Deficiência e feminismo: uma conversa necessária! Parte – 1

Já falamos aqui sobre a necessidade de pautas anticapacitistas nas discussões feministas, para visibilizar a vida de diversas mulheres com deficiência que também é impacta pelas opressões do patriarcado. Como bem reforça a autora Rosemarie Garland Thomson, a forma que a sociedade encara a deficiência está relacionada com o contexto e a cultura em que vivemos. Por isso, sempre dizemos que existem modos específicos para pensar e discutir questões que afetam a vivência de uma pessoa com deficiência.

O modelo biomédico, por exemplo, entende a deficiência só como uma lesão, impedimentos físicos, sensoriais e intelectuais: é o resultado de uma disfunção de em alguma parte do corpo. Assim, a deficiência é analisada como incapacidade: precisa ser “consertada” com intervenções médicas para que a pessoa com deficiência alcance a “normalidade”. [1]

Ou seja, esse modelo biomédico desconsidera todo o contexto social da pessoa com deficiência, focando exclusivamente na biologia e no corpo. Porém, quando observamos as barreiras arquitetônicas, de transporte, comunicacionais e reprodução de atitudes capacitistas (preconceito contra pessoas com deficiência) vemos como esses contextos sociais são responsáveis por dificultar a inserção das pessoas com deficiência na sociedade.[2]

Ilustração em preto e branco de várias mulheres, com diferentes tipos de deficiência atravessando ruas e direções diversas.
Fonte: Feminism in India

Feminismo e deficiência: uma relação necessária!

Assim, “nasceu” o modelo social. Com a proposta de considerar o contexto social e psicológico da pessoa com deficiência, esse modelo foi assimilando novas ideias a partir dos estudos da deficiência e feministas. 

Entretanto, como a experiência de ser uma mulher com deficiência que, ora desempenha o papel de cuidadora, ora de mãe, é única as pesquisas feministas envolviam temas que relacionavam a deficiência com gênero, dependência, interdependência, cuidados e dor provocadas por lesões. [3]

Sempre reforço em minhas falas que ao falarmos de deficiência é preciso pensar em DEFICIÊNCIAS. Ou seja, existem diferentes tipos de experiências que nos diferenciam, ainda que sejamos afetados pelos mesmos obstáculos sociais. Mesmo se todas as barreiras físicas, culturais e sociais fossem eliminadas, nem todos poderiam usufruir de plena autonomia e independência.

Conquistas já alcançadas!


O modelo social permitiu avanços legais que transformaram a vida das pessoas com deficiência, mas essa conversa vai ficar para o próximo texto. Ok? 😉


*Colaboração de Felipe Gruetzmacher

Nascido em 02/12/1988, é um eterno idealista. Acredita no potencial transformador da literatura. É um otimista nato, gosta de apoiar pessoas e é um romântico incorrigível. Por conta desse amor pelas letras, virou um copywriter: um especialista em comunicação, persuasão e marketing.


Referências: GESSER, Marivete; GOMES, Ruthie Bonan; LOPES, Marivete; TONELI, Maria Juracy Filgueiras. Novos diálogos dos estudos feministas da deficiência. Scielo, 2019. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ref/a/c7sJxYbSppg9kQMNvwvN6fh/?lang=pt . Acesso 22 de julho de 2022.

[1] (Débora DINIZ, 2007; Marivete GESSER; Adriano NUERNBERG; Maria Juraci TONELI, 2012).

[2](Sueli DIAS; Maria OLIVEIRA, 2013)

[3](DINIZ, 2007).


Qual é sua história, afinal?

Autodeterminação. 

Foi essa palavra que ficou na minha cabeça após minha participação e, de outras mulheres com deficiência, no primeiro dia do curso regional de liderança e empoderamento de mulheres com deficiência da América Latina e do Caribe promovido pela Rede Latino-americana de Organizações Não Governamentais de Pessoas com Deficiência e suas Famílias (Riadis), com o apoio do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA).

Depois de discutirmos sobre o processo de formação de nossas identidades, tivemos um momento para refletirmos sobre quem nós somos. A pergunta “qual é a história da sua vida” nos foi colocada com a intenção de nos convidar a olhar para dentro de nossas crenças pessoais, valores, medos, alegrias e expectativas. Olha, foi um baita mergulho.

Sabe quando você pula de uma vez na piscina? Neste caso, para mim, foi uma piscina de memórias cheia de lugares, pessoas e planos ora realizados, ora frustrados.

A gente se acostumou tanto a contar as partes difíceis de nossas histórias marcadas pelo capacitismo, que muitas vezes esquecemos dos intervalos onde as vitórias e conquistas pessoais nos servem de combustível para seguir em movimento durante os dias.

Manter-se na luta contra o capacitismo é também estar em vigilância contra o capacitismo que, por vezes, ainda vive em nós. Sabe essa voz sussurrando no seu ouvido “você sabe que não é capaz de fazer isso por causa da sua deficiência”? Faz parte de uma coleção de estigmas e preconceitos presentes na mente da nossa cultura.

Como fazer parte de alguma coisa, se ainda me encontro perdida? Lembrar de quem somos, do que somos capazes de fazer são alguns dos vários caminhos para se autodeterminar coletivamente. Somos mulheres com deficiência, não apesar da deficiência.

Temos inseguranças, dúvidas e receios, mas também somos força, sonhos e desejo. Rever nossos relatos é um exercício de autoconhecimento, de auto respeito e, principalmente, de autocuidado. Por isso, te pergunto mais uma vez: como você tem contado a história de sua vida?

Minhas conversas com Frida

Dia 06 de julho comemora-se o aniversário de Frida Kahlo. Nessa data, vocês podem notar várias postagens nos feeds das redes sociais ora contando a história da pintora ou mulheres prestando homenagens à pintora. Esse ano (2021) por falta de tempo, planejamento e, por esse meu jeito aleatório de conduzir meu conteúdo, me dediquei a algumas repostagens nos stories do Instagram para não deixar a data passar em branco.

Porém, me senti mal durante a semana. Ora essas, estamos falando dela. “Como assim você não vai fazer um texto?”, me questionei. A verdade é que me parece insuficiente dizer algo sobre um sentimento que vai além do vocabulário, sabe?

Eu e Frida temos uma relação única. Sim, somos próximas dessa maneira. A gente se entende na coluna quebrada, na pintura realizada na cama, na imagem do veado com flechas, no amparo entre o pulsar do coração que alimenta a cena das duas Fridas. Um reconhecimento singular, impossível de explicar. Na ausência de palavras busquei a foto que me toca.

Foto em formato vertical de Frida Kahlo. Ela é uma mulher branca, de cabelos pretos com laços azul claro, sobrancelha junta e um pouco de bigode. Usa uma camiseta vermelha com estampas etnicas amarelas, saia azul longa com renda branca na barra. Ela está olhando para a esquerda, com uma expressão pensativa e está segurando um cigarro  na mão direita. O fundo é possível ver alguns prédios antigos, um muro pequeno feito de tijolos e o piso cinza. Fim da descrição.
Foto com texto alternativo

Esse registro feito por um dos seus amores, Nickolas Muray, é meu punctum, como diria Barthes. Gosto desse seu jeito de olhar para o nada. Como se enxergasse algo que não entendemos ainda. É como se ali, no vazio, ela se escondesse para aliviar sua dor.

Aí, no topo deste prédio é onde nos encontramos sempre. Onde temos nossas melhores conversas, conselhos, mas principalmente, os melhores silêncios. ❤️ Obrigada por tudo, querida.


*Texto originalmente publicado dia 9 de julho: https://www.instagram.com/p/CRH3RbSMRuu/

Imagem de destaque

Conheça a atriz Liz Carr ou Como evitar cripface em filmes e séries

É, eu sei. O título desse texto ficou enorme, porém em minha defesa precisava colocar tudo o que o trabalho da Liz representou para mim e, talvez seja o mesmo para você.

Se você não me conhece, precisa saber do meu gosto por filmes de ficção científica, fantasia, distopia e afins para entender melhor esse texto. Raramente assisto outro tipo de estilo, apenas por indicação ou curiosidade mesmo. Nesse tipo de histórias costumo me desprender da realidade, sabe? Imaginar novos cenários, futuros possíveis ou possibilidade de existência.

Dito isso, dia desses estava assistindo o filme “Infinite” lançado esse ano (2021) com os atores Mark Wahlberg e Chiwetel Ejiofor como personagens principais. O longa foi inspirado no romance “The Reincarnationist Papers”, de D. Eric Maikranz, que narra a história de pessoas que possuem o dom de lembrar de suas vidas passadas. Com o passar dos anos, após alguns conflitos foram separadas em dois grupos: os Infinites e os Niilistas. O primeiro via na reencarnação uma possibilidade de evolução, já o segundo se sentiam presos à existência eterna, por isso pretendiam destruir toda a humanidade para romper esse ciclo.

Foto na horizontal de uma cena do filme. A esquerda está o ator Chiwetel Ejiofor (homem negro de terno preto) em pé, segurando uma bala de revólver enquanto olha para o ator Mark Wahlberg (homem branco de jaqueta preta) sentado do outro lado da mesa. O cenário é escuro e possui algumas janelas com grades. Fim da descrição.
Cena de tensão entre os personagens principais. Descrição no texto alternativo.

Tirando a deliciosa interpretação do Chiwetel no papel de vilão inescrupuloso, não me senti tão empolgada com o filme. Na verdade, achei um pouco exagerado em algumas cenas, porém enquanto assistia, eis que me surpreendo com a aparição de uma mulher cadeirante entrando na cena. Inicialmente imaginei ser alguma atriz conhecida fazendo cripface, porém quando a câmera se posicionou frontalmente, eis que para minha surpresa era a atriz Liz Carr, uma mulher com deficiência “de verdade”.

Chamamos de cripface a prática capacitista de utilizar atores sem deficiência para interpretar personagens com deficiência. O termo ganhou popularidade a partir das mobilizações de ativistas PcD contra roteiristas de grandes produções e estúdios de cinema.

Quando vi Liz em cena me veio um sentimento agridoce.

Ao mesmo tempo em que fiquei empolgada com sua personagem – uma cientista responsável pelo departamento tecnológico dos Infinitos – me peguei pensando em como a nossa invisibilidade social provoca feridas em nosso inconsciente, que nos leva a considerar raras aparições de pessoas com deficiência em propagandas, filmes e séries um grande evento. Porém, ao mesmo tempo me pergunto: como não se animar?

Descrição resumida. Foto em formato horizontal de uma cena do filme. O cenário é uma sala em formato arredondado com janelas. Mark está olhando para Liz enquanto duas mulheres ao fundo os acompanha. Ela é branca, tem cabelo branco curto, usa blusa azul de gola alta e óculos de armação preta. Está sentada em uma cadeira motorizada olhando para Mark. No rodapé da imagem está a frase "Garrick é nossa mestre de tecnologia e pesquisa". Fim da descrição.
Liz Carr interpreta a cientista Garrick. Descrição no texto alternativo.

Quem é Liz Carr?

Atriz britânica, comediante, apresentadora e ativista internacional dos direitos das pessoas com deficiência, Carr já é conhecida pela participação na série da BBC “Silent Witness”, em seu papel como a examinadora forense, Clarissa Mullery. Assumiu o papel desde 2012, encerrando sua participação no começo de 2020. Em entrevista para a BBC, disse que tinha dúvidas em como a produção iria desenvolver as gravações com a presença de um profissional com deficiência no set.

Ao longo dos oito anos de filmagem, conseguiu ajustar o roteiro sempre que apareciam algumas falas problemáticas. Em entrevista para a BBC disse “Fui questionada se eu estava orgulhosa do que alcançamos em termos de representação na série. Oh, meu Deus, é claro que estou.”

Descrição resumida. Cartaz da série "Silent Witness" da BBC com os nomes dos atores na parte superior. Ocupando o centro da imagem estão 4 atores brancos, um homem de terno, Liz usando uma camisa florida, sentada na cadeira de rodas, ao seu lado direito uma mulher loira de sobretudo azul escuro e um homem usando jaqueta e calça jeans escura. No fundo a vista de uma cidade com alguns prédios.
Cartaz da série “Silent Witness”. Descrição no texto alternativo.

A atriz também faz parte de vários grupos de comédia britânicos, como o “Abnormally Funny People”, o podcast “Ouch! Podcast” e, trabalhou como pesquisadora para o painel de comédia da BBC, “Have I Got News for You”.

Cadeirante, desde os sete anos de idade, Liz relata suas experiências com a deficiência de forma cômica para provocar a plateia dos seus shows.

“Tive algumas broncas, o que é fantástico… Pareço muito frágil para algumas pessoas, então é como todo estereótipo que você não esperava. As pessoas geralmente parecem apavoradas. ‘Oh meu Deus, ela vai ser engraçada? Podemos rir disso?’”, diz a atriz.

Atuante no ativismo pelos direitos das pessoas com deficiência há mais de 25 anos, Liz Carr faz parte do Not Dead Yet UK, grupo de pessoas com deficiência que se opõem ao suicídio médico assistido.

Em busca de outros enredos

Com a justificativa (para não dizer, desculpa) de não encontrar bons atores com deficiência para realizar os papéis, o cripface contribui para sustentar os discursos de tragédia e/ou superação nos enredos, uma vez que constroem narrativas em que o personagem ora adquire deficiência após um acidente, doença ou castigo, ora possuem um sonho ou memória de quando não possuía deficiência.

Porém, nos últimos anos temos visto algumas produções que trazem personagens com deficiência em filmes e séries, como o caso de “Special”, “Fuga”, “3%” que saem um pouco dos discursos capacitistas de vitimismo, superação e tragédia. Ou seja, existem alternativas criativas para construir boas narrativas onde pessoas com outras corporalidades estejam presentes em cena.

Sim, eu sei. Ainda é muito pouco.

Porém, da mesma forma que a ausência de pessoas LGBTQIA+, negras e mulheres é reivindicada por vários artistas nas redes sociais, ativistas com deficiência constantemente se mobilizam para expor os danos que essa invisibilidade provoca no imaginário social.

Quanto mais atrizes e atores como Liz ocuparem as telas, teremos mais oportunidade de falar sobre temas importantes a nossa vivência com deficiência como acesso a saúde e educação de qualidade, sexualidade e relações afetivas, acessibilidade e o uso de tecnologias assistidas no cotidiano, dentre outras questões tão relevantes quanto.

Por ora, deixo a dica para verem Liz em cena. Além de saciar o desejo ativista de ver uma mulher cadeirante fazendo um papel super bacana, você pode curtir um filme nas horas vagas.

Incrível, não é? Se tiver outras dicas, deixe aqui nos comentários.


Fontes:

https://lizcarr.co.uk/

https://biographymask.com/liz-carr/

https://twitter.com/thelizcarr

Card com bordas brancas e um quadrado roxo no centro. No interior dele, na parte superior está uma aspas brancas com outra de bordas rosa sobrepondo. Abaixo o texto: "A rígida rejeição feminista dos desejos femininos por beleza enfraqueceu as políticas feministas. Ainda que essa estética seja mais incomum, é frequentemente apresentada pela mídia de massa como a maneira de pensar das feministas. Não seremos livres até que as feministas retornem à indústria da beleza, retornem à moda e criem uma revolução contínua e sustentável. Não saberemos como amar o corpo e a nós mesmas.” O feminismo é para todo mundo: Políticas arrebatadoras - bell hooks. Logo abaixo a assinatura @disbuga também na cor rosa. Fim da descrição.

Beleza onde?

“A rígida rejeição feminista dos desejos femininos por beleza enfraqueceu as políticas feministas. Ainda que essa estética seja mais incomum, é frequentemente apresentada pela mídia de massa como a maneira de pensar das feministas. Não seremos livres até que as feministas retornem à indústria da beleza, retornem à moda e criem uma revolução contínua e sustentável. Não saberemos como amar o corpo e a nós mesmas.

O feminismo é para todo mundo: Políticas arrebatadoras – bell hooks.

Este trecho faz parte de um capítulo chamado “Beleza por dentro e por fora”, uma frase bem conhecida para quem sempre esteve fora dos padrões de beleza. A discussão que a Hooks traz é muito interessante, por isso resolvi postar aqui. Uma das grandes discussões feministas gira em torno do tom sexista que envolve o corpo feminino.

Reivindicação mais do que necessária, quando observamos o quanto a sociedade apresenta as mulheres como pessoas disponíveis ao desejo masculino, ora definindo quais papéis devemos cumprir, ora qual é o procedimento estético da vez.

Porém, existem mulheres que escapam destas normas. Algumas se sentem bem com a própria pele, fazem suas escolhas e traçam o próprio caminho. Há também aquelas que negociam com a norma. Destas que pretendo falar. Para algumas mulheres com deficiência usar maquiagem é o que completa sua identidade feminina, já que seu corpo já foi taxado de incapaz pelo capacitismo estrutural. Se retirar esses pequenas ações o que resta, afinal?

A autora diz que a “crítica em si não leva a mudança”. É preciso deixar de generalizar a experiência de ser mulher, atentar para outras realidades e tentar encontrar alternativas que permitam construir um amor ao corpo mais emancipatório e revolucionário.

Como faço isso, Fatine?

Escute outras mulheres diferentes de você, não se trata apenas de lugar de fala, mas de realmente estar disposta a entender a Outra. Feminismo é construção, não é? Então, vamos conversar.

Luke, eu também tenho deficiência

Texto originalmente escrito para o Facebook em 2015 e revisado em 2020.

Quando falamos sobre deficiência é comum discutirmos sobre a capacidade de fazer/ser dos sujeitos, autonomia, mobilidade e outros temas relacionados ao corpo. Atualmente, o capacitismo tem sido amplamente debatido nas redes sociais, meios de comunicação e salas de aula. Ao fazer este texto em 2015 não tinha as leituras que o mestrado me trouxe, nem a responsabilidade que o tempo me entregou, porém a paixão pelo universo Star Wars só aumentou. Por isso, resolvi fazer algumas edições, mas mantive a centralidade do assunto na época: o que nos torna ou não capazes? Para exemplificar usarei um dos meus vilões favoritos, Darth Vader. Espero que gostem. 

A história se passa em uma galáxia muito, muito distante. Todos os planetas são povoados, organizados em uma República defendida por uma ordem de cavaleiros chamada Jedi. São um grupo de pessoas com capacidade de manipular a Força, um tipo de energia que envolve a existência de todos os seres vivos na Galáxia. Cada Jedi responde ao Conselho que é formados pelos mestres da ordem, aqueles cujo poder e aprendizado já são mais fortes e capazes de manter o equilíbrio.

Os Jedis são considerados os mocinhos da história, usam a Força para praticar o bem. Apesar de terem uma espada de íons (ou coisa parecida), chamada sabre de luz, só a utilizam para defesa. O poder da Força é intenso demais, demandando muito treino dos cavaleiros, porém nem todos a utilizam para ajudar os outros. Há aqueles cujo desejo de dominar é muito maior, são os chamados Sith. Esses se alimentam dos sentimentos ruins como medo, raiva, angústia, ciúmes, inveja, vingança. Muita vingança.

Enfim, chegamos ao principal: Darth Vader.

Anakin Skywalker é considerado O Escolhido que vai trazer equilíbrio a toda galáxia, porém sua história foi marcada pela dor da escravidão, da morte de sua mãe e pelo medo de perder o grande amor de sua vida. Apesar de receber treinamento Jedi, sempre se via confuso em seus sentimentos e, apesar dos ensinamentos de Obi-Wan Kenobi, mestre e amigo, acabou sendo absorvido pelo lado sombrio da Força.

Travou uma batalha intensa com Obi-Wan onde por um golpe ligeiro se viu no chão sem um braço e pernas. Presos em um planeta consumido pela lava, o mestre viu Anakin sendo consumido pelo fogo antes de partir. Contudo, foi salvo pelo novo mentor, Lorde Sith que o submeteu a longas e dolorosas cirurgias que transformaram seu corpo em um híbrido de máquina-organismo. Assim, Vader sobrevive respirando através de uma máscara que o acompanha por toda vida, em sua jornada pela galáxia ao lado do imperador Sith. 

A respiração com a máscara se transforma na característica principal do personagem, aquilo que te traz potência, mistério. Ninguém leva em consideração que Lord Vader é alguém com deficiência quando está em combate. No universo Star Wars, durante o período da República, as diferenças são incorporadas, o ambiente se adapta, as tecnologias trazem soluções e a sociedade acolhe. Esse é um dos elementos que mais me encanta na saga, para falar a verdade.

De fato, na ficção científica é possível encontrar muitos exemplos interessantes sobre possibilidades para corpos com deficiência. Aqui tive a intenção de falar um pouco destas outras formas de representação, além de dizer o quanto Star War é incrível.

Sim, sou fã. Que a Força esteja com você.

A deficiência na figura mais linda do mundo

Imagem dividida ao meio na vertical. Ao lado esquerdo, em tons azuis, a foto de uma estátua feminina nua sem os braços. Ao lado direito, com o fundo rosa, o texto em azul: Ela não tem braços nem mãos, embora o toco da parte superior do braço direito se estenda até o peito. Seu braço esquerdo foi cortado e o rosto muito marcado, com o nariz rasgado na ponta e o lábio inferior arrancado. Felizmente, suas mutilações faciais foram tratadas e são pouco visíveis, exceto por pequenas cicatrizes visíveis apenas de perto. O dedão do pé direito foi cortado e o tronco também está coberto de cicatrizes, uma particularmente grande entre as omoplatas, uma que cobre o ombro e outra que cobre a ponta do peito onde o mamilo esquerdo foi rasgado fora.

No entanto, ela é considerada uma das figuras femininas mais bonitas do mundo. ” (Davis 2004, p 51). Fim da descrição.
Imagem dividida ao meio na vertical. Ao lado esquerdo, em tons azuis, a foto de uma estátua feminina nua sem os braços. Ao lado direito, com o fundo rosa, o texto em azul: Ela não tem braços nem mãos, embora o toco da parte superior do braço direito se estenda até o peito. Seu braço esquerdo foi cortado e o rosto muito marcado, com o nariz rasgado na ponta e o lábio inferior arrancado. Felizmente, suas mutilações faciais foram tratadas e são pouco visíveis, exceto por pequenas cicatrizes visíveis apenas de perto. O dedão do pé direito foi cortado e o tronco também está coberto de cicatrizes, uma particularmente grande entre as omoplatas, uma que cobre o ombro e outra que cobre a ponta do peito onde o mamilo esquerdo foi rasgado fora. No entanto, ela é considerada uma das figuras femininas mais bonitas do mundo. ” (Davis 2004, p 51). Fim da descrição.

Quando encontrei esse trecho senti uma espécie de alívio. Como se encontrasse alguém conhecido em uma festa de gente estranha. Já havia me questionado sobre a “deficiência” da Vênus de Milo.

A origem da Vênus de Milo é cheia de curiosidades. Não há registros definidos sobre o autor, tampouco do motivo de não possuir os braços. Porém, todos concordam ao dizer que ela é uma das mais belas obras de arte do mundo.

Apesar da tentativa de alguns artistas e críticos de arte reabilitarem a estátua, com simulações dos braços “completos”, sua beleza está presente em suas marcas, no equilíbrio estético provocado pela sua “incompletude”.

É preciso compreender a singularidade dos corpos com deficiência como um caminho para questionar a binaridade daquilo que é normal e anormal. Uma vez que em nossa sociedade circulamos entre imagens, símbolos, imaginários diversos sobre padrões de beleza para corpos femininos.

Exemplos como esse nos provoca, tira da zona confortável dos nossos valores. Nos inquieta de uma maneira que só a arte é capaz de fazer. Mas essa conversa fica para outro dia.

O que enxergamos no outro?

O homem que sofre de uma deficiência visível, quanto a ele, não mais pode sair de casa sem provocar os olhares de todos. Essa curiosidade incessante é uma violência tão mais sutil que ela não se reconhece como tal e se renova a cada passante que é cruzado. (p.75)

David Le Breton – A sociologia do corpo

Lembro de quando li este trecho pela primeira vez. Estava em busca de referências para pesquisa, precisava entender mais sobre o que a palavra “corpo” significa. Já a conhecia, aliás todos conhecemos. Somos corpos, afinal. Temos identidades, emoções, memórias, pensamentos. Porém, quando vemos outra pessoa, não enxergamos nada além de um corpo.

Exceto se ela for diferente.

Todos somos observados, nossos olhares transitam por todos os lados. As vezes é difícil controlar o olhar. É como se fôssemos capturados por um instante e, dependendo do nosso interesse, ou surpresa, permanecemos presos e incapazes de desviar o olhar.

O sujeito que encara a diferença do outro assume uma posição de poder, como um avaliador. Contudo, encarar é diferente de admirar. Ao passo que, ser encarado é estar em uma posição vulnerável. Algo que muitas pessoas com deficiência já experimentam em seus dias.

Um caminho para aprender mais sobre as diferenças seria assumir uma postura de abertura, onde o olhar superasse os limites do conhecido e alcançasse a potência de novos aprendizados que só o Outro pode oferecer. O que você acha?

P.S.: Esta citação está na página 75 do livro “Sociologia do Corpo”.

O que aprendemos com o episódio da Havan?

Se há uns quatro anos dissessem que receberia em meu whatsapp um vídeo de um empresário reclamando da obrigatoriedade de acessibilidade em sua loja, provavelmente minha primeira reação seria rir e desacreditar em tamanha audácia. Ninguém seria tão cara de pau assim.

Os anos passaram, as coisas mudaram e hoje vemos que isso não só é possível, como aconteceu. Caso não conheça a história farei um resumo para você: Luciano Hang, o famoso “véi da Havan” fez um vídeo e diversos posts no instagram reclamando das adaptações realizadas em sua nova loja na cidade de Chapecó (SC). Segundo ele, a maioria delas de nada serviam além de “enfeiar” seu negócio.

A publicação viralizou nas mídias sociais, muitos considerando sua fala ofensiva, outros concordando e reforçando suas ideias. Alguns sites da imprensa tentaram contato com a empresa, a qual não se pronunciou. Talvez preferiram se calar por confiarem na próxima “estratégia” de Luciano. Para fazer um contraponto ao barulho da primeira postagem, o empresário convidou o presidente da comissão de pessoas com deficiência da OAB de Sumaré (SP), Jelres Freitas que se manifestou favorável as reclamações de Hang.

Até aí, tudo bem. Você pode pensar. Sempre tem gente para apoiar este tipo de coisa.

Porém Jelres é cadeirante, responsável pela defesa dos direitos de pessoas com deficiência na OAB, que não hesitou em dizer que “pisos táteis atrapalham pessoas com muletas”. Além disso, encerrou sua participação no vídeo com mote principal do movimento das pessoas com deficiência no mundo: “nada de nós, sem nós”.  

O que Luciano expôs no vídeo diz muito da imagem que ele busca construir, porém diz mais ainda de uma cultura capacitista do mercado que muitas pessoas fazem de conta não existir. Um imaginário que envolve a todos, inclusive pessoas com deficiência como Jelres bem demonstrou.

A deficiência ainda é vista como um defeito a ser corrigido no corpo do indivíduo, algo a ser escondido, separado da condição de normalidade a qual todos os corpos estão submetidos. Um padrão que estabelece um grau de eficiência do indivíduo a partir da sua capacidade física, sexual e social. Ou seja, pessoas “normais” são aquelas que conseguem andar, se exercitar, heterosexuais com capacidade de gerar filhos, de tomar decisões e participar integralmente da sociedade.

Esse ser é considerado Sujeito autônomo, enquanto todo aquele que se diferenciar dele é considerado Outro. Segundo uma autora chamada Gayatri Spivak, a subalteridade é o lugar deste Outro e seu direito sempre estará submetido a vontade do Sujeito. Para entender melhor, essa relação é o que permite questionamentos como estes:

Se a maioria das pessoas consegue andar, para que preciso adaptar meu negócio? Para que preciso ter um funcionário com deficiência? Para que uma criança com deficiência vai estudar, se ela não poderá trabalhar ou viver com autonomia?

Ter a liberdade de falar este tipo de coisa, só é possível quando existe uma confiança em não sofrer retaliações. Ainda que Luciano sofra algum processo, por mais necessário que seja, infelizmente não será suficiente porque isso ainda será o combate a uma ferida e não ao que causou o ferimento.

Na mesma semana em que liberou esse vídeo, a Havan se tornou uma das patrocinadoras do Vasco, time de futebol no Rio de Janeiro. As camisas estão disponíveis a venda na loja, dias após muitos dizerem boicotar a empresa. Será que os vascaínos vão aderir?

Acessibilidade arquitetônica não é um assunto encerrado ou menos importante, é um tema em constante ameaça. Rampas, pisos táteis, banheiros adaptados, cinemas com audiodescrição são necessários para nossa autonomia. Considerá-los dispensáveis é ignorar o estabelecido pela Lei Brasileira de Inclusão (LBI), no artigo 53º:

A acessibilidade é direito que garante à pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida viver de forma independente e exercer seus direitos de cidadania e de participação social.

Se encontramos um ou outro lugar acessível é por causa da obrigatoriedade da lei, não por benevolência do empresariado. Mesmo com a lei, quantas vezes você, pessoa com deficiência, já ouviu a seguinte frase “ah, aqui não tem adaptação porque nunca vem ninguém com deficiência”?

Esse episódio representou muito bem como foi o 2019 para pessoas com deficiência no país. Demonstrou como pequenos acenos às nossas demandas não são suficientes. É necessário comprometimento e responsabilidade. Nem sempre nossos iguais nos representam, nem toda promessa é inquebrável, por esse motivo nem tudo está garantido. Enquanto projetos de lei insistirem em flexibilizar (ou extinguir) nossas conquistas, continuaremos sendo a minoria que sempre terá de se curvar a maioria.

O ponto positivo dessa história, por sinal deste ano, foi observar como as entidades e associações de pessoas com deficiência se mobilizaram nas adversidades. Talvez isso seja um indício de que é possível resistir, mesmo quando tudo parece ser maior do que nós. Que essa união permaneça em 2020 e enquanto houver pessoas como Luciano por aí.

Mulheres clandestinas

A noite estava uma delícia. Um encontro de amigas virtuais regadas a muita piada, curiosidade e histórias inusitadas. Entre um caso e outro, reflexões sobre nossas experiências como mulher com deficiência, apesar de uma de nós não ter esse “local de fala”. Estava ali de olhos e ouvidos atentos como uma boa amiga feminista costuma ficar quando se vê diante de outra mulher.

Em um certo momento da conversa, entre uma citação de Foucault e outra (afinal, garotas acadêmicas), minha querida amiga Patrícia Guedes começa a compartilhar uma de suas histórias afetivas. “Teve um rapaz que fiquei, mas pediu para não contar pra ninguém. Não queria que os outros soubessem”.

Claro que me identifiquei com esse relato, porém o que me deslocou veio em seguida. “Mas é aquela história, né? Nós somos as clandestinas. As que ninguém quer assumir”.

Você já observou como as coisas ganham força quando a nomeamos? É como se certos sentimentos ficassem orbitando nossas ideias e, quando dizemos seus nomes desenrolam como um novelo de lã. Olhamos aquela linha extensa, vemos sua origem e a melhor maneira de lidar com eles.

Quando Paty nos nomeia como “clandestinas” não só facilita entender esse lugar que ocupamos, como também nos ajuda a perceber vários outros sentimentos conflitantes oriundos dessa posição.

Quantas e quantas vezes recebi mensagens de homens casados/comprometidos com cantadas, elogios excessivos, convites e mais convites para encontros casuais.

Quantas vezes homens se diziam interessados, mas jamais saíam comigo.

Que não queriam relacionamento sério, mas na semana seguinte apareciam namorando uma garota sem deficiência.

Desejam meu corpo pelas redes sociais, mas no mundo real sou apenas uma “boa amiga”, “uma mulher incrível”, “alguém para ficar no coração”.

A pior dessas histórias é lembrar que a ausência de um afeto verdadeiro me fez aceitar essas promessas, e cada uma das vezes eu me senti um lixo.

Pensar que, talvez, essa seria (ou é) a única maneira de ter alguma experiência sexual possível porque não haverá outras possibilidades.

Porque para muitas mulheres com deficiência esse é um dos fantasmas quando o assunto é relacionamento. É não saber quando teremos outra história, é lembrar que possivelmente irá experimentar uma longa solidão até encontrar alguém novamente.

Ser clandestina é não ser escolhida para nada, ao mesmo tempo em que está disponível para tudo. É ansiar uma posição, um acolhimento. É ser reconhecida como alguém que merece atenção. Que está ali não apenas para ser desejada sexualmente, também emocionalmente.

Ser clandestina é gozar de uma liberdade estranha. É poder fazer tudo, menos o que realmente quer.

Depois que me descobri clandestina, confesso que me doeu. Aliás, ainda dói. A verdade faz isso com a gente, né? Nos inquieta, confunde tudo aqui dentro.

Tento não me julgar pelas escolhas que fiz, até porque ainda não sei se saí completamente do lugar de clandestinagem. Fico pensando em quanto desse processo de amor-próprio que tanto pregamos por aí realmente dá conta dessas realidades mais duras que vivenciamos.

Como esperar que alguém clandestino se ame e recuse histórias que possivelmente nunca terá em outro momento? Falamos tanto em esperar o tempo certo, a pessoa certa e desconsideramos o quanto viver é breve. Às vezes o que nos resta é só o agora.

Precisamos falar mais sobre relacionamentos para pessoas com deficiência considerando o problema desse tipo de experiência. Não é apenas culpar a mulher por ser a outra, ou não ter autoestima. Isso nada tem a ver com não se valorizar, pois trata mais de uma recusa social de ver o corpo com deficiência como lugar de relações afetivo-sexuais-humanas.

Fiquei pensando o quanto isso se trata de escolher ter liberdade sexual, mas você só pode escolher quando tem opções, caso contrário sua “escolha” nada mais é do que imposição. Conversando com a Patrícia, ela me presenteia mais uma vez com a seguinte reflexão:

“Eu acho que a gente é privada das duas coisas, sabe? Da liberdade sexual e do afeto. Nem o desejo, nem o afeto a gente pode exercer livremente.”

Fico muito incomodada quando vejo discursos que não entendam esse lugar. Devemos ter cuidado conosco? Claro. Mas antes, vamos discutir sobre essa e esta situação de opressão? Porque só assim para conseguirmos nos apropriar desse empoderamento.

Até lá, continuaremos na clandestinagem, escondidas e sendo chacotas para piadas na roda de bar. “Fulano é tão pegador que ficou até com aquela menina cadeirante”.

Pois é. A cadeirante sou eu.


Agradecimento mais do que especial à Patrícia Guedes pela conversa, pela provocação tão necessária e inspiração cotidiana no Twitter. Faça um favor a você e segue ela: https://twitter.com/paty_kisses?s=09

Crédito da imagem: Chas Ray Krider