da resenha e deixe seu comentário. Conte sua experiência para nós. De repente se tiver alguma dica, compartilhe aí.

Galeria de imagens 

Links

Restaurante Parraxaxá: http://www.parraxaxa.com.br/html/index.php

Hotel Best Western: http://www.hotelmaniburecife.com.br/pt-br/

Queridas Paralimpíadas, obrigada pelo empoderamento

*Por Ieska Tubaldini Labão

Eu nunca tinha assistido a mais do que cinco minutos seguidos de qualquer (qualquer) modalidade Paralímpica. Considerando o quanto eu assisto a esportes o tempo inteiro, essa é uma coisa que me causa bastante vergonha, apesar de, hoje, eu ter consciência de que a evolução (da trajetória de vida, da maturidade, da libertação, do empoderamento) é um processo que a gente não pode apressar.

O meu contato com esportes para pessoas com deficiência se limitava a algumas imagens do basquete em cadeira de rodas durante a vida e algumas provas do Clodoaldo Silva no último Pan. Repito, nunca mais do que cinco minutos. Era tudo o que meu teto de vidro aguentava antes de quebrar e me causar um incômodo enorme.

Crescendo como alguém que nunca gostou de reclamar das coisas, eu escutei durante a vida toda que era admirável como eu era bem resolvida como a minha deficiência – além, é claro, das incontáveis vezes que eu escutei a tal da palavra “superação” -, mas a verdade é que eu não era bem resolvida coisa nenhuma; eu ignorava a minha deficiência e ponto.

Do ano passado pra cá, eu me coloquei em um processo comigo mesma que, além de muitas outras coisas, proporcionou que eu me permitisse tentar assistir aos Jogos Paralímpicos do Rio com o coração mais aberto e menos carregado de pré-julgamentos como “vai ser chato”, “eu não vou gostar”, “eu não vou me sentir representada”.

Do dia da abertura para o dia do encerramento, eu perdi a conta de quantos mais-do-que-cinco-minutos de jogos paralímpicos eu assisti. Na verdade, eu ligava a televisão logo ao acordar e só desligava ao fim da última competição do dia. Na primeira semana tentei desligar enquanto trabalhava, mas ficava tão ansiosa com isso que não conseguia trabalhar coisa nenhuma. A partir daí, mantive a televisão ligada e consegui acompanhar os jogos e trabalhar com a maior tranquilidade e alegria do universo.

Cadeiras do basquete paralímpico são adaptadas e padronizadas (Foto: Daniel Zappe/MPIX/CPB)
Cadeiras do basquete paralímpico são adaptadas e padronizadas (Foto: Daniel Zappe/MPIX/CPB)

Nesses onze dias, eu assisti a todos os jogos de basquete que foram transmitidos, tive um dia maravilhoso só por ter dado de cara com uma sessão de esgrima logo ao acordar, fiz minha mãe sair correndo pela casa algumas vezes só pra vir ver QUE LEGAL QUE É ESSA MODALIDADE MÃE OLHA ISSO, fiquei maravilhada com o tanto de medalhas que o Brasil ganhava o tempo todo, gritei muito, torci demais, me empoderei mais ainda.

Opa. Pera. O que empoderamento tem a ver com isso?

Tem a ver que, enquanto eu me apaixonava perdidamente por todas aquelas modalidades, me admirava demais com a habilidade (que me falta) daquelas pessoas fazendo manobras fantásticas com as suas cadeiras esportivas, ganhava cinco ou seis crushes novas por dia e só não enviava uma quantidade enorme de e-mails ao Daniel Dias pedindo-o em casamento todos os dias porque descobri a tempo que ele já é casado, eu percebi que era hora de admitir que eu sempre fui muito capacitista e que, olha, aquilo estava acabando ali, naqueles onze dias.

Depois de campanha com ator global amputado pelo Photoshop e ver algumas das próprias pessoas com deficiência defendendo o episódio, os jogos chegaram para mim com um balde de representatividade. Não me importava que aquelas cadeiras eram diferentes da minha e que aquelas pessoas pareciam muito maiores e mais fortes que eu. Me importava que elas, como eu, amam o esporte e a ele dedicam muito de suas vidas, ainda que elas como praticantes e eu como espectadora. Me importava que elas eram atletas e eu sempre, sempre amei, admirei e respeitei muito pessoas atletas. Me importava que elas, como eu, pareciam (e demonstravam) não suportarem escutar sobre superação e, também como eu, sabiam e deixavam claro que isso é uma enorme bobagem; todo mundo no mundo passa por processos de superação todos os dias, não coloquem esse rótulo em nós, como se nosso “fardo” fosse pesado demais pra carregar. Não existe fardo. Existe estar vivo e só… Viver. Da melhor forma que for possível. Igual todo mundo.

No Twitter surgiu que um comentarista disse que “a cadeira parece parte do corpo da pessoa” durante uma das transmissões e alguém respondeu que “a cadeira É parte do corpo da pessoa!” e eu sou capaz de jurar pelos meus dois cachorros (que me tratam diariamente como se eu fosse a Mulher Maravilha e, portanto, são enormes responsáveis pela minha construção de uma boa autoestima) que em todos os meus dias desde então eu senti mais e mais como se minha cadeira fosse mesmo parte de mim, fazendo não só com que eu reclame menos dela, como que eu também pare de me sentir diminuída por ela. Não é que eu nunca tivesse pensado nisso, é só que, quando você vê alguém dizendo isso e muitas centenas pessoas concordando, tudo fica muito mais crível e possível. E talvez seja exatamente sobre isso que a representatividade seja, não?

Eu encerro meus onze dias de maratona paralímpica com uma porção de ideias sobre coisas que eu gostaria que tivessem sido diferentes e outro tanto de receios sobre quanto esses jogos realmente vão repercutir de agora em diante e deixar um legado positivo às pessoas com deficiência – atletas ou não -, mas eu também me despeço com a sensação de que o legado dentro de mim foi enorme. A vontade de acompanhar esses esportes de perto, incentiva-los da mesma forma que eu sempre incentivei todos os esportes, e continuar dando o melhor de mim em todos os dias da minha vida (já que agora, mais do que nunca, meus ídolos são pessoas com as quais eu consigo me identificar e, se eles fazem tudo aquilo da vida deles, eu quero e eu posso fazer também), já é um dos maiores presentes que eu ganhei da vida, na vida. E imaginar que isso também pode ter acontecido com muitas outras pessoas só deixa tudo ainda melhor.

Por isso, Jogos Paralímpicos do Rio, muito, muito obrigada. Nos vemos de novo em quatro anos mais empoderados do que nunca.

*Ieska é uma das autoras do blog “Medusas” e gentilmente se ofereceu para escrever sobre os jogos no Disbuga. Querida, o espaço está a disposição SEMPRE! 

Solidão da pessoa com deficiência

Dia 12 de junho, dia dos namorados.

Timeline invadida por fotos seguidas de declarações de amor. Não importa o tempo do relacionamento, vale apenas o registro. Presentes, encontros, agradecimentos e toda forma legítima de deixar claro aos quatro cantos da tela o quão feliz e aventurado é aquele que possui um amor.

É claro que os solteiros buscam um “contra ataque” a tamanha onda de afeição. Alguns buscam todos os argumentos necessários para explicar por que ser solteiro é melhor, outros questionam a veracidade dos amores declarados e assim seguimos acompanhando esse lindo dia de amor.

Para nós, pessoas com deficiência, solteiros ou não esta data pode também trazer três realidades incômodas: a hipervalorização do parceiro (se este for sem deficiência), obrigação do amor igual e a solidão.

Hipervalorização 

Imagine o cenário: um casal resolve sair para dar uma volta no shopping. Trocam carinhos, beijos, sorriem e brincam. Estão apaixonados. Normal, certo? Acrescente uma pessoa com deficiência e de repente a cena se transforma em algo fantástico. É como se houvesse uma aura de “amor real” na situação, pois “só alguém que AMA MUITO É CAPAZ DE PERMANECER AO LADO DE ALGUÉM COM DEFICIÊNCIA” assim mesmo, com caixa alta, pois para alguns é algo difícil de acontecer e portanto merece destaque.

Algumas pessoas com deficiência não se incomodam com isso, em alguns casos reforçam a ideia do “parceiro bondoso e santificado” a qual deve todo amor recebido. A pessoa fica com tanto medo de perder essa relação que tudo faz por ela. Uma porta aberta ao relacionamento abusivo.

Entretanto alguns casais não gostam desse espetáculo, querem apenas viver sua relação como ela é: normal. Esses enfrentam a dificuldade de expor o seu sentimento, uma vez que isso foi tão hipervalorizado que qualquer palavra ou ação já recebe holofotes.

Obrigação do amor igual

É muito comum as pessoas sem deficiência ao observar uma PCD (pessoa com deficiência) solteira sugerir a esta uma relação com outra PCD.

Não há nada de errado na relação entre iguais (aqui considero iguais pessoas que tenham deficiência, não importando se estas são iguais), aliás existem muitos casais que o são e são muito felizes. O problema está em considerar que esta é a única opção de uma PCD.

O amor não precisa acontecer somente entre os iguais. O amor acontece porque acontece. Simples. Essa obrigatoriedade é uma das causadoras da solidão da pessoa com deficiência.

Solidão

É impressionante o peso que a deficiência tem em relacionamentos. Seja qual for a relação. Não basta trazer em si uma boa personalidade, inteligência, senso de humor, bom gosto ou qualquer outra característica importante para se considerar alguém interessante. Se este (ou esta) estiver em uma cadeira de rodas, por exemplo, deixou de ser uma opção de paquera. É como se fosse uma escala de pontuação. Seja 100 em todos os pré-requisitos, mas se apresentar menos de 10 em “eficiência” física anula todos os pontos.

Por esse motivo constantemente vemos muitos reclamando sua solidão e desacreditando que um dia serão pessoas dignas de receber o amor de alguém. Tentam de todas as formas serem aceitos, tentam os aplicativos de relacionamentos, salas de bate papo e toda e qualquer estratégia para se aproximar das pessoas. Já vi críticas de PCDs em relação a isso, dizendo que estes não possuem mais nada a fazer senão o desejo de namorar. Ocorre que de tanto tentar essas pessoas começam a negociar e diminuir seus valores. Uma gota de atenção já basta.

Para mulher com deficiência, então, a solidão traz em si o peso de “não ser mulher”.

_ Nossa você é linda… Adoraria te conhecer, vamos sair?

_ Obrigada, você viu que uso cadeira?

_ Não… É mesmo? Ah… mas o importante é ser feliz né? Aqui, você é muito legal. Vou precisar sair agora, mas a gente se fala.

Nos sentimos incompletas. Mulheres lindas começam a questionar sua aparência, culpam-se por não serem “normais”. Perdem sua auto estima, não se sentem capazes de fazer alguém feliz. Em alguns casos perdem inclusive sua identidade.

A solidão transtorna, amig@s. Deprime.

A vida segue (?)

É preciso mudar o olhar para as pessoas com deficiência. Nós somos resultado de nossas experiências e podemos oferecer bons momentos como qualquer outro.

Aquela moça com cadeira de rodas pode ser uma excelente companhia para um sábado a noite, o rapaz com baixa visão pode ser incrivelmente engraçado e te valorizar mais do que as outras pessoas que conheceu.

Porém não se engane, não desejamos que ignore nossas diferenças ou que se considere benevolente em se aproximar de nós, apenas que não utilize nossa deficiência como desculpa para o seu preconceito. Se isso não for possível, então permaneça distante. É melhor viver sozinho do que mal acompanhado.

Se tiver algum amigo com deficiência nessas situações, não desvalorize as suas tentativas. Nada de:

_Ah, você conheceu esse cara na internet? (cara de deboche)

_ Nossa, mas você só usa a internet pra conhecer as pessoas. Por isso não dá certo.

_Já pensou em fazer outra coisa?

_Quando parar de procurar, vai aparecer alguém.

_Eu acho que você devia ser menos exigente.

_Você precisa sair menos.

_Você precisa sair mais.

_Você devia agradecer que fulano (a) tá namorando com você…

Se você não tem nada melhor a dizer, permaneça calado e apenas ouça. Seja uma boa amizade e não pese em seus julgamentos. É preciso compreender que a solidão da pessoa com deficiência é resultado de uma sociedade capacitista e preconceituosa. Esta já exerce muita pressão e opressão sobre nossos ombros com sua falta de acessibilidade em espaços públicos. É preciso construir um olhar mais humanizado para nossas questão abrindo mão do vitimismo e do heroísmo. Enxergar menos seus diagnósticos e mais o ser humano. Somente assim conseguiremos criar uma consciência nas pessoas capaz de fazê-las entender que somos iguais, apesar das diferenças.