Deficiência e feminismo: uma conversa necessária! Parte – 1

Já falamos aqui sobre a necessidade de pautas anticapacitistas nas discussões feministas, para visibilizar a vida de diversas mulheres com deficiência que também é impacta pelas opressões do patriarcado. Como bem reforça a autora Rosemarie Garland Thomson, a forma que a sociedade encara a deficiência está relacionada com o contexto e a cultura em que vivemos. Por isso, sempre dizemos que existem modos específicos para pensar e discutir questões que afetam a vivência de uma pessoa com deficiência.

O modelo biomédico, por exemplo, entende a deficiência só como uma lesão, impedimentos físicos, sensoriais e intelectuais: é o resultado de uma disfunção de em alguma parte do corpo. Assim, a deficiência é analisada como incapacidade: precisa ser “consertada” com intervenções médicas para que a pessoa com deficiência alcance a “normalidade”. [1]

Ou seja, esse modelo biomédico desconsidera todo o contexto social da pessoa com deficiência, focando exclusivamente na biologia e no corpo. Porém, quando observamos as barreiras arquitetônicas, de transporte, comunicacionais e reprodução de atitudes capacitistas (preconceito contra pessoas com deficiência) vemos como esses contextos sociais são responsáveis por dificultar a inserção das pessoas com deficiência na sociedade.[2]

Ilustração em preto e branco de várias mulheres, com diferentes tipos de deficiência atravessando ruas e direções diversas.
Fonte: Feminism in India

Feminismo e deficiência: uma relação necessária!

Assim, “nasceu” o modelo social. Com a proposta de considerar o contexto social e psicológico da pessoa com deficiência, esse modelo foi assimilando novas ideias a partir dos estudos da deficiência e feministas. 

Entretanto, como a experiência de ser uma mulher com deficiência que, ora desempenha o papel de cuidadora, ora de mãe, é única as pesquisas feministas envolviam temas que relacionavam a deficiência com gênero, dependência, interdependência, cuidados e dor provocadas por lesões. [3]

Sempre reforço em minhas falas que ao falarmos de deficiência é preciso pensar em DEFICIÊNCIAS. Ou seja, existem diferentes tipos de experiências que nos diferenciam, ainda que sejamos afetados pelos mesmos obstáculos sociais. Mesmo se todas as barreiras físicas, culturais e sociais fossem eliminadas, nem todos poderiam usufruir de plena autonomia e independência.

Conquistas já alcançadas!


O modelo social permitiu avanços legais que transformaram a vida das pessoas com deficiência, mas essa conversa vai ficar para o próximo texto. Ok? 😉


*Colaboração de Felipe Gruetzmacher

Nascido em 02/12/1988, é um eterno idealista. Acredita no potencial transformador da literatura. É um otimista nato, gosta de apoiar pessoas e é um romântico incorrigível. Por conta desse amor pelas letras, virou um copywriter: um especialista em comunicação, persuasão e marketing.


Referências: GESSER, Marivete; GOMES, Ruthie Bonan; LOPES, Marivete; TONELI, Maria Juracy Filgueiras. Novos diálogos dos estudos feministas da deficiência. Scielo, 2019. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ref/a/c7sJxYbSppg9kQMNvwvN6fh/?lang=pt . Acesso 22 de julho de 2022.

[1] (Débora DINIZ, 2007; Marivete GESSER; Adriano NUERNBERG; Maria Juraci TONELI, 2012).

[2](Sueli DIAS; Maria OLIVEIRA, 2013)

[3](DINIZ, 2007).


O que as empresas precisam saber sobre embalagens acessíveis

A agência Wunderman Thompson lançou um relatório chamado “The Future 100: Tendências e Mudanças para observar em 2022” apontando o que podemos esperar para os próximos anos. 

Para minha surpresa, (e eu acho que para sua também!), a agência destaca que o uso de embalagens inclusivas será uma realidade cada vez mais exigida pelo público. 

Por mais que algumas empresas estejam preocupadas em promover a diversidade em sua comunicação, não podemos dizer o mesmo quando o assunto é acessibilidade. Não estou falando só de adaptações arquitetônicas, como rampas e elevadores, mas sim de mudanças de comportamento das marcas em relação às pessoas com deficiência. 

Existem diversas maneiras de tornar os produtos e suas embalagens mais acessíveis para o público. Ao aplicar um dos princípios do Design Universal, a Kellogs, por exemplo, disponibilizou uma linha dos seus cereais com braille nas caixas.

A Microsoft também inovou nesse quesito, ao convidar gamers com deficiência para ajudar a montar uma embalagem acessível para o XBox adaptado. Não faz sentido criar um produto para esse público, para entregá-lo em uma caixa difícil de abrir, não é?

O mesmo vale para outros segmentos, como produtos de beleza, higiene pessoal ou de alimentos. Oferecer produtos fáceis de manusear vai favorecer tanto as pessoas com deficiência, quanto aqueles com mobilidade reduzida. 

Ronald Mace. Descrição: Foto em preto e branco de um homem branco com barba, óculos e cabelo liso curto sentado em uma cadeira de rodas. Ele está sorrindo em direção à câmera. Ele usa um terno com gravata de bolinhas. No fundo dá para ver algumas árvores embaçadas.
Ronald Mace. Descrição: Foto em preto e branco de um homem branco com barba, óculos e cabelo liso curto sentado em uma cadeira de rodas. Ele está sorrindo em direção à câmera. Ele usa um terno com gravata de bolinhas. No fundo dá para ver algumas árvores embaçadas.

Em meados de 1985, o arquiteto Ronald Mace desenvolve o conceito de Design Universal. Ele defende que ambientes acessíveis são aqueles aptos a receber pessoas independentemente de suas idades, estaturas, habilidades, condições sensoriais ou físicas. Mais tarde, esse conceito foi aplicado em produtos, equipamentos e serviços. Em 1997, o Centro de Design da Universidade da Carolina do Norte definiu 7 princípios do Design Universal:

  1. Uso equitativo;
  2. uso flexível;
  3. uso simples e intuitivo;
  4. informação perceptível;
  5. tolerância a erros;
  6. baixo esforço físico;
  7. tamanho e espaço para aproximação e uso.

Não basta só chamar pessoas com deficiência para fazer publi. Tem que mudar a cultura da marca para que realmente seja inclusiva para todes. Imagina que incrível se marcar como a Avon, Natura ou Nivea tivessem o nome dos produtos em braille. Não seria demais?


Fontes:

The Future 100: Trends and Change to Watch in 2022. https://www.wundermanthompson.com/insight/the-future-100-2022. Acesso em 04 de abril de 2022.

What Every Brand Needs to Know About Adaptive Packaging. https://www.shutterstock.com/blog/adaptive-packaging-for-brands. Acesso em 04 de abril de 2022.

GOMES, Danila; QUARESMA, Manuela. Introdução ao design inclusivo. 1. ed.- Curitiba: Appris, 2018.

Na imagem tem uma porta a direita adesivada com ícone de cadeirante. Ao centro em azul a frase Ir ao banheiro pode virar um gatilho emocional. No rodapé, a marca do blog. Fim da descrição.

Ir ao banheiro pode virar um gatilho emocional

O sol brilhava naquele azul sem nuvens. Podia ser o início de uma história de verão, mas era o começo do outono e a promessa de um frio mais intenso do que os outros. Antigamente eu gostava dessas mudanças de estações, mas a gente cresce, o corpo se torna mais sensível com a falta de um ar mais respirável e aprende que nem todo mundo tem um cobertor para chamar de seu.

Você deve ter notado o tom mais “poético” do início do texto. É para compensar a falta de criatividade com o título. Ficou ruim, bem sei, mas acredito que o texto vai compensar a leitura.

Nos últimos anos o frio tem sido sinônimo de dores para mim. Quadril, braços, pescoço é uma verdadeira ciranda junina. Olha a dor no quadril! Uuuuuu… É mentira! Aaaaa. Olha a perda muscular! É mentira!

Não. É verdade. Mais uma das verdades esperadas e indesejadas que toda distrofia traz para suas escolhidas (os). Sempre soube das limitações dessa condição, contudo sempre fico pensativa quando acontecem.

Admitir nossas vulnerabilidades é importante, conviver com elas é essencial. Minha atual perda de mobilidade me fez pensar sobre como nossas atividades podem se tornar mais pesadas por causa da ausência de acessibilidade.

Já comentei aqui como a relação de cuidado e dependência é desafiadora para todos. Quando você depende de outra pessoa para realizar grande parte de suas atividades, terá algumas situações complicadas de lidar. Afinal, somos humanos. Temos mau humor, rancor, raiva, cansaço, preguiça. Como também somos divertidos, criativos e dispostos em ajudar. Haverá momentos em que ambos estarão dispostos a cooperar, ou não.

Nessa relação, o estado de vulnerabilidade da pessoa com deficiência sempre a coloca em menor vantagem nessa balança.

Perder a força transformou pequenas atividades cotidianas em gatilhos emocionais pesados para mim, como por exemplo ir ao banheiro na faculdade.

Preciso de ajuda para usar o banheiro, essa é a realidade. Não é uma simples ajuda como abrir uma porta ou segurar uma bolsa. É tudo. É o tipo de coisa que vocês, sem deficiência, costumam pensar “nossa, Deus me livre precisar disso”. Deu para entender, né?

Antigamente, conseguia me virar bem sozinha. Na graduação e na empresa que trabalhei poucas vezes precisei de auxílio. Com o tempo isso foi mudando, é claro, mas como trabalho em minha casa já não sinto mais o peso da falta de acessibilidade dos lugares. Contudo, minha rotina é outra e demanda novas estratégias.

Tentei os meios burocráticos afim de conseguir um auxílio na universidade, uma espécie de “cuidador”, para não precisar de solicitar ajuda de colegas, porém ainda não dispõem deste tipo de atendimento. Apresentaram soluções como não beber muito líquido, fazer lavagem intestinal (sim, uma chuca), evitar alguns alimentos e toda aquela logística básica que conhecemos bem.

Muitas pessoas com deficiência consideram ir ao banheiro uma das situações mais complicadas quando saem de casa.

Se você tem deficiência mais grave, sabe bem o quanto esse momento é constrangedor para nós. Por isso, pode imaginar como um mísero xixi virou uma epopéia em minha vida, que só consegui amenizar com ajuda de três mulheres especiais: minha orientadora, minha irmã e uma amiga do trabalho (que está concluindo o doutorado esse semestre), além de algumas colegas de sala.

Apesar da presença dessas queridas, sei bem que nem sempre elas estarão lá. Outras pessoas nem sempre poderão me ajudar ou estarão dispostas a isso. Os banheiros nem sempre são perto da sala, nem sempre estão limpos. O ciclo segue repetindo.

Certo dia, comentei com colegas de pesquisa o quanto me sinto deslocada na universidade. Percebi com o tempo que não se tratava de uma insegurança com os estudos, porquê não diz respeito ao saber, mas ao existir. É precisar resistir mais do que nos outros dias.

Porque não se trata apenas do ambiente acadêmico ou apenas de ir ao banheiro. Pode ser o trabalho, a mobilidade urbana, o lazer ou relações sociais. É ser colocada em um lugar que não foi pensado em você, que insistem em te encaixar em uma engrenagem feita para formas diferentes da sua. Esse ajuste nos corta, nos molda só para manter a máquina funcionando e o título de inclusão brilhando. Não dá para falar de acessibilidade, sem mencionar essa estrutura que torna a experiência com deficiência mais pesada.

Toda essa história de fazer xixi e não conseguir vestir a própria calcinha, só confirmou o quanto a sensação de opressão piora quando nos tornamos mais dependentes e como isso ameaça nossa compreensão de autonomia. Afinal, não foi isso que os capacitistas quiseram nos ensinar?

Sorte minha sempre fui rebelde. Fugi dessa lição e cá estou trocando essas miudezas com vocês. Se chegou até aqui sabe como são as coisas. Tudo segue seu curso, de alguma maneira.

Em todas estações. Faça chuva. Faça sol.


Edit: Na primeira versão deste texto cometi a falta grave de não mencionar minha orientadora, mas fui alertada desse deslize e editei o texto.

P.S.: Fralda é uma das opções que estou avaliando bem, porque dependendo do tempo de uso seria preciso trocar e isso retoma o problema inicial. Não uso sonda porque minha anatomia não favorece. Enfim, é isso.

Imagem com fundo azul e roxo, na parte superior está a frase-título "Anita Malfatti, corpo e arte em questionamento". Ao lado, a imagem de Anita em preto e branco. Ela é branca, aparenta ter 50 anos e usa uma roupa social. Está com uma expressão serena e sorrindo. No rodapé está a marca do blog. Fim da descrição.

Anita Malfatti, corpo e arte em questionamento

Há tempos venho tentando escrever este texto, mas não encontrava o momento adequado para tal. Esperei pela pausa dos acontecimentos, mas com o (des)governo atual será bem difícil encontrarmos espaços para estabilidades.

Além dessas peripécias políticas, por aqui a coisa girou. O mestrado veio com seus infinitos textos recheados de filosofias e prazos minúsculos, como também ativou antigas lembranças e inquietações. Sempre existe um ponto de nossa história onde nos vemos confrontadas por situações que apesar de já terem sido enfrentadas, nos mostra um novo lado desse eterno construir/desconstruir a ser superado.

Nessa confusão toda encontrei um motivo para escrever. Anita Malfatti apareceu, conversou comigo e trouxe aprendizado. Porém, gostaria de explicar uma coisa sobre a escrita a seguir. É que não pretendo fazer análises críticas da arte de Anita, tampouco contar todos os detalhes de sua história, mas tentar trazer a alma desta artista para perto de você e, talvez, inspirar seu modo de ver e viver.

A história e os pincéis de Anita

Foto em preto e branco de Anita Malfatti sorrindo. Ela é branca, aparenta ter 50 anos, está com os cabelos presos em coque, usa colar de pérolas, um blazer branco fechado e um brinco de pedra. Sua expressão é serena e ela olha direto para câmera.
#PraTodosVerem Foto em preto e branco de Anita Malfatti sorrindo. Ela é branca, aparenta ter 50 anos, está com os cabelos presos em coque, usa colar de pérolas, um blazer branco fechado e um brinco de pedra. Sua expressão é serena e ela olha direto para câmera. Fim da descrição.

Anita Malfatti (1889-1964), essa senhora fofa na imagem, foi uma das artistas que fizeram parte da Semana de Arte Moderna em 1922. Sua mostra é considerada um marco para a renovação das artes plásticas no Brasil.

Nasceu em São Paulo, no dia 2 de dezembro de 1889. Filha de Samuel Malfatti, engenheiro italiano e de Betty Krug, descendente de alemães e de nacionalidade norte-americana. Era a segunda filha do casal, porém a única que nasceu com uma atrofia no braço e na mão direita.

Sim, isso mesmo que você acabou de ler: Anita Malfatti era uma mulher com deficiência!

Faço questão de destacar essa característica da artista para guardarmos sua existência como uma referência. Infelizmente, não temos muitos registros de pessoas com deficiência que se destacam na história, por isso cada descoberta como essa merece ser evidenciada.

Acredito que esteja surpresa (o) ao descobrir esse fato. É, eu também fiquei. Mas resolvi falar da artista por outros motivos, como mencionei antes. Não farei um artigo sobre sua vida e obra, deixarei alguns links ao final deste texto para quem se interessar. Destacarei dois momentos de sua história onde me vi tocada de alguma maneira.

O primeiro deles ocorreu quando Anita perdeu o pai muito nova, iniciando uma fase de muitas dificuldades para a família, levando sua mãe a dar aulas de pintura e idiomas para sustentar os filhos. A artista, nessa fase com 13 anos, se viu sem propósito e acreditou na morte como a melhor forma de resolver seus dilemas.

Caminhou até a linha do trem e se deitou debaixo dos dormentes. Ali encontrou o que precisava, não a morte, mas o despertar:


“[…] Nada ainda me revelara o fundo da minha sensibilidade. Resolvi, então, me submeter a uma estranha experiência: sofrer a sensação absorvente da morte. […] Um dia saí de casa, amarrei fortemente as minhas tranças de menina, deitei-me debaixo dos dormentes e esperei o trem passar por cima de mim. Foi uma coisa horrível, indescritível. O barulho ensurdecedor, a deslocação de ar, a temperatura asfixiante deram-me uma impressão de delírio e de loucura. E eu via cores, cores e cores riscando o espaço, cores que eu desejaria fixar para sempre na retina assombrada. Foi a revelação: voltei decidida a me dedicar à pintura.

Anita Malfatti


Uma pedra chamada Lobato

Já o segundo momento e mais conhecido ocorreu quando a pintora participou da Semana de Arte Moderna de 1922, e integrou, ao lado de Tarsila, Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti De Picchia, o Grupo dos Cinco. Durante toda a semana, de 13 a 18 de fevereiro de 1922, o saguão do Teatro Municipal de São Paulo esteve aberto com obras de Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Vicente do Rego Monteiro, Harberg Brecheret, entre outros.

Da esquerda para a direita: Patrícia Galvão (Pagu), Anita Malfatti, Benjamin Peret, 
Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Elsie Houston, Álvaro Moreyra, Eugênia Moreira 
e Maximilien Gauthier – foto: Estação Central do Brasil – durante a exposição de Tarsila do 
Amaral no Rio de Janeiro, em 1929

A mostra foi recebida com espanto e curiosidade, com grande visitação Anita chegou a vender oito quadros. Entretanto, Monteiro Lobato escreveu uma crítica com o título “A propósito da exposição Malfatti”, porém mais conhecida como “Paranoia ou mistificação?”, onde expressou de forma negativa suas considerações sobre as pinturas.

Imagem da pintura de Anita onde retrata uma mulher sentada olhando para o alto. Há predominância das cores amarela, laranja e alguns tons de verde.
A boba. 1915-16. Óleo s. tela (61×50,5). Col. Museu de Arte Contemporânea da USP, SP. #PraTodosVerem Imagem da pintura de Anita onde retrata uma mulher sentada olhando para o alto. Há predominância das cores amarela, laranja e alguns tons de verde. Fim da descrição.

Após a crítica, muitas pessoas reagiram contra a artista. Todos os quadros vendidos foram devolvidos e ela iniciou uma fase de grande ostracismo.


“Depois da exposição Anita se retirou. Foi para casa e desapareceu, ferida. Mulher que sofre, diria depois Mário de Andrade. […] Depois da exposição, da agressão às telas, da devolução dos quadros – e enquanto os futuros modernistas se atualizavam para depois eclodir com força – a pintora, cercada de uma aura de ‘maldita’, viu sua obra ser silenciada. Ela confessaria mais tarde: ‘Então começou o peso do ostracismo. Todo o meu trabalho ficou cortado – alunas, vendas de quadros, e começaram as brigas nos jornais’. Anita Malfatti conhecia agora toda a extensão do fosso que separava as suas obras das acadêmicas locais, […] violara com elas praticamente todos os padrões da arte acadêmica, e ainda alguns sociais”.

Marta Rossetti Batista
BATISTA, Marta Rossetti. Anita Malfatti e o início da arte moderna no Brasil: vida e obra. São Paulo, 1980. Dissertação (Mestrado) – Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – ECA/USP. v. 1. p.196


Corpo e arte em questionamento

Comecei meu mestrado em Comunicação este ano, após um bom intervalo dos estudos acadêmicos. Neste período fora da faculdade, me dediquei ao trabalho, blog e mantendo os boletos e séries em dia.

Estando a maior parte do tempo em casa ou com amigos quando saía fui me habituando a uma zona confortável onde não experimentava a deficiência provocada a falta de acessibilidade nos espaços. Apesar do meu corpo já não “funcionar” como antes por causa do avanço de minha distrofia, ainda assim me sentia funcional com minhas atividades, uma vez que o ambiente era projetado para mim.

Entretanto, quando iniciei meus estudos na UFMG algo mudou. Infelizmente devida a falta de investimento do governo em educação, o repasse de verbas para as universidades federais fica comprometido. A maioria não tem condições de realizar mudanças em suas estruturas, desse modo tentam “aprimorar” o já existente com adaptações possíveis.

Lidar com esta realidade me fez reviver antigos dilemas pessoais. O corpo agora já não é mais o mesmo, portanto minha experiência com o ambiente mudou. Aquela liberdade, ainda que pequena, agora precisa ser acompanhada. Se antes conseguia organizar minhas coisas ou ir ao banheiro sozinha, agora é necessário pedir para alguém fazer isso.

Anita voltou a pintar tempos depois do episódio com Monteiro Lobato, há relatos de que chegou a ilustrar algumas obras do autor apesar da mágoa pelo que aconteceu. De alguma maneira encontrou uma forma de lidar com aquilo, continuou sua arte apesar de continuar sendo incompreendida por todos, inclusive pelo melhor amigo Mario de Andrade.

Enfrentou o preço de ser fiel a si, apesar de tudo. Foi uma das maiores artistas do país, ao mesmo tempo foi fragilizada pela dureza do seu tempo. Foi nessa força que me conectei com sua história.

Algumas pessoas acreditam que nascer com a deficiência traz mais facilidades no processo de aceitação. Seria mais fácil “superar” algo se tem mais tempo para conviver com aquilo. Entretanto, não somos todos eternos aprendizes na vida? Não temos que confrontar-nos todos os dias com questões antigas e insuperadas? Quem seria completo, afinal?

As obras da artista não eram compreendidas pela sociedade porque estavam em outro tempo. O problema não eram suas cores e pinceladas marcantes, seu modo de ver o mundo e representá-lo. Da mesma forma, muitas vezes não nos sentimos pertencentes a um lugar porque ele ainda não está preparado para nós.

Talvez eu não me sinta confortável na UFMG pela falta de acessibilidade no lugar ou quem sabe minhas agruras pessoais em lidar com este novo corpo. De toda forma resolvi abraçar essa vulnerabilidade, não preciso ser uma miss superação que dá conta de tudo na vida.

Acredito na força destes momentos de fragilidade porque neles sempre surge uma oportunidade de entender novos sentidos para nossas vidas. Não precisamos nos prender em um trilho para ver novas cores, mas podemos buscar inspirações nas pequenas coisas do cotidiano. Com o tempo tudo se encaixa ao lugar novamente. ❤


Fontes informações/imagens:

http://www.elfikurten.com.br/2013/05/anita-malfatti-precursora-do-movimento.html

https://cultura.estadao.com.br/noticias/artes,anita-malfatti-100-anos-de-polemica-com-monteiro-lobato,70002125682

https://www.ebiografia.com/anita_malfatti/

https://www.escritoriodearte.com/artista/anita-malfatti

https://www.recantodasletras.com.br/biografias/4769991

Imagem com fundo avermelhado com uma ilustração de uma pessoa andando de bengala em frente a um painel com várias ilustrações de pessoas com deficiência. No meio a frase em branco "Um olhar sobre a deficiência" e no rodapé, também em branco, o logo do blog.

Um olhar sobre a deficiência

Por Amanda Gondim

Oi pra você que está lendo esse texto com seus olhos, espero que seja interessante porque confesso que por conta da minha baixa visão eu levei um tempo maior do que geralmente levaria.

Foto de Amanda estilo selfie. Ela tem cabelos castanhos um pouco ondulados, está com um sorriso delicado. Está usando uma blusa preta e o fundo da imagem sugere que ela está sentada em um banco acolchoado cinza.
#pratodosverem Foto de Amanda estilo selfie. Ela tem cabelos castanhos um pouco ondulados, está com um sorriso delicado. Está usando uma blusa preta e o fundo da imagem sugere que ela está sentada em um banco acolchoado cinza. Fim da descrição.

Bom, eu sou Amanda, mas pessoas me conhecem mais como Gondim. Sou advogada em Direito de mulheres, lgbtqs, a minha causa são os direitos humanos, uma forma de ressignificar o direito na minha vida e viver com um propósito, porém mais recentemente as pessoas com deficiência passaram a estar inseridas na minha percepção de mundo e ser humano.

Pra que isso ocorresse precisei ir além do convívio com essas pessoas durante a vida toda. Precisei viver essa realidade, esse mundo diverso do que fui condicionada a tentar me encaixar nas ilusórias construções sociais de padrões inalcançáveis.

A minha diabetes tipo 1, que caminha comigo desde a infância ativou em mim uma retinopatia diabética proliferativa e então vivo esse processo de perda gradativa da visão desde o ano de 2015 e de lá pra cá me vejo em um mundo diferente e que talvez, se eu não vivenciasse, não reconheceria sua existência. A baixa visão me trouxe uma nova perspectiva sobre a sociedade e como não somos educados para conviver e reconhecer as particularidades dos indivíduos.

Mesmo sendo mulher, advogada em direito de mulheres, lgbts, e ser portadora de diabetes tipo 1, já vivi em meu cotidiano e enfrentei na área profissional e pessoal, situações desumanas e desesperadoras, mas me deparo com esse novo mundo de pessoas que sempre estiveram aí e são invisíveis à sociedade e condicionadas em um capacitismo horrível que remove delas suas particularidades, potencialidades e vontades tornando algumas tentativas de inclusão, uma verdadeira hipocrisia que só nos mostra que a perda dessa habilidade sensorial não é uma tragédia particular e sim social.

Partindo disso, quero mostrar a realidade e o processo de uma pessoa comum em seus enfrentamentos com a baixa visão, e no meu caso, a questão do direito e dos grupos vulneráveis e trazer a informação e desconstrução dos preconceitos sobre as pessoas com baixa visão e as diferentes perspectivas que enriquecem a experiência humana.

Quero deixar uma mensagem positiva à todxs que assim como eu vivenciam situações e experiências sob um olhar ressignificativo. E que ressignificar nossa vida é uma oportunidade incrível. Além de promover a desconstrução desse papel de vítima ou de super-herói que em alguns momentos acabam sendo colocados nas pessoas com deficiência.

Desejo mostrar a realidade desse processo e dar uma voz às pessoas que possuem deficiência. A sociedade ainda esconde a pessoa com deficiência sob pretensões deturpadas de inclusão e os caminhos para que consigamos o respeito e o reconhecimento como pessoas de direitos são a educação, a informação, a inserção nos espaços e a representatividade.

Ilustração: Dadu Shin | Foto: Arquivo pessoal


Amanda é advogada, feminista, ativista em direitos das mulheres, ascendente em áries e umbadista. Arquétipo de Xangô, acredita que o amor é a maior forca que existe e luta pela justiça. Tem diabetes do tipo 1, é deficiente visual e mãe de um gato chamado Ice.

Imagem com fundo azul claro. No lado esquerdo tem a frase "Nós também compramos brusinhas!" na cor rosa, ao lado de uma ilustração de um conjunto de moedas rosas.

Nós também compramos brusinhas!

Ainda me lembro das aulas de criação publicitária sobre adequação de público para minimizar os erros em uma campanha. A regra é bem simples, antes de iniciar uma campanha é preciso saber para quem falamos, portanto fazemos uma boa pesquisa de mercado afim de compreender melhor o comportamento do consumidor em todas as suas nuances. Depois de conseguir esses dados é que iniciamos o processo criativo.

Pode parecer novidade para alguns, mas a realidade é que tudo o que somos ou fazemos se transformam em informações de mercado. Com as redes sociais ficou ainda mais fácil entender nossos pensamentos, emoções e desejos. Aliás, os algoritmos fazem isso muito bem.

Mas o que toda essa história tem a ver com pessoas com deficiência? Você deve estar se perguntando. Para responder essa dúvida, vamos fazer um exercício. Pare e pense nos seus produtos favoritos. Pode ser qualquer estilo ou marca. Agora pense na propaganda destes produtos, se não lembrar pega alguma que mais gosta.

Pensou? Agora me responda: em quantas destas propagandas tinha alguém com deficiência?

O público invisível

Para não ser totalmente pessimista, vou considerar que sua resposta seja 1 ou 2 campanhas. Porque bem sabemos que a grande maioria não possui alguém com deficiência no seu elenco se a temática não for assistencialista, e infelizmente isso diz muito sobre como a sociedade entende os papéis sociais destinados a nós, pessoas com deficiência.

Apesar de muitos trabalharem, serem economicamente ativos, a verdade é que muitas empresas ainda não entenderam nosso potencial como consumidor.

Nosso dinheiro também tem valor

Vivemos em um sistema capitalista, por mais triste que seja, precisamos comprar coisas para usá-las. Na maioria das vezes somos estimulados a este consumo, isso é fato. Estamos inseridos no mecanismo “demanda-compra”, ainda que sejamos invisíveis na publicidade, lá estamos movimentando o mercado comprando itens para nosso bem estar ou, quem sabe, algumas brusinhas fofas que vemos por aí.

Seguindo uma lógica capitalista, estar presente na publicidade não é apenas suprir um desejo de compra, mas reafirmar sua presença na sociedade. O mesmo vale para televisão, seriados, filmes, livros e arte. Ocupar as ruas é fundamental, porém ocupar os meios de comunicação mais ainda. O movimento negro lutou para que as empresas oferecessem produtos específicos para sua pele e cabelos, o movimento feminista buscou por representações femininas além do estereótipo “do lar”.

Por esse motivo, a estratégia que nós, pessoas com deficiência do mundo inteiro, estamos usando é cobrar nossa representação nas marcas, produtos e campanhas através das redes sociais.

Lentamente, a pressão tem dado certo. Aos poucos vemos casos como o de Kate Grant, modelo com Síndrome de Down, que foi o rosto da Benefit Cosmetics para promover o novo delineador da marca.

#pratodosverem Print do perfil da Benefit Cosmetics no instagram onde aparece a modelo Kate Grant segurando um delineador da marca. Ela tem síndrome de Down, é loira e está usando uma blusa de frio preta com pintinhas brancas. Ela está com uma expressão de felicidade enquanto olha para cima. Fim da descrição.
#pratodosverem Print do perfil da Benefit Cosmetics no instagram onde aparece a modelo Kate Grant segurando um delineador da marca. Ela tem síndrome de Down, é loira e está usando uma blusa de frio preta com pintinhas brancas. Ela está com uma expressão de felicidade enquanto olha para cima. Fim da descrição.

No Brasil, algumas empresas buscam desenvolver uma comunicação inclusiva, como o caso da 65|10 que desenvolveu um banco de imagens super legal com modelos diversas disponível para compra no site da Adobe, como também o projeto Meu corpo é real da Michele Simões que realiza consultorias e workshops para discutir os meios de construir uma moda inclusiva.

A Getty Images, site de banco de imagens para campanhas, oferece agora opções de fotografias onde as pessoas com deficiência realizam atividades cotidianas, numa tentativa de aproximar da realidade de como vivemos nossas vidas.

#pratodosverem Na foto, uma mulher gorda usando biquíni azul com as bordas pretas está sentada na beira da piscina, amputada ela bate um dos pés na água, enquanto aproveita o sol usando óculos escuro. Sua expressão facial é de relaxamento. Uma faixa cinza com o nome “Gettyimagens e os dados da autoria da imagem ocupam uma pequena parte ao lado direito. Fim da descrição.
#pratodosverem Na foto, um rapaz negro de óculos preto, usando prótese em uma das pernas, está sentado olhando para a tela do celular. Ele está usando uma camiseta azul escuro, bermuda azul e um suspensório azul, enquanto encosta seu braço em uma mesa de cafeteria na calçada. Uma faixa cinza com o nome “Gettyimagens e os dados da autoria da imagem ocupam uma pequena parte ao lado direito. Fim da descrição.

Quando as empresas entenderem o potencial de consumo das pessoas com deficiência, aí sim veremos campanhas com mais diversidade. Até lá, se faça presente, ainda que virtualmente. Comece a solicitar que sua marca tenha pessoas com deficiência nas campanhas, exija espaços que facilitem sua compra, não abra mão de seu direito de ser visto.

Agora me responda: como você gostaria de ser representada (o) nas propagandas? Deixe seu comentário e vamos debater sobre isso. 😉


Leia também:

Sobre cafeterias inclusivas, final do ano, filantropia e mundo melhor

Por Manoella Back

Para quem não sabe eu vivo em Blumenau/SC e é daqui que vem a “Cafeteria Especial” que, por sinal, fica super pertinho de onde moro. A Cafeteria Especial tem no seu quadro de funcionários pessoas com Síndrome de Down. Os elogios a iniciativa estão sendo unânimes, é claro. Mas a gente sempre faz questão de chamar a galera para pensar um pouquinho: muitas pessoas com deficiência fogem dos termos capacitistas e gostam de dizer “que estão na luta de pessoas deficientes”. Mas por que então exaltar uma atitude cuja a nomenclatura se refere a gente um termo tão excludente como “Especial”?

Aceitar o termo “especial” não nos coloca na categoria de seres humanos que merecem ser reconhecidos como outro ser humano. E vocês conseguem entender o motivo? Sim, meus queridos! Ter deficiência é um conceito de relações que não nos faz melhor, nem pior que nenhuma outra pessoa. Em outras palavras: não estamos nem ao céu, para sermos chamados de “especiais” e nem ao inferno para que adotem o termo “aleijados”. Mas é justamente neste céu e inferno que a sociedade ainda insiste em nos colocar silenciosamente.  É tão prejudicial quanto o outro termo midiático e socialmente aceito que é o “Exemplo de Superação” sendo que, na realidade, a gente não supera porra nenhuma. Só precisa lidar com um mundo incrivelmente inacessível e injusto. Pensar em nomenclaturas pode até parecer uma perda de tempo para alguns.

Mas não é à toa que as e os grandes teóricos da deficiência pensam nelas há mais de 20 anos já que ouvir, ler e cunhar determinadas palavras e relacioná-las às deficiências dói muito. E o termo “especial” a uma cafeteria que busca inclusão precisa, sim, ser revisto. E por falar em cafeteria, tive uma prévia deste projeto na penúltima Feirinha da Servidão – feira que acontece mensalmente aqui na cidade – em que uma moça apoiadora do projeto da cafeteria inclusiva me atendeu e eu realmente fiquei me questionando se as pessoas com Down serão emancipadas para realizar o atendimento ao público ou se serão rostos que as associações utilizarão para se promover como reza a vã filantropia.

E já que falamos em filantropia, causa PCD e estamos em época natalina preciso lembrar que nada se compensa com suas bondades e orações, senhoras e senhores. Nada se compensa com doações ou caridade. Filantropia sempre foi prática das classes dominantes em busca do reconhecimento social, alcance de poder e até absolvição divina. Mas calma! De forma alguma estou a julgar quem resolver visitar orfanatos, hospitais ou fazer doações com fotos em suas redes sociais neste fim de ano. Mas vocês já tentaram se comprometer com programas permanentes ou até com um ideal de país igualitário? Confesso que dá muito mais trabalho, menos holofotes, mas pode ser até mais gratificante: são estas as iniciativas verdadeiramente capazes de mexer nas estruturas das desigualdades que precisamos modificar.

E nós “defiças” nesse rolê todo?

Não adianta vocês frequentarem os “Cafés Especiais” da vida se colocam em cheque o ponto de vista defendido pela pessoa com deficiência ou não dá voz a ela. De nada adianta, amores, ir a cafeterias inclusivas se as pessoas com deficiência da sua empresa estão lá só para preencher as cotas, com cargos auxiliares ou para que você não pague uma multa. Finalmente, de nada adianta se você, pessoa sem deficiência, se sente “tocado” pelas nossas pautas mas estaciona na vaga preferencial quando vai à igreja pedir remissão de seus pecados.

Por último, desejo um ho, ho, ho de todo o coração para quem REALMENTE nos respeita e não compactua com quem diz que minorias devem se curvar às maiorias.

Um 2019 de muita luta, saúde e energia para nós!


Manoella Back é jornalista, especialista em Cultura & Literatura, aquariana-louca-da-astrologia, fã de Harry Potter, samba, teatro, cerveja e MPB. Luta por um mundo melhor por meio da justiça, direitos humanos e promoção da igualdade.


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Não é feminismo se não tiver mulheres com deficiência

Sim, já começo a provocação no título, como se fosse um grito no meio da multidão. Daqueles entoados com paixão, com indignação e força para provocar mudanças. Precisamos desses momentos às vezes, não é? Colocar tudo para fora e reorganizar as coisas aqui dentro. Me sinto assim depois de vivenciar dias super intensos no ELLA – Encontro LatinoAmericano Feminista, na cidade de La Plata (Argentina). Emerge em mim uma nova mulher.

Silenciamento ou falta de conhecimento?

Não pretendo com este texto criticar o feminismo, contudo preciso fazer esta provocação para conseguirmos avançar dentro do movimento. Além disso, preciso compartilhar minha experiência com o Ella, pois apesar de passar três dias após meu retorno de La Plata, ainda tenho a sensação de ter vivido um mês naquele lugar.  

#paratodosverem Do lado esquerdo minha imagem de corpo inteiro usando uma blusa verde escura, um lenço verde claro, calça preta e allstar vermelho. Ao fundo um grupo de mulheres em roda atentas ao que estou falando. Estamos em uma quadra de esportes com o piso verde, arquibancada e portas de vidro  ao fundo.
#paratodosverem Do lado esquerdo minha imagem de corpo inteiro usando uma blusa verde escura, um lenço verde claro, calça preta e allstar vermelho. Ao fundo um grupo de mulheres em roda atentas ao que estou falando. Estamos em uma quadra de esportes com o piso verde, arquibancada e portas de vidro  ao fundo. Foto: Divulgação Ella

É lindo estar em um ambiente com mulheres empoderadas, independentes e abertas ao aprendizado. Ouvi histórias lindas de superação pessoal, conquistas antes consideradas impossíveis para algumas. A liberdade de se expor foi única. Notei também a reação de muitas quando relatava as dificuldades que nós experimentamos por causa do capacitismo e machismo. 

Já esperava desconhecimento sobre a deficiência em si, como lidar ou perceber a falta de acessibilidade nos espaços. Sabia também que muitas delas sequer imaginavam o que é ser uma mulher com deficiência, afinal minha “função” ali era trazer esse relato para o debate. Contudo, não deixa de ser incômodo de certa maneira.

Sim, sei que ninguém nasce sabendo. Também sei da ausência de conhecimento e tudo mais. Porém nada disso deixa de ser desagradável às vezes. Ali, fui ouvida, mas e aqui fora? Muitas vezes vejo sites, blogs e páginas limitando as ações do feminismo as negras, gordas, trans, lésbicas e nada sobre nós. 

Somos mulheres. Temos desejos, anseios, medos, inseguranças, sofremos opressão tanto quanto as outras, somos limitadas pela falta de acessibilidade e somos castradas socialmente, uma vez que desconsideram nossa capacidade de construir relações afetivas.

Há um grito contido, silenciado e ignorado por muitas. Há mulheres vivendo sem saber o que é ser mulher. Não se vêem como tal, portanto não entendem como o feminismo seria bom para a vida delas. Aliás, não se vêem no feminismo. Muitas ainda precisam de um apoio para se erguer. 

Aprendi no Ella que os machistas, racistas e capacitistas não passarão. Vi a força e potência da mulher, fui recebida e ouvida com carinho e empatia. Creio que vivi o feminismo de um modo muito bonito. Por isso digo: não admito um movimento que não nos caiba. Faremos barulho, seguiremos unidas e vamos construir um feminismo real e inclusivo.

Só preciso saber de uma coisa: você está comigo?

 

imagem com fundo amarelo, no centro em cor preta a frase #pareçoumexemplomas. Abaixo em amarelo claro, contrastando levemente a frase 03DEZ. Fim da descrição.

Parecemos exemplos, mas

Dia 03 de dezembro (hoje) é o dia internacional da pessoa com deficiência, mas talvez você não saiba o motivo da escolha desta data ou sua importância, então vou lhe contar. Separe a pipoca e senta que lá vem história…

Em 1980, a ONU proclamou o ano de 1981 o “Ano Internacional das Pessoas Deficientes” como uma maneira de estimular discussões entre as nações sobre os direitos das pessoas com deficiência dentro da sociedade. No ano seguinte, em 1982, foi elaborado um documento chamado “Programa Mundial de Ação Relativo às Pessoas com Deficiência“, publicado em 1983 que serviu de diretriz para orientar o que chamou-se de Década das Nações Unidas para Pessoas Portadoras de Deficiência. 

#paratodosverem imagem com fundo escuro, na parte superior um símbolo com arco de folhas e ao meio um desenho estilizado de duas pessoas dando as mãos. Abaixo o texto: Um símbolo para 1981, o ano internacional das pessoas deficientes, que começou ontem. Ano em que os deficientes físicos ou mentais (que a ONU calcula serem 500 milhões em todo o mundo) pretendem, acima de tudo, lutar para ter oportunidades iguais às outras pessoas. No canto inferior direito, um box branco com o texto: O Estado de São Paulo. 02/01/1981. Fim da descrição.
#paratodosverem imagem com fundo escuro, na parte superior um símbolo com arco de folhas e ao meio um desenho estilizado de duas pessoas dando as mãos. Abaixo o texto: Um símbolo para 1981, o ano internacional das pessoas deficientes, que começou ontem. Ano em que os deficientes físicos ou mentais (que a ONU calcula serem 500 milhões em todo o mundo) pretendem, acima de tudo, lutar para ter oportunidades iguais às outras pessoas. No canto inferior direito, um box branco com o texto: O Estado de São Paulo. 02/01/1981. Fim da descrição.
#paratodosverem Imagem de capa do jornal Folhetim de São Paulo publicada no domingo, 25 de janeiro de 1981. Ao centro, uma imagem de três pessoas no formato negativo fotográfico, nas cores vermelha e rosa. No primeiro plano, homem de costas para o observador, em cadeiras de rodas. Na diagonal, cruzado nas costas da pessoa com deficiência, o título do Folhetim “Deficientes físicos nem inúteis, nem coitadinhos”.
#paratodosverem Imagem de capa do jornal Folhetim de São Paulo publicada no domingo, 25 de janeiro de 1981. Ao centro, uma imagem de três pessoas no formato negativo fotográfico, nas cores vermelha e rosa. No primeiro plano, homem de costas para o observador, em cadeiras de rodas. Na diagonal, cruzado nas costas da pessoa com deficiência, o título do Folhetim “Deficientes físicos nem inúteis, nem coitadinhos”. Fim da descrição.

O período de 1983 a 1992 serviu para discutir profundamente medidas para proporcionar a inclusão e a garantia de direitos desta fatia da população. Ao final, escolheram o dia 03 de dezembro para celebrar anualmente essas conquistas e reforçar a importância de nossa luta. 

Claro que esta é apenas uma parte de nossa história no mundo, afinal pessoas com deficiência existem desde o início da humanidade. Uma outra hora conto para vocês algumas coisas interessantes sobre nosso passado, mas no momento falarei a respeito de algo sempre presente em nossas vidas: os estereótipos. 

O poder dos estereótipos 

A maioria das pessoas com deficiência já vivenciaram julgamentos pautados em estereótipos. Os famosos exemplos de superação, pessoas especiais, iluminadas ou por outro lado viver em uma cadeira de rodas como uma punição por uma vida desregrada.

Segundo os gregos (sim, eles sabiam de muita coisa) o estigma se referia a sinais corporais usados para evidenciar algo extraordinário ou ruim sobre o caráter de quem os apresentava. Por isso, uma pessoa marcada era vista como alguém a ser evitado. Durante muitos anos a deficiência era uma espécie de sinal ora da presença dos deuses, como um oráculo cego comum em narrativas, ora como um castigo, como o corcunda no filme 300, por exemplo.

Bem sabemos que muitos desses pensamentos são construídos pela falta de informação a respeito de nossas vivências, anseios e desejos. Contudo, algumas pessoas com deficiência não sentem incômodo em serem consideradas exemplos de resiliência/superação e, em alguns casos até utilizam desse conceito para inspirar outros a seguirem suas vidas. 

Porém é preciso lembrar que um grande número de pessoas com deficiência renegam tais títulos por considerarem suas atividades normais como de qualquer outro indivíduo sem deficiência. Pessoalmente, também me incomoda esse lugar de superioridade por considerá-lo distanciado demais da realidade, sem considerar nossas reais qualidades como ser humano. 

Nesse ponto, é sempre bom lembrar da palestra de Stella Young onde ela deixa claro que não nasceu para ser inspiração de ninguém.

Temos defeitos como qualquer outra pessoa, também acordamos de mau humor e temos momentos de raiva. Cometemos erros de valor, julgamos o outro, reproduzimos preconceitos e defendemos absurdos como qualquer outra pessoa por aí. Porque antes de termos a deficiência, somos humanos e carregamos todas as fragilidades do ser. Não há super heróis ou vilões, apenas indivíduos tentando levar nossos dias. Por esse motivo, acredito que o ponto unânime: queremos seguir nossas vidas com acesso aos nossos direitos, exercendo o que podemos ter de autonomia e sendo respeitados em nossas diferenças. 

Imagem com cinco blocos coloridos. No lado esquerdo, o primeiro bloco tem o fundo rosa com um rosto de perfil sorrindo com os olhos fechados. Ao lado, um bloco maior dividido ao meio: acima há duas pessoas conversando em libras, abaixo há o desenho de um metro com uma pessoa destacada dentro. Ao lado destes blocos há um desenho de alguém digitando. Por fim, ao lado direito o último bloco tem um desenho de um homem cadeirante ajeitando a gravata de sua camisa.
#paratodosverem Imagem com cinco blocos coloridos. No lado esquerdo, o primeiro bloco tem o fundo rosa com um rosto de perfil sorrindo com os olhos fechados. Ao lado, um bloco maior dividido ao meio: acima há duas pessoas conversando em libras, abaixo há o desenho de um metro com uma pessoa destacada dentro. Ao lado destes blocos há um desenho de alguém digitando. Por fim, ao lado direito o último bloco tem um desenho de um homem cadeirante ajeitando a gravata de sua camisa. Fim da descrição.

Parecemos exemplos, mas no final das contas queremos apenas ser felizes andando tranquilamente nas cidades onde nascemos e podermos nos orgulhar de ter nossas consciências no lugar. 😉 (sim, parafraseei um rap, porque pareço um exemplo, mas ouço de tudo nessa vida)

Fonte conteúdo:  “30 anos do AIPD – Ano Internacional das Pessoas Deficientes, 1981-2011” – material disponível em PDF. 

“A deficiência através da história: da invisibilidade à cidadania” – material disponível em PDF

Imagens internet/ AIPD

ACESSIBILIDADE SEM LIMITES E ALÉM DAS RAMPAS

Acessibilidade sem limites e além das rampas

Descrição da imagem: Foto com efeito rasgado da Elizabete. Ela está usando um aparelho de respiração no nariz, possui cabelo preto, está usando um batom vermelho e uma blusa vermelha com os  ombros a mostra. Fim da descrição.

O texto de hoje é da Elizabete da Silva e nos propõe uma reflexão fora das nossas experiências pessoais, um olhar para a necessidade do outro e as nossas incapacidades de adaptarmos as suas realidades. 

É com um prazer dobrado que eu, Elizabete, 42 anos, portadora da AME tipo II, venho convidar o leitor a conhecer um mundo que, apesar de fazer parte da listagem de limitações físicas,  se fala pouco deles, e muito menos, divulgam a realidade que os envolvem: “Os Deficientes Visuais”.

Classificados como tal (os D.Vs), mas ignorados por muitos. Exemplo disto, é que nem todo deficiente visual, é totalmente cego. Existem outras categorias, como baixa visão, e a visão subnormal. Cada uma com sua necessidade, para que possam se adaptar às realidades que os envolvem.

Mas como cada leitor aqui, também eu, estou a me inteirar, e assim, fazendo existir a tão questionada acessibilidade.

Tal palavra só fará sentido a meu ver, quando cada ser humano tratar com respeito e consideração o seu próximo. Pois o desrespeito, por mais absurdo que pareça, existe também, entre o nosso meio.

Quando foi que você descreveu uma imagem para uma pessoa que possui a limitação, ver digamos, em uma postagem sua pública, no Facebook?

Vocês que gostam de música, quando foi que buscaram a possibilidade de também postar, ‘aquela música’ na língua de sinais? E por aí vai…

Tentando mudar esta realidade, através de um grupo, conheci algumas pessoas com limitação visual, que me lançaram neste mundo obscuro, que trouxe muita clareza sobre muitas falhas existentes na nossa sociedade, inclusive em mim mesma.

Por isto, desde já, agradeço a você, Fatine Oliveira, pelo espaço aqui me fornecido, e muito mesmo, à vocês, André L. Baldo, Crislâine L. Rigo, Eduarda Bittencourt Nogueira, Felipe Pereira Rodrigues, Tereza Cristina Rodrigues Villela e William Félix (todos deficientes visuais); por compartilhar suas experiências, e vida, para o meu prazer e crescimento pessoal.

Recebi hoje, através da minha amiga que trabalha no Banco do Brasil, um vídeo, e uma frase, que muito chamou minha atenção, a ponto de aqui estar eu, a escrever.

A frase mencionada é:

“Quando eu tenho acessibilidade, nem lembram que eu tenho deficiência” (em pleno site do banco).

Pensei, “quem dera fosse verdade!”

Respondi a ela, que a história dela é muito linda! E vai muito além, do que estava relatado ali no site (pois, abaixo da frase, estava o histórico de sua admissão profissional na instituição). Que o mérito era dela. E Qualquer empresa que adapte-se para receber, pessoas com limitações físicas ou cognitiva, aptas ao serviço laborativo, tende eles, muito a ganhar, “pela garra” que cada um dedica, no intuito de conquistar seu espaço no mercado de trabalho. Como #PodemosVer, no vídeo mencionado, que fizeram para homenagear o nosso dia.

Mas reparem, um #Deficiente_Visual, saberia o que se passa neste vídeo? Alguns, não!!! Outros, sim. Mas o vídeo não é acessível a todos! Assim como jogos, placas, e tantas outras coisas.

Recentemente um episódio, me deixou (perdoe-me a expressão) “puta da vida”!

Respondendo eu, a um e-mail direcionado a minha amiga Tereza, citada acima, onde um aluno da UFSCar, fazendo mestrado em ciência da computação, requisitando voluntários, portadores de limitações visuais, para testes em jogos acessíveis. E porque me interessa todo tipo de acessibilidade, estimulei meus amigos a contribuírem participando.  

Para nossa decepção, ao fazer o teste um deles, tivemos a notícia que, além do jogo já existir (e ser simplório), não era acessível a todos os tipos de limitações visuais. Perguntei ao estudante, por que será que as pessoas tendem, a nos ver como crianças ou com pouca cognição?

Nota-se que existem falhas, dentro de falhas, no requisito #ACESSIBILIDADE, e muito mais escandalosas, para nossos companheiros de luta, os deficientes visuais.

Outros exemplos:

  • Pouquíssimos materiais em braille, e a péssima qualidade do material onde os confeccionam, e sendo ele, de fundamental importância como ferramenta alfabetizadora, aliada às tecnologias assistivas, como leitores de telas, etc.
  • A ineficiência em explicar cores para cegos, já que, se colocarmos uma maçã na geladeira, sendo ela vermelha, não mudará de cor, e é dito o vermelho, como sendo “cor quente”. Sendo tratado este tópico, em filmes como, “Marcas do Destino”.

Enfim, são tantas falhas a mencionar, que para não tornar a matéria cansativa, finalizo dizendo, que deficiente não é só o nosso sistema, é cada um de nós, em um todo, sem qualquer distinção.

E como sempre, teremos que lutar muito, começando, por mudar os nossos próprios hábitos, para aí sim, guerrear, e assim conquistar o nosso espaço, neste “mundão de meu Deus”.

E torço para que, haja um oásis no deserto da alma de cada pessoa. Trazendo à existência, uma sociedade inclusiva e igualitária; mediante as diferenças de cada indivíduo.