O que as empresas precisam saber sobre embalagens acessíveis

A agência Wunderman Thompson lançou um relatório chamado “The Future 100: Tendências e Mudanças para observar em 2022” apontando o que podemos esperar para os próximos anos. 

Para minha surpresa, (e eu acho que para sua também!), a agência destaca que o uso de embalagens inclusivas será uma realidade cada vez mais exigida pelo público. 

Por mais que algumas empresas estejam preocupadas em promover a diversidade em sua comunicação, não podemos dizer o mesmo quando o assunto é acessibilidade. Não estou falando só de adaptações arquitetônicas, como rampas e elevadores, mas sim de mudanças de comportamento das marcas em relação às pessoas com deficiência. 

Existem diversas maneiras de tornar os produtos e suas embalagens mais acessíveis para o público. Ao aplicar um dos princípios do Design Universal, a Kellogs, por exemplo, disponibilizou uma linha dos seus cereais com braille nas caixas.

A Microsoft também inovou nesse quesito, ao convidar gamers com deficiência para ajudar a montar uma embalagem acessível para o XBox adaptado. Não faz sentido criar um produto para esse público, para entregá-lo em uma caixa difícil de abrir, não é?

O mesmo vale para outros segmentos, como produtos de beleza, higiene pessoal ou de alimentos. Oferecer produtos fáceis de manusear vai favorecer tanto as pessoas com deficiência, quanto aqueles com mobilidade reduzida. 

Ronald Mace. Descrição: Foto em preto e branco de um homem branco com barba, óculos e cabelo liso curto sentado em uma cadeira de rodas. Ele está sorrindo em direção à câmera. Ele usa um terno com gravata de bolinhas. No fundo dá para ver algumas árvores embaçadas.
Ronald Mace. Descrição: Foto em preto e branco de um homem branco com barba, óculos e cabelo liso curto sentado em uma cadeira de rodas. Ele está sorrindo em direção à câmera. Ele usa um terno com gravata de bolinhas. No fundo dá para ver algumas árvores embaçadas.

Em meados de 1985, o arquiteto Ronald Mace desenvolve o conceito de Design Universal. Ele defende que ambientes acessíveis são aqueles aptos a receber pessoas independentemente de suas idades, estaturas, habilidades, condições sensoriais ou físicas. Mais tarde, esse conceito foi aplicado em produtos, equipamentos e serviços. Em 1997, o Centro de Design da Universidade da Carolina do Norte definiu 7 princípios do Design Universal:

  1. Uso equitativo;
  2. uso flexível;
  3. uso simples e intuitivo;
  4. informação perceptível;
  5. tolerância a erros;
  6. baixo esforço físico;
  7. tamanho e espaço para aproximação e uso.

Não basta só chamar pessoas com deficiência para fazer publi. Tem que mudar a cultura da marca para que realmente seja inclusiva para todes. Imagina que incrível se marcar como a Avon, Natura ou Nivea tivessem o nome dos produtos em braille. Não seria demais?


Fontes:

The Future 100: Trends and Change to Watch in 2022. https://www.wundermanthompson.com/insight/the-future-100-2022. Acesso em 04 de abril de 2022.

What Every Brand Needs to Know About Adaptive Packaging. https://www.shutterstock.com/blog/adaptive-packaging-for-brands. Acesso em 04 de abril de 2022.

GOMES, Danila; QUARESMA, Manuela. Introdução ao design inclusivo. 1. ed.- Curitiba: Appris, 2018.

Dia Nacional da Luta das Pessoas com deficiência

Descrição: Card com fundo azul. À direita, uma faixa branca com uma notícia de título: Deficientes realizam hoje o dia de luta. À esquerda, ocupando o centro as frases na cor branca “21|09 Dia nacional de luta das pessoas com deficiência”, além da assinatura “@disbuga” na vertical. No rodapé, a frase “Folha de São Paulo | 21 de setembro de 1982. Fim da descricão.
Texto do fragmento:
Deficientes realizam hoje o dia de luta

Com um ato público marcado para às 11h30, na praça da Sé, seguido de uma visita ao Centro Cultural São Paulo, sete entidades que reúnem pessoas deficientes realizam hoje o Dia Nacional de Luta, que ocorrerá em diversas cidades, conforme foi definido durante o encontro de delegados estaduais realizado de 16 a 18 de julho em Vitória, Espírito Santo.

O objetivo principal da manifestação é dar continuidade ao Ano Internacional das Pessoas Deficientes – reservado pela ONU em 1981 –, ou, com prefere Galeno Silva, um dos coordenadores do Movimento pelos Direitos das Pessoas Deficientes (MDPD), “mostrar que o Ano terminou mas os problemas continuaram”. Para ele, a iniciativa da ONU permitiu, no Brasil, a divulgação, junto aos deficientes, de seus direitos e a conscientização do potencial de luta que possuem. Ainda como saldo daquele Ano, Galeno aponta “a aumento do espaço que a imprensa tem dedicado” aos problemas dessa camada da sociedade. Segundo dados colhidos pelo MDPD junto à Onu, trata-se de uma camada significativa da população, calculada por esse organismo em dez por cento da população, ou seja, cerca de 2,5 milhões de pessoas no Estado.
[descrição da imagem está no texto alternativo]

Hoje é dia para relembrar a importância da mobilização pelos direitos das pessoas com deficiência, momento para refletir sobre o passado, mas principalmente atentar para as dificuldades que ameaçam o nosso bem-estar futuro.

É também tempo de celebrar nossas conquistas, desde a mudança de nomenclaturas que nos humanizam e reforçam nossa condição de sujeitos (usar pessoa com deficiência, ao invés de deficientes, por exemplo), até a possibilidade de construirmos coletivos com atuação nacional e de acolhimento às diversidades no ser e viver com deficiência.

Hoje reconhecemos nossas identidades, nos identificamos em nós e nos outros. Temos orgulho de nossos corpos, nossas histórias, nossas dores e singularidades.

As barreiras não cessam, perdemos alguns direitos nos últimos anos e, ainda permanecemos invisibilizados nos demais movimentos sociais. Nossa luta, porém, não se cala. Queremos nossos espaços reconhecidos, nossas vozes recebendo a devida atenção, pois nossa vida é preciosa demais para ser ignorada.

Que hoje seja o momento para você, sem deficiência, se perguntar: o que tenho feito para tornar o mundo mais acessível? O que tenho feito para adotar uma postura menos capacitista? 

Enquanto isso, meus sinceros agradecimentos a cada ativista com deficiência que segue firme na militância. Desejo a todes um ótimo dia, afinal toda luta se constrói nos encontros e se mantém com uma boa dose de paixão, amor e amizade.  

P.S.: Não se usa mais o termo deficientes, mas PESSOA com deficiência.

Representatividade nas eleições, o perigo do conto do vigário

Iniciamos mais um processo político em nosso país. Desde as eleições de 2014 fomos golpeados com momentos turbulentos seguidos de dias bastante temerosos. Mudanças em diversos setores importantes para a sociedade foram realizadas ao que chamamos “toque de caixa”, um após o outro apesar dos apelos populares. Tivemos gritos de revolta, gritos de apoio e assistimos diversos personagens importantes sendo acusados e presos por corrupção. Acompanhamos tudo com aquela sensação terrível de impotência.

Descrição: Imagem do personagem Caco, um sapo, com a mão esquerda na boca tremendo ansiosamente. Fim da descrição.

Vimos também o assassinato de Marielle Franco, seguida de toda morosidade do processo de investigação. Novamente, acompanhamos atonitamente mais um episódio de impunidade, desta vez alcançando uma figura de importância política, defensora dos direitos humanos. Até hoje, dia 20 de agosto de 2018, o crime segue sem culpados.

No Congresso, a mesma rotina que nos lembra o refrão da cantiga do programa “A praça é nossa”: “A mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores, o mesmo jardim. TUDO É IGUAL.”

Enquanto isso, na margem das discussões, partidos se organizam para formularem suas chapas e alianças para conquistarem mais um período de quatro anos no poder. A baixa popularidade do presidente e suas reformas fez com que deputados e senadores mudassem suas legendas afim de confundir o eleitor. Nos bairros de periferia já podemos ver o milagre das verbas para obras eleitoreiras. Aquela rua que o vereador X disse não ter verba para fazer, aparece no dia seguinte com tratores e asfalto “gentilmente” concedidos pelo candidato a deputado do mesmo partido do vereador. Coincidências apenas.

Sua representatividade…

Descrição: Imagem em movimento de uma mulher com roupa esportiva dançando como uma bailarina da direita para esquerda. O passo consiste em levantar uma perna para cima fazendo surgir um arco-íris que some ao fechar as pernas e iniciar o mesmo passo para o outro lado repetindo o efeito. Os braços balançam seguindo o ritmo da dança. Fim da descrição.

Ao contrário dos últimos anos, nestas eleições vemos um apelo pela diversidade. Diversas pautas exploradas pelos movimentos sociais são transformadas em proposta de governo por diversas candidatas e candidates a Senado e Câmara. Essa mudança nos planos demonstra a força das lutas feministas, da condição do negro e dos LGBTQ, porém infelizmente ainda não temos a mesma potência para pessoas com deficiência.

Em seminário promovido pelo Supremo Tribunal, chamado “Elas Por Elas”, a ministra Rosa Weber critica a diferença entre a quantidade de candidatas e a quantidade de eleitoras, 52,5% do eleitorado brasileiro é feminino, porém apenas 30,7% das candidaturas são de mulheres.

“Façamos, mulheres, ao exercer todas nós esse direito essencial da cidadania que é voto, a diferença para um fortalecimento para o estado democrático de direito, conquista diária e permanente de todos nós, com a consciência de que em nossas mãos, mulheres, está o destino do País, com a construção de sociedade que todas queremos, igualitária, justa e inclusiva.”

Em contrapartida, esse ano tivemos um aumento de candidatos LGBTQ. Segundo a matéria “População trans reage a transfobia e se candidata nas eleições de 2018” do site NLCON, pelo menos 47 candidaturas foram registradas de acordo com o levamento realizado pela ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais). Acredita-se que os diversos casos de homofobia e transfobia tenham sido motivador para busca de uma representação política do grupo, afim de legitimar suas existências.

Também houve um aumento na quantidade de candidatos negros, 9% a mais em relação a última eleição em 2014. É importante lembrar que de acordo com números da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) divulgados no fim do ano passado, a população é formada em maioria por negros: 54,9%, sendo 46,7% de pardos e 8,2% de pretos. Esses dados mostram a importância da representatividade deste grupo, uma vez que ainda temos uma maioria branca ocupando os cargos.

… pelo seu voto

Vote consciente
Descrição: Desenho de várias mãos, nas cores azul e alaranjado, segurando papéis de voto para colocar em uma urna branca no lado esquerdo inferior. Fim da descrição.

É satisfatório observar o aumento de nossas representatividades nessas eleições, é como se reacendêssemos uma chama de esperança diante deste cenário turbulento que estamos vivendo nos últimos anos. Afinal, para garantir nossos direitos (ou o que nos resta deles) precisamos de deputados/senadores que estejam alinhados com as necessidades aclamadas pela sociedade. Caso contrário, novamente assistiremos um espetáculo de conchavos e interesses escusos.

Mas não devemos nos enganar pela roupagem apresentadas em campanhas. Nem todo político ali terá o compromisso com seus eleitores, há muito de estratégia de marketing e pouca escuta nas falas e projetos. Terá muito candidato (a) a favor das mulheres, contra a discriminação às pessoas com deficiência, a transfobia/homofobia/racismo e cheio de intenções em transformar esse país em um reduto de amor, porém não se engane. 

Observe a trajetória dessas pessoas, o que realizaram durante os anos de mandato, como se portaram diante das decisões turbulentas que passamos, veja se as propostas são viáveis e possíveis de se realizar. E o mais importante: vamos cobrar resultados!

Agora se você tem deficiência e está lendo esse texto, fique COMPLETAMENTE alerta com os (as) candidatos(a). Perdemos muitos direitos nos últimos anos, seremos duramente afetados pelo congelamento de verbas na saúde, na educação corremos o risco de sermos impedidos de frequentar as mesmas escolas e ter a mesma qualidade de ensino das outras pessoas sem deficiência. Há muitas coisas ameaçando nossas existências, aprovadas por quem não tem deficiência e também por aqueles que tem deficiência (com condições bem diferentes da maioria da população).

Nesse momento tão frágil em nossa democracia, não basta somente nos representar. É preciso nos escutar.

 

Do auto ódio ao que se dane padrões

Por Manoella Back

 

Você já sentiu ódio de si? Pois este é algo que nos acomete/ acometeu por diversas vezes. Consciente ou inconscientemente. Muitas delas por não corresponder aos sinais fenotípicos ou normalizados por uma sociedade de padrão europeu e sem quaisquer limitações de bom senso.

“Ahhh, mas Manu, todos nós já nos odiamos e blá, blá”… ZZZzzz

Sim, mas somos indesejáveis em algum momento de nossas vidas como naquela escola tida como “de valores” ou “inclusivas” quando colegas e professores são excludentes em suas aulas.

Somos indesejáveis quando empresa “X” te limita aos cargos menos valorizados ou teus colegas te colocam para fazer trabalhos mecânicos e que “não precisam pensar” – sim, eu já ouvi isso! – mesmo sabendo dos seus quereres e capacidades.

Há aqueles que, não importa o teu esforço, não te reconhecem porque meritocracia é coisa para gente reacionária ver e história para boi dormir.

E aquele boy/ girl mega progressista que diz que te ama, te admira (ahaaam, seeeei!) mas que não te assume? Isso é porque você é defiça, meu bem! Isso e mais o auto ódio.

Porque as pernas não se mexem. Ou não se mexem como deveria. Ou porque você não ouve. Não enxerga como “dizem ser para enxergar”. Por causa da ausência de muitas políticas públicas. Por causa de uma mídia que não te representa ou faz uso de humoristas racistas e capacitistas em trabalhos duvidosos e desumanos.

Ou quem não lembra dos anões do Pânico na TV?

Preconceitos e afetos velados.

Descrição: Desenho de uma silhueta feminina em branco com pontilhados para recortar contornando. Ela está sentada em uma cadeira preta. Fim da descrição. Imagem de Stephen Wood

Nosso discurso no espaço privado e micropolítico é silenciado. Quando se é mulher e tem deficiência, nem se fala. Porém, quando você consegue ter força o suficiente para fazer com que sua voz ultrapasse algumas fronteiras receberás aplausos de quem te criticou. Participarás de mesas com educadores ou artistas em que as palavras construção, liberdade de criação, subverter, acolher, respeitar e libertar serão constantes mas, ao atingir, as questões da deficiências, estas mesmas palavras se transformarão em “problema” ao tocar o tema da deficiência ou suas experiências são surrupiadas sem dó, nem piedade. Ou seja, aceitação e inclusão até a página 7.

De novo, nós, submetidas e submetidos às relações de poder normatizadas. Há quem diga constantemente que somos tímidos ou nos pintem “sem querer querendo” como “dóceis”. Mas é a história. De subjugação. É o silenciamento que nos faz estar ou deixar de estar em determinados espaços.

Levantar estas questionamentos me recorda uma passagem de Simone de Beauvoir em O Segundo Sexo em que aponta que “somente as que têm um credo político, que militam em sindicatos, que confiam no futuro, podem dar um sentido ético às ingratas fadigas cotidianas.”  Puxo esta afirmação aos desafios de pessoas com deficiência e minorias para que se promova o poder de questionar o que mundo nos oferta.

Para quem leu ou releu até aqui, sinto desapontar. Os que nos leem com mais frequência por aqui sabem que somos mega bem humorados, mas desta vez, aquelas palavrinhas que podem te deixam com borboletas no estômago não vão rolar. Auto ódio não é brincadeira: são nossas autoestimas e formas de olhar, rir e viver a vida em jogo. Não tenho uma pílula mágica sobre como lidar com o auto ódio. Eu só encontro palavras como imposição e enfrentamento. Em tudo. Para todos.

Há quem me acuse de ressentida ou atribua adjetivos do tipo. Mas quero crer num processo de construção intelectual/ cognitiva em conjunto. Empatia, pode ser, mas só para facilitar o rolê porque ela ainda é uma palavra bonitinha-da-malandragem.

Não tenho respostas porém, faço perguntas: é fácil não nos ressentir frente às atuais conjunturas sociopolíticas que deficientes, mulheres e outras minorias vivem? O que esperar de famílias, amigos, relacionamentos ou governos além do que está [im]posto? O campo dos comentários está aí para que vocês reflitam comigo. Quero é fumacinha saindo de nossas cabeças de tanto pensar. Vem comigo?


Manoella Back é jornalista, especialista em Cultura & Literatura, aquariana-louca-da-astrologia, fã de Harry Potter, samba, teatro, cerveja e MPB. Luta por um mundo melhor por meio da justiça, direitos humanos e promoção da igualdade.

 

A revolta pelos Canudos

Quem já segue as redes sociais do Disbuga sabe o quanto os últimos dias foram agitados para pessoas com deficiência por causa da polêmica gerada em torno de uma postagem sobre o banimento dos canudos de plástico nos estabelecimentos. Se você não está sabendo o que aconteceu, continue a leitura que vou explicar o que aconteceu.

No dia 10 de julho, Marina começou a expor no Twitter como essa política de banimento dos canudos plásticos prejudicaria a vida das pessoas com deficiência. Foram vários tweets onde ela apresentava justificativas e explicações baseadas em informações sobre tipos de deficiência, produção de lixo e a ausência de inclusão desta medida.

Descrição: Print do tweet de Marina com o texto “As pessoas que comemoram o fim do canudo plástico, que é dobrável e não machuca, nunca tentaram dar nada pra um PcD como eu beber. Just saying” Fim da descrição.

Várias pessoas começaram a expor suas experiências pessoais ou com familiares para endossar a importância da fala de Marina. Foram diversas curtidas e retuites que surpreenderam a própria autora do debate. Entretanto, quando falamos de internet tudo pode acontecer.

Guerra dos Canudos

Como haveria de ser, várias (mas VÁRIAS) pessoas começaram a explicar maneiras de driblar a ausência de canudos, com soluções “sustentáveis” para Marina, como se sua fala reduzisse apenas às suas necessidades. Surgiram diversas opções de canudos de alumínio, bamboo, silicone, de papel, laváveis, biodegradáveis e alguns até apareceram com engenhocas dignas do doutor Buginganga, porém nenhuma dessas pessoas se atentou ao básico de toda discussão: inclusão.

Descrição: Imagem com fundo branco. No centro, o texto em destaque “Por que as pessoas, ao invés de quererem banir, não cobram às empresas que treinem para quando você recusar o canudo, o funcionário vai lá e coloca na bandeja do mesmo jeito? Quer o canudo? Não quer? Deixar de usar o canudo, diminui o consumo, mas não acaba com a produção. Tem gente que precisa, o uso é essencial para alguns”, ressalta.” Fim da descrição

Tal comoção resultou em matérias no Buzzfeed e no G1 de Campinhas que levaram a conversa para além da rede social dando início a uma verdadeira Guerra dos Canudos. De um lado, pessoas supostamente preocupadas com a preservação do meio ambiente. Do outro, pessoas tentando explicar como a medida exclui uma parcela da sociedade. Uma onda de ataques direcionados à Marina fez com que várias pessoas com deficiência rebatessem as mensagens negativas. Foram dias bastante turbulentos, porém muito reveladores. 

O show de horrores

“Se quiser por à prova o caráter de um homem, dê-lhe poder” disse Lincoln e nesses dias pude observar a essência desta frase. Foram tantas manifestações singelas e escancaradas de todos os tipos de preconceito, que fica até difícil enumerar aqui. Por esse motivo, vou separar alguns assuntos para facilitar.

  1. Capacitismo: este é o mais claro e óbvio de todo debate. Diversas pessoas ignoraram a fala de Marina com o falso pretexto de expor soluções ao problema, para simplesmente assumirem suas decisões. Essa atitude é comum nas pessoas sem deficiência, grande parte se acha mais capaz de avaliar nossas necessidades e desqualificam nossos argumentos, considerando-os “má vontade” ou “rebeldia”. Comentários do tipo “nossa, mas você nem tentou fazer tal coisa” ou “ah, mas você também quer o quê?” são típicos exemplos capacitistas. Sem contar, nos ataques diretos à pessoa.
  2. Machismo: diversas mulheres com deficiência falaram sobre a importância da fala de Marina, expuseram dados e informações relevantes sobre o tema. Entretanto, alguns homens não só ignoraram sua fala, como sequer compartilharam as postagens de outras mulheres. Aliás, é bem comum observar como alguns homens (inclusive com deficiência) desvalorizam nossas falas, assumem nossos protagonismos e ignoram completamente nossas discussões sobre feminismo. Mas, como costumam dizer: nada novo sobre o sol, não é mesmo?
  3. Ambientalismo fake: Aqui a discussão assume até um caráter jocoso. Foi impressionante observar como as pessoas são incoerentes quando se fala de medidas para salvar o ambiente. Alguns casos é possível notar a falta de conhecimento sobre o processo de produção de lixo, contudo em outros percebemos o esvaziamento do discurso. Ora essas, se você usa um canudo por hobby e não por necessidade real, de nada importa se ele é de bamboo ou inox. Você é apenas um hipster tentando ganhar likes pela postura “sustentável” que tem.

O assunto é inclusão

Essa discussão que Marina propôs é conhecida e arduamente debatida pelas comunidades de pessoas com deficiência nos outros países, tendo como foco o mesmo ponto: inclusão.

Nós não pedimos pela poluição dos oceanos, tampouco somos contra tartarugas, mas questionamos o verdadeiro sentido deste banimento. Retirar um produto de circulação não resolve nem 10% de uma situação grave como a produção de lixo no mundo, apenas dificulta a vida de uma parcela da população.

Inclusão é garantir um modo de vida em que TODA pessoa possa existir sem prejuízo de valor. Encontrar lugares acessíveis (ou minimamente acessíveis) é uma das maiores dificuldades que temos. Há toda uma ansiedade envolvida quando resolvemos sair de casa por causa disso, portanto não é correto nos onerar com mais essa questão.

Não tenho que sair de casa com canudo, porque não é algo que diz respeito somente a mim. Também não diz respeito somente a Marina, afinal não somos as únicas pessoas com deficiência no mundo. Diz respeito a todos.

Infelizmente, bem sabemos que esta discussão vai perder sua força, o banimento vai seguir progressivamente e nós mais uma vez teremos que inserir mais um item em nossas listas. Hoje é o canudo, e amanhã?

 

 

Quando o silêncio grita

Vocês devem achar que estou preguiçosa ultimamente, né? Publicando textos de coleguinhas e deixando de produzir os meus. Mas garanto que esta pausa tem a melhor das intenções.

Afinal, como deixar de publicar materiais ora elaborados especialmente para o blog ora tão sensíveis que fica impossível evitar a publicação? Por esse motivo, guardei minhas ideias na gaveta e abri as janelas, portas e coloquei a água no fogo para preparar um cafezinho bem gostoso especial para acompanhar as reflexões dos meus queridos amigos.

O texto de hoje é da Ieska (que já apareceu no Disbuga aqui e aqui) onde ela nos conta um pouco sobre sua mudez temporária. Sim, após uma viagem para Europa perdeu a voz por mais de um mês, condição que lhe causou muita tristeza, mas também permitiu perceber inúmeras coisas nesta experiência. Tais ideias resultaram também em um ensaio lindo, feito pelo seu amigo João Francisco Casale. Ficou com curiosidade? Então, vamos conferir.

Com vocês, Ieska.


Diário de bordo, última parte.

Pelo menos por enquanto.

Fotografia é mensagem sem som, então talvez por isso ela tenha sido minha forma de expressão preferida nesses últimos meses. Como se adivinhasse, o João me mandou uma mensagem para falar sobre outro assunto exatamente quando eu ficava o tempo todo olhando o contato dele no meu celular, tentando criar coragem para chamá-lo e perguntar se ele topava comprar uma ideia que eu tinha pensado.

Descrição: Montagem com três fotos preto e branco verticais, tiradas de baixo para cima. Em todas elas, Ieska está usando uma blusa preta de manga longa e possui esmalte preto nas unhas. Na primeira imagem, Ieska está com as mãos na boca olhando para o lado. Seus dedos estão entreabertos permitindo ver seus lábios. Na segunda imagem, no meio, suas mãos cobrem totalmente a boca. Na terceira e última foto, seu rosto está totalmente escuro por causa da sombra e sua mão sustenta a cabeça pendente para frente. Fim da descrição.

“Fotografar a falta de som? Complicado, hein? Ok, topo”, foi a resposta dele, basicamente, e eu não precisei de mais nada para me sentir encorajada de verdade a fazer isso.

A fala voltou antes que pudéssemos fazer a sessão de fotos que gostaríamos, mas talvez a maior graça tenha sido essa. Discutimos ideias, demos muitas risadas, esquecemos de mais da metade das coisas que já tínhamos pensado em fazer e, com a ajuda de duas placas de isopor, algumas almofadas e a luz natural do quarto azul, tentamos expressar a mudez e todas as coisas que ela fez com que eu sentisse durante aqueles dias.

Eu e o João nos conhecemos num contexto que tem nada a ver com fotografia, demoramos um tempo gigantesco para nos aproximarmos e, entre graduações que não tem muito a ver com nenhum dos dois, aplicativos de supermercado, planos de negócios, concursos de fotografia e papos filosóficos que saem do mais absoluto nada, eu sou feliz pela arte que produzimos juntos exatamente dois meses depois do dia em que minha voz começou a falhar.

Obrigada pela parceria e pela sensibilidade, querido fotógrafo. Nossa expressão em preto e branco foi o fechamento deste ciclo e a porta para o próximo passo.

Que venham, em muito breve, as fotos em cores.

De novo? Sério isso?

Se você tem algum tipo de deficiência física onde necessita de acessibilidade nos espaços, certamente já fez esta pergunta ao encontrar algum lugar sem adaptações necessárias para te receber. Talvez tenha dito algo semelhante enquanto navegava nas redes sociais e se deparou com uma postagem ou vídeo de alguém com deficiência comentando sobre suas dificuldades em espaços públicos/mobilidade urbana. Pois bem, sinto te informar, mas esse texto também é sobre este tipo de experiência. Portanto, sinta-se a vontade para dizer: aff, sério isso?

Sim, sério. Aliás, a seriedade no assunto às vezes acaba em riso quando nos deparamos com a criatividade de algumas pessoas ou empresas em adaptar (ou melhor improvisar) os lugares para nos receber. São situações em que nos perguntamos intimamente:

Não teve ninguém para dizer que isso está errado?

Bom, a ABNT já estabeleceu normas que regulamentam e orientam os profissionais responsáveis pelas construções de espaços destinados à pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, porém nem sempre são conhecidos ou seguidos de modo apropriado. Um bom exemplo disso são os vasos com o famoso buraco frontal que costumamos encontrar nos shoppings e em alguns lugares. Este vaso não é o recomendado, pois reserva-se ao uso em HOSPITAIS, porém acredito que alguns engenheiros ou arquitetos desconheçam este “pequeno” detalhe. Na imagem abaixo, extraída da ABNT (um pdf que você pode baixar aqui) podemos ver as instruções para fazer um banheiro:

Descrição: imagem com dois desenhos de banheiros adaptados para pessoas com deficiência. Do lado esquerdo mostra o vaso de frente, o lado direito mostra o vaso de lado. Ambos estão com as medidas de todos os itens do banheiro.

Eu ando com bonde

Ludmila, na época MC Beyonce, já dizia essa preciosidade da música brasileira: “Não olha pro lado que tá passando é o bonde”. Se não conhece, clica aqui e afasta os móveis para dançar até chão. Pode ir lá, eu te espero para continuar o texto.

Descrição: Foto em preto e branco de um grupo de mulheres. Elas estão em fila como se fossem entrar na passarela, na frente está uma cadeirante com prótese na perna e atrás dela, no lado esquerdo, estão as outras mulheres. Todas estão olhando para baixo e algumas estão usando lingerie.

Voltando nosso papo, essa falta de acessibilidade adequada nos espaços, por vezes prejudica não apenas nosso ir e vir, como também a possibilidade de divertirmos com nossos acompanhantes. É muito comum, cadeirantes (vou limitar a este tipo de deficiência, pois é meu caso) saírem com pessoas que muitas vezes não possuem deficiência. São familiares, amigos e, em alguns casos, paqueras/namorados(as)/maridos/esposas.

Saí esses dias com minha irmã e com minha sobrinha para assistirmos “Guerra Civil” no cinema de um shopping de Belo Horizonte chamado Boulevard. Normalmente, frequento outro shopping, chamado Estação, pois o espaço destinado para cadeirantes no cinema é um dos melhores que já encontrei. Porém, o horário não era bom e resolvemos tentar neste outro.

O visual do lugar chamou nossa atenção, tudo muito grandioso, bonito e com várias opções de combos para o filme. Como estávamos ansiosas tudo nos agradou, até o momento em que entramos na sala e vimos o espaço separado. Infelizmente, não haviam cadeiras para acompanhantes ao lado do espaço para cadeirantes, tivemos que solicitar cadeiras de escritório para que ambas pudessem ficar ao meu lado durante a exibição. Afinal, como disse antes “eu ando com bonde” e ele não se separa.

Claro que quando você sai com pessoas queridas, tudo vira farra. Rimos da situação, debochamos bastante, mas o incômodo ficou ali. Ora, como assim não tem cadeiras para acompanhantes. O que pensam de nós, afinal?

Um exercício diário

Já sabemos a resposta desta pergunta, também temos conhecimento do quão demorado é o processo de aprendizado social. Ninguém espera uma mudança drástica de uma hora para outra, mas há dias em que você simplesmente esquece disto e dá aquela suspirada, seguida de um “aff”.

Descrição: Imagem com fundo cinza de uma mulher revirando os olhos e pendendo a cabeça para frente como se estivesse entediada. Ela tem cabelos, olhos pretos e usa uma blusa na cor preta. Usa batom vermelho nos lábios.

Acredito que as pessoas com deficiência tem liberdade para viverem como acharem melhor, entretanto sem perceber nossa existência acaba se atrelando a um posicionamento político. No momento em que você orienta um gerente de restaurante ou o diretor de uma escola sobre acessibilidade ou inclusão já está agindo em favor da sua causa e de outras pessoas, uma vez que uma sociedade diversa abrange a todos.

Todos os dias precisamos nos posicionar, mesmo contra nossa vontade. Aqui, não pretendo te forçar um ativismo, de modo algum, mas um simples compartilhar de post, um vídeo ou uma postagem que fazemos é uma semente lançada. Minha jornada começou assim e venho tentando fazer alguma coisa para fazer as pessoas sem deficiência compreenderem minha vida e entenderem a necessidade de fazerem parte deste caminho.

Por isso, precisamos ocupar os espaços, mesmo aqueles sem adaptação. As pessoas precisam nos ver para “lembrarem” de nós, quantas vezes ouvi de amigos “nossa, depois que te conheci passei a reparar se os lugares são bons para você”. Bom, infelizmente não dá para conhecer todo mundo em Belo Horizonte (quer dizer, dá sim, me esqueci que BH é um ovo) então vamos aproveitar as oportunidades e sairmos de casa. Vá aos lugares, mostre sua vibe, oriente se necessário e disbugue tantos quantos conseguir.

Que consigamos mudar o tom da pergunta acima para

“ir ao lugar tal de novo? Só se for agora!”

Imagem by: https://www.instagram.com/p/BVE3EX7BhNS/?taken-by=elkelale

 

O mundo freak de Diane

Nunca escondi meu interesse pelo estudo das imagens, principalmente àquelas que representam pessoas com deficiência. Muito além da minha formação e preferência por design, há um desejo de compreender quais são as intenções e mensagens por trás de tantas fotografias que vemos por aí. A máxima “uma imagem fala mais do que mil palavras” nunca foi tão verdadeira.

Talvez pela força dessa “paixão” muito conteúdo tem surgido para mim, seja em forma de postagem ou citações em artigos. Dessa maneira, muito despretensiosamente conheci o trabalho de Diane Arbus e fiquei me perguntando como vivi tanto tempo sem conhecê-la. Caso você também não a conheça, segue comigo e se impressione com essa contraditória e brilhante fotógrafa.

Prazer, Diane

Descrição: Imagem em preto e branco de Diane segurando uma câmera na altura do peito. Ela é branca, possui cabelo curto e está usando uma camisa de botões e uma bolsa pendurada no braço esquerdo. Ao fundo, vemos imagem de uma praça com pessoas.

Diane Arbus nasceu no dia 14 de março de 1923 em Nova Iorque, foi uma fotógrafa e escritora norte-americana. No início da sua carreira, ao lado do marido, trabalhou em uma agência para diversas edições de revistas de moda na época, entretanto cansou-se deste estilo e buscou produzir algo mais autoral.

Buscou no cotidiano de pessoas marginalizadas sua maior inspiração, através de fotografias em preto-e-branco carregadas de dramaticidade provocada pelos jogos de sombras trouxe estética e beleza ao estranho, tornando-se pioneira do estilo e conhecida como “fotógrafa de aberrações” fazendo popularizar o termo freak usado para representar pessoas esquisitas, fora do que chamamos de corponormatividade.

Infelizmente, apesar do seu brilhantismo profissional, era uma pessoa presa em seus demônios e viveu com depressão durante muitos anos. Em 1971, após sucessivas crises, Arbus suicidou-se. Após sua morte, sua filha cuidou de toda sua obra, lançando coletâneas com imagens conhecidas e algumas inéditas. Isso permitiu que todo seu trabalho popularizasse alcançando novos públicos, o que permitiu se tornar a primeira norte-americana a expor na Bienal de Veneza.

O mundo freak de Diane

Há um boato em que Diane teria confessado a um amigo seu desejo de não ser reconhecida apenas como uma fotógrafa de aberrações. Apesar deste termo ser utilizado para representar sua obra, o considero limitante, pois em suas imagens não há o estranho, mas o real. Havia um esforço em captar a essência dos seus modelos, fazendo-a emergir em seus mundos profundamente, participando de suas vidas, de suas realidades cotidianas.

Buscava um grau de entrosamento com aquelas pessoas, de tal modo que a permitia alcançar o momento exato em que elas passassem a agir de forma livre. Algo que ela chamava de “lacuna entre intenção e efeito”, segundo artigo de Emy Kuramoto:

(…) damos um sinal ao mundo para que pensem em nós de uma certa maneira, mas há um ponto entre o que você quer que as pessoas saibam de você e o que você não pode evitar que elas saibam a seu respeito. E isso tem a ver com o que eu sempre chamei de lacuna entre intenção e efeito. (PHILLIPS, 2003, p. 57, tradução livre da autora)

Essa liberdade permitia também a criação de subjetividades, imagens que beiram o grotesco e o bizarro ou carregam um sentido místico em sua composição. A ausência da simetria ou seu excesso trazem desconforto aos olhos, ao mesmo tempo em que nos hipnotiza. Um dos maiores exemplos é a foto Identical Twins, Roselle, N.J. 1967, capa de uma coletânea publicada após sua morte. A imagem serviu de inspiração para Stanley Kubrick criar as sinistras gêmeas Grady, no filme O Iluminado (1980), e a famosa cena em que elas aparecem assustadoramente.

Descrição: Duas meninas gêmeas idênticas com vestido preto de gola branca, arquinho branco na cabeça. No fundo, uma parede branca com o piso escuro.

Diane registrou travestis, anões, pessoas com deficiência sempre de maneira íntima, como se fosse uma personagem presente ali na cena, apesar de não aparecer nas imagens. Os olhares fixos na câmera nos convida a olhar para aqueles corpos tão diferentes daqueles que encontramos na mídia, certamente opostos dos manequins de moda que a própria fotografou no início de sua carreira. Entretanto, o curioso e, para mim um dos pontos mais belos de sua obra, é universalizar o freak que há em todos nós.

Buscou não a simetria comum nos ensaios, mas aquele momento em que deixamos escapar a lacuna a qual ela se referiu. Nos mostra como somos estranhos, desconfigurados em nosso dia a dia. É aquele olhar que não busca enaltecer a realidade, mas representá-la em sua totalidade.

Descrição da imagem: Travesti se preparando para apresentar. Ela está sem camisa, não possui seios, seu cabelo está curto e as sobrancelhas desenhadas com maquiagem. Ao fundo o camarim com luzes, espelho e roupas penduradas.

A estética no marginal

Os anos 60 foram importantes para a comunidade LGBT. Caçados pela polícia de Nova Iorque, na época seguindo uma política higienista de limpar a cidade dos “indesejáveis”, organizaram como movimento e iniciaram as primeiras manifestações pela causa. Todo esse período foi marcado por uma profunda revolução social e sexual no Ocidente, levando a criação de culturas para todo grupo que se considerava marginal, entre eles as pessoas com deficiência.

Descrição: Menina com síndrome de Down usando um maiô com as alças pendentes. Com a mão esquerda ela tenta arrumá-lo. No seu cabelo está uma touca de natação.

Acredito que influenciada por esse ambiente, Diane viu uma oportunidade de retratar estas pessoas que buscavam sair da invisibilidade imposta pelas normatividades sociais em todo seu espectro sexual, racial e corporal. Para o mundo ela retratava a margem, o freak, monstros escondidos e apresentados como algo fantástico, bizarro, entretanto quando vemos suas fotografias encontramos ali pessoas não muito diferentes de todos nós. Ora brincando com seus corpos, fazendo caretas, poses, ora registradas em atitudes consideradas normais.

Para nós, freaks, a fotógrafa foi um respiro. O início de uma oportunidade em nos mostrar e dominar o modo de retratar nossos corpos, uma vez que dentro dos padrões eles já foram considerados incapazes, uma representação daquilo que não deve ser representado. Me atrevo a dizer que Diane Arbus deu o pontapé para todo esse processo de representatividade que tanto buscamos e lutamos atualmente, por esse motivo me vi inspirada a escrever estas linhas sobre seu trabalho.

Com suas fotos percebi que seu mundo freak há tanta realidade, que já não incomoda receber este termo. Neste mundo há muito de mim, de você que me lê, pois a verdade é que por trás de formas disformes há aquela essência que todos possuímos. Por dentro, no final das contas, todo normal é freak

 

Referências para produção deste texto:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Diane_Arbus

http://www.webradioepocas.com.br/2014/08/a-libertacao-gay-nos-anos-60-e-70-era-o.html

https://www.jmcohen.com/artist/Diane_Arbus/biography/

KURAMOTO, Emy. A representação disruptiva de Diane Arbus; do documental ao alegórico. 2006. 184f. Dissertação de Mestrado, UNICAMP, Campinas, 2006.

 Imagens: Google

Será que sou eu?

Começa com uma ideia nova, um frescor de inspiração depois de um longo período sem produzir nada. A novidade nos revigora, dá ânimo para traçar novos planos, sonhar com possibilidades de mudar algo em nossas vidas. Ainda que seja pouca coisa como testar uma nova receita de molho ou mais significativo como mudar de emprego, quando estamos com intenção de buscar novos rumos tudo parece conspirar a favor.

É como se o universo dissesse “vai e arrasa”.

Gif da Beyoncé. Seu rosto é mostrado de cima com uma expressão serena, é possível ver seus cabelos trançados balançando e seus braços abertos. Ela usa um casaco de pele e abaixo está escrito “I slay” (uma gíria que significaria “eu arraso”).

A voz que tudo muda

Quando tudo parece dar certo, surge uma voz com a pergunta mais fatal do universo: será que você dá conta?

Gif de um boneco vermelho balançando os braços como se não soubesse o que fazer

É impressionante a força destruidora da dúvida. Podemos estar certos do que buscamos, mas se por algum motivo duvidarmos disso tudo começa a esvair como um castelo de areia quando recebe o toque das ondas do mar. O projeto é interrompido antes mesmo de ser colocado em prática. Inventamos desculpas para justificar e confirmar os falsos julgamentos. É a síndrome do impostor se fazendo presente em nossas vidas.

Somos todos impostores?

Emma Watson, atriz que fez Hermione em Harry Potter, declarou em uma entrevista à revista Rookie: “Parece que quanto melhor eu me saio, maior é o meu sentimento de inadequação, porque penso que em algum momento, alguém vai descobrir que eu sou uma fraude e que eu não mereço nada do que conquistei”. Esse sensação de ser uma farsa é muito comum, principalmente em mulheres de acordo com um estudo realizado pela psicóloga Gail Matthews, da Universidade Dominicana da Califórnia, nos Estados Unidos, que afirma que esta síndrome atinge em menor ou maior grau 70% dos profissionais bem-sucedidos.

É possível que algumas pessoas com deficiência desenvolvam a síndrome do impostor por acreditarem ser incapazes de desempenhar esta ou tal tarefa por causa de sua deficiência. É claro que precisamos criar adaptações para fazer algumas coisas, porém não há motivo para deixá-las inacabadas. Às vezes não será possível fazer um curso em um espaço por falta de acessibilidade, porém há condições de fazê-lo online, por exemplo. Em alguns casos, deixamos até mesmo de sair de casa para conhecer pessoas por medo do julgamento, ainda que tenhamos certeza do quão interessante nós somos.

Claro que tal síndrome não é exclusividade nossa, tampouco gira somente em torno dos atributos físicos. Geralmente a síndrome está relacionada a algum sentimento de incapacidade, inferioridade que alimentamos há muito tempo. Existem pessoas tímidas demais que se julgam incapazes de realizar algo por medo de exposição, outras pessoas desistem de um emprego por não acreditar ser inteligente o suficiente para o cargo mesmo tendo todas as qualificações para tal. Cada um direciona seu impostor para suas crenças limitantes.

Eu sou uma pessoa que constantemente deixa projetos inacabados, tenho facilidade em elaborar novas ideias, porém não consigo dar prosseguimento nelas. Essa incapacidade me deixa sempre chateada e quando percebo começo a acreditar que realmente não conseguirei sucesso naquilo que busco. Como sou ansiosa, inicio um círculo vicioso de pensamentos ruins centrados em uma única crença de incapacidade construída ao longo dos anos.

Como lidar com isso?

O Buzz Feed fez uma lista muito boa com 17 dicas bem úteis para lidar com isso, você pode vê-la aqui. Pessoalmente, após fazer terapia resolvi tomar algumas atitudes para amenizar minha síndrome:

1 – Fazer um check list: antes de começar minhas atividades, gosto de anotar tudo para ao longo do dia ir conferindo se consegui realizá-las. Dá uma sensação boa ver que ao final do dia fiz a lista toda ou boa parte dela.

2 – Entender o tempo: algumas coisas vão demorar para serem realizadas, mas não quer dizer que estejam paradas. Para evitar a procrastinação o item 1 ajuda bastante.

3 – Se conhecer: não é apenas saber seu nome, mas saber de suas qualidades reais. Observar suas conquistas, sua história e aprender a se valorizar por isso. Se conhecer ajuda no enfrentamento das dúvidas que eventualmente podem aparecer.

4 – Guarde suas conquistas: Uma foto, um email com cliente aprovando e elogiando seu trabalho, seja o que for crie um espaço para te fazer lembrar das suas conquistas quando você duvidar delas.

5 – Não tenha medo de errar: Muitas vezes deixamos de fazer as coisas por medo do erro, medo de sermos vistos como “burros”, porém é importante entender o valor do erro como oportunidade de aprendizado. Sei que vivemos em uma sociedade onde os acertos são celebrados, mas é preciso sair fora do esquema social para não ser refém dele.

6 – Minha deficiência não é algo ruim: Por fim, aceitar a deficiência é FUNDAMENTAL. Não somos incapazes, não somos piores por termos deficiência, portanto não podemos permitir sermos julgados por ela, tampouco nos diminuirmos também.

A síndrome do impostor pode aparecer em sua vida, mas cabe a você acreditar nela ou não. Muitas vezes fazemos as coisas com medo mesmo e ao final descobrimos sermos capazes de ir muito além do que esperávamos. Portanto, não pare. Respira fundo e mantenha a caminhada.

 

Gif de uma mulher de cabelos pretos usando óculos escuro, regata azul com os braços erguidos em posição de força. No fundo azul claro caem pétalas rosa que mudam de cor para o azul.

P.S.: Para fazer este texto eu levei três semanas e fiquei me questionando se deveria fazer mesmo ou não. Mas fiz e espero que gostem dele, assim como gostei de fazer. 😉
Sugestão de leitura e fonte: http://www.huffpostbrasil.com/2014/04/07/7-sinais-de-que-voce-e-uma-das-vitimas-da-sindrome-do-impostor_a_21667908/

Queridas Paralimpíadas, obrigada pelo empoderamento

*Por Ieska Tubaldini Labão

Eu nunca tinha assistido a mais do que cinco minutos seguidos de qualquer (qualquer) modalidade Paralímpica. Considerando o quanto eu assisto a esportes o tempo inteiro, essa é uma coisa que me causa bastante vergonha, apesar de, hoje, eu ter consciência de que a evolução (da trajetória de vida, da maturidade, da libertação, do empoderamento) é um processo que a gente não pode apressar.

O meu contato com esportes para pessoas com deficiência se limitava a algumas imagens do basquete em cadeira de rodas durante a vida e algumas provas do Clodoaldo Silva no último Pan. Repito, nunca mais do que cinco minutos. Era tudo o que meu teto de vidro aguentava antes de quebrar e me causar um incômodo enorme.

Crescendo como alguém que nunca gostou de reclamar das coisas, eu escutei durante a vida toda que era admirável como eu era bem resolvida como a minha deficiência – além, é claro, das incontáveis vezes que eu escutei a tal da palavra “superação” -, mas a verdade é que eu não era bem resolvida coisa nenhuma; eu ignorava a minha deficiência e ponto.

Do ano passado pra cá, eu me coloquei em um processo comigo mesma que, além de muitas outras coisas, proporcionou que eu me permitisse tentar assistir aos Jogos Paralímpicos do Rio com o coração mais aberto e menos carregado de pré-julgamentos como “vai ser chato”, “eu não vou gostar”, “eu não vou me sentir representada”.

Do dia da abertura para o dia do encerramento, eu perdi a conta de quantos mais-do-que-cinco-minutos de jogos paralímpicos eu assisti. Na verdade, eu ligava a televisão logo ao acordar e só desligava ao fim da última competição do dia. Na primeira semana tentei desligar enquanto trabalhava, mas ficava tão ansiosa com isso que não conseguia trabalhar coisa nenhuma. A partir daí, mantive a televisão ligada e consegui acompanhar os jogos e trabalhar com a maior tranquilidade e alegria do universo.

Cadeiras do basquete paralímpico são adaptadas e padronizadas (Foto: Daniel Zappe/MPIX/CPB)
Cadeiras do basquete paralímpico são adaptadas e padronizadas (Foto: Daniel Zappe/MPIX/CPB)

Nesses onze dias, eu assisti a todos os jogos de basquete que foram transmitidos, tive um dia maravilhoso só por ter dado de cara com uma sessão de esgrima logo ao acordar, fiz minha mãe sair correndo pela casa algumas vezes só pra vir ver QUE LEGAL QUE É ESSA MODALIDADE MÃE OLHA ISSO, fiquei maravilhada com o tanto de medalhas que o Brasil ganhava o tempo todo, gritei muito, torci demais, me empoderei mais ainda.

Opa. Pera. O que empoderamento tem a ver com isso?

Tem a ver que, enquanto eu me apaixonava perdidamente por todas aquelas modalidades, me admirava demais com a habilidade (que me falta) daquelas pessoas fazendo manobras fantásticas com as suas cadeiras esportivas, ganhava cinco ou seis crushes novas por dia e só não enviava uma quantidade enorme de e-mails ao Daniel Dias pedindo-o em casamento todos os dias porque descobri a tempo que ele já é casado, eu percebi que era hora de admitir que eu sempre fui muito capacitista e que, olha, aquilo estava acabando ali, naqueles onze dias.

Depois de campanha com ator global amputado pelo Photoshop e ver algumas das próprias pessoas com deficiência defendendo o episódio, os jogos chegaram para mim com um balde de representatividade. Não me importava que aquelas cadeiras eram diferentes da minha e que aquelas pessoas pareciam muito maiores e mais fortes que eu. Me importava que elas, como eu, amam o esporte e a ele dedicam muito de suas vidas, ainda que elas como praticantes e eu como espectadora. Me importava que elas eram atletas e eu sempre, sempre amei, admirei e respeitei muito pessoas atletas. Me importava que elas, como eu, pareciam (e demonstravam) não suportarem escutar sobre superação e, também como eu, sabiam e deixavam claro que isso é uma enorme bobagem; todo mundo no mundo passa por processos de superação todos os dias, não coloquem esse rótulo em nós, como se nosso “fardo” fosse pesado demais pra carregar. Não existe fardo. Existe estar vivo e só… Viver. Da melhor forma que for possível. Igual todo mundo.

No Twitter surgiu que um comentarista disse que “a cadeira parece parte do corpo da pessoa” durante uma das transmissões e alguém respondeu que “a cadeira É parte do corpo da pessoa!” e eu sou capaz de jurar pelos meus dois cachorros (que me tratam diariamente como se eu fosse a Mulher Maravilha e, portanto, são enormes responsáveis pela minha construção de uma boa autoestima) que em todos os meus dias desde então eu senti mais e mais como se minha cadeira fosse mesmo parte de mim, fazendo não só com que eu reclame menos dela, como que eu também pare de me sentir diminuída por ela. Não é que eu nunca tivesse pensado nisso, é só que, quando você vê alguém dizendo isso e muitas centenas pessoas concordando, tudo fica muito mais crível e possível. E talvez seja exatamente sobre isso que a representatividade seja, não?

Eu encerro meus onze dias de maratona paralímpica com uma porção de ideias sobre coisas que eu gostaria que tivessem sido diferentes e outro tanto de receios sobre quanto esses jogos realmente vão repercutir de agora em diante e deixar um legado positivo às pessoas com deficiência – atletas ou não -, mas eu também me despeço com a sensação de que o legado dentro de mim foi enorme. A vontade de acompanhar esses esportes de perto, incentiva-los da mesma forma que eu sempre incentivei todos os esportes, e continuar dando o melhor de mim em todos os dias da minha vida (já que agora, mais do que nunca, meus ídolos são pessoas com as quais eu consigo me identificar e, se eles fazem tudo aquilo da vida deles, eu quero e eu posso fazer também), já é um dos maiores presentes que eu ganhei da vida, na vida. E imaginar que isso também pode ter acontecido com muitas outras pessoas só deixa tudo ainda melhor.

Por isso, Jogos Paralímpicos do Rio, muito, muito obrigada. Nos vemos de novo em quatro anos mais empoderados do que nunca.

*Ieska é uma das autoras do blog “Medusas” e gentilmente se ofereceu para escrever sobre os jogos no Disbuga. Querida, o espaço está a disposição SEMPRE!