Beleza de quem?

“Mas o mapa da feiura também era marcado por doenças, sem contar os casos de quem tivesse o azar de nascer com alguma deformidade. A dita desgraça tinha preferência em ser associada aos pés largos e grandes, à cabeleira mal penteada ou rala, aos olhos sem brilho ou demasiadamente pequenos.”

História da Beleza no Brasil. Denise B. de Sant’Anna

O trecho acima é do livro “História da Beleza no Brasil”, da autora Denise B. de Sant’Anna. Nesse capítulo, intitulado “Feios de Doer”, ela aborda como eram retratadas as mulheres consideradas feias na virada para o século XX. Porém, infelizmente ainda encontramos rastros desse tipo de pensamento, seja em conversas cotidianas, ou nos discursos políticos na TV.

Infelizmente, falar de beleza ainda é considerado um tema fútil por estar associado ao mercado da moda, de produtos estéticos e comércio. Entretanto, não dá para ignorar que a deficiência produza modos de invisibilizar os sujeitos e, por isso motivo, tem relação direta com a autoestima de mulheres com deficiência.

Chamamos atenção de olhares curiosos, paternalistas e religiosos. Esse azar de “nascer com alguma deformidade” se repete nas expressões que costumamos ouvir: “se acontecesse comigo não sei o que faria”. 

Quando ouço esse tipo de coisa, tenho vontade de dizer: “e você realmente acha que nasci sabendo?” Claro que não.

Sentir-se bem consigo, não é só se achar bonita. Você constrói sua própria forma de ser, mas não dá para encontrar paz se todas as imagens e ideias de corpo ideal te fazem viver em guerra com o espelho. Por isso, precisamos trazer a deficiência ao debate sobre corpo feminino, para entender como o capacitismo está impregnado nos padrões de beleza.

Imagem de destaque

Conheça a atriz Liz Carr ou Como evitar cripface em filmes e séries

É, eu sei. O título desse texto ficou enorme, porém em minha defesa precisava colocar tudo o que o trabalho da Liz representou para mim e, talvez seja o mesmo para você.

Se você não me conhece, precisa saber do meu gosto por filmes de ficção científica, fantasia, distopia e afins para entender melhor esse texto. Raramente assisto outro tipo de estilo, apenas por indicação ou curiosidade mesmo. Nesse tipo de histórias costumo me desprender da realidade, sabe? Imaginar novos cenários, futuros possíveis ou possibilidade de existência.

Dito isso, dia desses estava assistindo o filme “Infinite” lançado esse ano (2021) com os atores Mark Wahlberg e Chiwetel Ejiofor como personagens principais. O longa foi inspirado no romance “The Reincarnationist Papers”, de D. Eric Maikranz, que narra a história de pessoas que possuem o dom de lembrar de suas vidas passadas. Com o passar dos anos, após alguns conflitos foram separadas em dois grupos: os Infinites e os Niilistas. O primeiro via na reencarnação uma possibilidade de evolução, já o segundo se sentiam presos à existência eterna, por isso pretendiam destruir toda a humanidade para romper esse ciclo.

Foto na horizontal de uma cena do filme. A esquerda está o ator Chiwetel Ejiofor (homem negro de terno preto) em pé, segurando uma bala de revólver enquanto olha para o ator Mark Wahlberg (homem branco de jaqueta preta) sentado do outro lado da mesa. O cenário é escuro e possui algumas janelas com grades. Fim da descrição.
Cena de tensão entre os personagens principais. Descrição no texto alternativo.

Tirando a deliciosa interpretação do Chiwetel no papel de vilão inescrupuloso, não me senti tão empolgada com o filme. Na verdade, achei um pouco exagerado em algumas cenas, porém enquanto assistia, eis que me surpreendo com a aparição de uma mulher cadeirante entrando na cena. Inicialmente imaginei ser alguma atriz conhecida fazendo cripface, porém quando a câmera se posicionou frontalmente, eis que para minha surpresa era a atriz Liz Carr, uma mulher com deficiência “de verdade”.

Chamamos de cripface a prática capacitista de utilizar atores sem deficiência para interpretar personagens com deficiência. O termo ganhou popularidade a partir das mobilizações de ativistas PcD contra roteiristas de grandes produções e estúdios de cinema.

Quando vi Liz em cena me veio um sentimento agridoce.

Ao mesmo tempo em que fiquei empolgada com sua personagem – uma cientista responsável pelo departamento tecnológico dos Infinitos – me peguei pensando em como a nossa invisibilidade social provoca feridas em nosso inconsciente, que nos leva a considerar raras aparições de pessoas com deficiência em propagandas, filmes e séries um grande evento. Porém, ao mesmo tempo me pergunto: como não se animar?

Descrição resumida. Foto em formato horizontal de uma cena do filme. O cenário é uma sala em formato arredondado com janelas. Mark está olhando para Liz enquanto duas mulheres ao fundo os acompanha. Ela é branca, tem cabelo branco curto, usa blusa azul de gola alta e óculos de armação preta. Está sentada em uma cadeira motorizada olhando para Mark. No rodapé da imagem está a frase "Garrick é nossa mestre de tecnologia e pesquisa". Fim da descrição.
Liz Carr interpreta a cientista Garrick. Descrição no texto alternativo.

Quem é Liz Carr?

Atriz britânica, comediante, apresentadora e ativista internacional dos direitos das pessoas com deficiência, Carr já é conhecida pela participação na série da BBC “Silent Witness”, em seu papel como a examinadora forense, Clarissa Mullery. Assumiu o papel desde 2012, encerrando sua participação no começo de 2020. Em entrevista para a BBC, disse que tinha dúvidas em como a produção iria desenvolver as gravações com a presença de um profissional com deficiência no set.

Ao longo dos oito anos de filmagem, conseguiu ajustar o roteiro sempre que apareciam algumas falas problemáticas. Em entrevista para a BBC disse “Fui questionada se eu estava orgulhosa do que alcançamos em termos de representação na série. Oh, meu Deus, é claro que estou.”

Descrição resumida. Cartaz da série "Silent Witness" da BBC com os nomes dos atores na parte superior. Ocupando o centro da imagem estão 4 atores brancos, um homem de terno, Liz usando uma camisa florida, sentada na cadeira de rodas, ao seu lado direito uma mulher loira de sobretudo azul escuro e um homem usando jaqueta e calça jeans escura. No fundo a vista de uma cidade com alguns prédios.
Cartaz da série “Silent Witness”. Descrição no texto alternativo.

A atriz também faz parte de vários grupos de comédia britânicos, como o “Abnormally Funny People”, o podcast “Ouch! Podcast” e, trabalhou como pesquisadora para o painel de comédia da BBC, “Have I Got News for You”.

Cadeirante, desde os sete anos de idade, Liz relata suas experiências com a deficiência de forma cômica para provocar a plateia dos seus shows.

“Tive algumas broncas, o que é fantástico… Pareço muito frágil para algumas pessoas, então é como todo estereótipo que você não esperava. As pessoas geralmente parecem apavoradas. ‘Oh meu Deus, ela vai ser engraçada? Podemos rir disso?’”, diz a atriz.

Atuante no ativismo pelos direitos das pessoas com deficiência há mais de 25 anos, Liz Carr faz parte do Not Dead Yet UK, grupo de pessoas com deficiência que se opõem ao suicídio médico assistido.

Em busca de outros enredos

Com a justificativa (para não dizer, desculpa) de não encontrar bons atores com deficiência para realizar os papéis, o cripface contribui para sustentar os discursos de tragédia e/ou superação nos enredos, uma vez que constroem narrativas em que o personagem ora adquire deficiência após um acidente, doença ou castigo, ora possuem um sonho ou memória de quando não possuía deficiência.

Porém, nos últimos anos temos visto algumas produções que trazem personagens com deficiência em filmes e séries, como o caso de “Special”, “Fuga”, “3%” que saem um pouco dos discursos capacitistas de vitimismo, superação e tragédia. Ou seja, existem alternativas criativas para construir boas narrativas onde pessoas com outras corporalidades estejam presentes em cena.

Sim, eu sei. Ainda é muito pouco.

Porém, da mesma forma que a ausência de pessoas LGBTQIA+, negras e mulheres é reivindicada por vários artistas nas redes sociais, ativistas com deficiência constantemente se mobilizam para expor os danos que essa invisibilidade provoca no imaginário social.

Quanto mais atrizes e atores como Liz ocuparem as telas, teremos mais oportunidade de falar sobre temas importantes a nossa vivência com deficiência como acesso a saúde e educação de qualidade, sexualidade e relações afetivas, acessibilidade e o uso de tecnologias assistidas no cotidiano, dentre outras questões tão relevantes quanto.

Por ora, deixo a dica para verem Liz em cena. Além de saciar o desejo ativista de ver uma mulher cadeirante fazendo um papel super bacana, você pode curtir um filme nas horas vagas.

Incrível, não é? Se tiver outras dicas, deixe aqui nos comentários.


Fontes:

https://lizcarr.co.uk/

https://biographymask.com/liz-carr/

https://twitter.com/thelizcarr

Ouça Frida

Querida, Frida. 

Perdoe-me a intimidade, mas de tanto me ver em suas imagens acabo me atrevendo a pensar que temos algum tipo de conexão. Espero que não se importe. 

Tanta coisa aconteceu desde sua partida. O mundo revirou-se tantas vezes, unindo-se e dividindo em nações e poderes sem o menor sentido. O ser humano ainda permanece como uma pequena parte de um grande jogo de tabuleiro. 

Nós, mulheres, ainda estamos na luta. Aliás, quando não estivemos? Hoje temos um meio capaz de nos unir, tornando as distâncias mero detalhe. Chamamos de internet. É uma rede virtual onde construímos nossas identidades nas chamadas “medias sociais” e ali compartilhamos nossas ideias. 

O feminismo, lembra-se dele? Hoje consegue alcançar diversas mulheres fortalecidas pelos seus princípios de igualdade e empoderamento. Muitas artistas se tornaram símbolo do movimento, mas você é o que chamamos de “deusa feminista”. 

Seu rosto se tornou um ícone, uma espécie de senha para nos reconhecermos. Suas obras, história, tudo o que fez para nós virou uma referencia do que pretendemos alcançar. De alguma maneira ou de outra.

Entretanto, minha querida, infelizmente apagaram um detalhe de sua vida e por esse motivo lhe escrevo esta carta. Sei que seu corpo e suas limitações foram fonte de inspiração e, muitas vezes, de sua dor enquanto mulher. Mas para muitas é o principal ponto de se reconhecer no movimento.

Sua deficiência, bem como a nossa, foi apagada. Toda a história do seu corpo e de sua vida é ignorada nas imagens que a representam em camisetas, xícaras e todo tipo de produto. Suas cicatrizes, fonte de sua força, foram suavizadas. Esquecidas. 

Imagem de ilustração. Quadro da pintora com seu auto-retrato. Ela é branca, de sobrancelhas juntas, cabelos pretos e longos e bigodes. Está chorando, com uma abertura em seu corpo que vai da garganta até a cintura. No lugar dos ossos na coluna estão os fragmentos de uma coluna grega antiga. Ela possui diversos pregos enfiados no corpo. No fundo, um campo verde transmitindo calmaria. Fim da descrição.
Quadro da pintora com seu auto-retrato. Ela é branca, de sobrancelhas juntas, cabelos pretos e longos e bigodes. Está chorando, com uma abertura em seu corpo que vai da garganta até a cintura. No lugar dos ossos na coluna estão os fragmentos de uma coluna grega antiga. Ela possui diversos pregos enfiados no corpo. No fundo, um campo verde transmitindo calmaria. Fim da descrição.

Não sei como se sentiria vendo isso, particularmente considero absurdo. Evitar a lembrança de sua deficiência torna sua obra completamente sem sentido. Sua pintura com a coluna fragmentada esvazia-se da profundidade real quando vejo sua imagem com o corpo todo padronizado e pasteurizado. Aceitaram suas grossas sobrancelhas, suas flores no cabelo, mas rejeitam todo resto.

Talvez você não saiba, contudo hoje nós, mulheres com deficiência, tentamos arduamente sermos vistas como mulheres. Seu trabalho abriu um caminho em sua vida, nós tentamos segui-lo. 

Queremos ser vistas, compreendidas, respeitadas e creio na possibilidade disso, por isso te escrevo. Ouça Frida, sua voz alcançou o mundo, precisamos que seu corpo acompanhe esse caminho.

Buscamos um lugar para nossas colunas tortas, pés pendentes, mãos atrofiadas, corpos gordos… onde nada disso nos limite. Aquele espaço onde ainda seremos mulheres do jeito que somos. 

Sei que posso contar com você. 

Não me estenderei mais nessas linhas, já tomei demais o seu tempo. Até a próxima, minha querida, te vejo nessa jornada.


*Texto originalmente postado no dia 05 de junho de 2018 no site Fala Frida

Card de ilustração

De que mulher estamos falando?

Lembro quando iniciei minhas primeiras leituras sobre feminismo, senti um certo incômodo com a ideia de mulher debatida nas rodas de conversa. Era uma pessoa que não se parecia comigo, desconhecia minha existência apesar de termos a mesma definição de gênero. “E não sou mulher?”, me perguntava. Mais tarde descobri que em 1851, Sojouner Truth, mulher negra, escrava realizou o mesmo questionamento em uma convenção dos direitos da mulher, em Akron, Ohio (EUA) para uma platéia cheia de homens brancos.

“(…) Eu pari 3 treze filhos e vi a maioria deles ser vendida para a escravidão, e quando eu clamei com a minha dor de mãe, ninguém a não ser Jesus me ouviu! E não sou uma mulher? (…)” Sojouner Truth

Antes de Simone de Beauvoir todo o processo social, cultural, político que envolvem o gênero feminino resumir em sua frase “não se nasce mulher, torna-se”, Soujouner já apontava como outros fatores também devem ser considerados quando falamos de “ser mulher”.

Ao começar a falar sobre a ausência de mulheres com deficiência no feminismo, ansiava em chamar atenção para uma realidade que até então não estava inserida na agenda do movimento.

Desde então muita coisa mudou, aliás já estava em processo de transformação. Mulheres com deficiência começaram a falar de si, de suas histórias, pautando novas questões sobre seu corpo e propondo outras reflexões sobre suas experiências com a deficiência. Mulheres sem deficiência se aproximaram, ouviram e construíram pontes. Claro que durante esse processo houveram tensionamentos, incômodos e várias situações de silenciamento. A estrutura não hesitou em nos dizer qual era nosso lugar.

Essa rede de preconceitos, pensamentos conservadores, medo de mudanças impregnam as ações de todos aqueles que nela foram moldados. Por vezes cometemos deslizes seja em uma conversa, ou em uma piada. É constrangedor perceber que não somos tão “desconstruídos” quanto imaginamos, não é?

Da mesma maneira, costumamos cometer o erro de pressupor a existência única daquilo que chamamos de mulher. Quem seria essa pessoa, afinal? Sei que a resposta nos surge quase que automaticamente: ela é branca, cis, heterossexual, não possui deficiência e de classe alta/média. É o que Butler chama de “sujeito do feminismo”. Uma ideia ocidental de um padrão feminino.

Este ideal de mulher nos acompanhou durante todo nosso aprendizado, vimos nos filmes, jornais, novelas e até mesmo em nossas professoras. Aprendemos reconhecê-la após as inúmeras contribuições das feministas negras. Agora acredito que precisamos aprender mais uma coisa com elas: interseccionalidade. Para observarmos as vivências femininas temos falado ultimamente. Será que falamos de todas ou apenas aquelas que conheço?

Ela (interseccionalidade) trata especificamente da forma pela qual o racismo, o patriarcalismo, a opressões de classe e outros sistemas discriminatórios criam desigualdades básicas que estruturam as posições relativas de mulheres, raças, etnias, classes e outras. Além disso, a interseccionalidade trata da forma como ações e políticas específicas geram opressões que fluem ao longo de tais eixos, constituindo aspectos dinâmicos ou ativos do desempoderamento. (O que é interseccionalidade? – Carla Akotirene, p.42)

Nos aventuramos a falar de mulheres, porém não percebemos nossa incapacidade de compreender a infinitude de realidades e pessoas que cabem dentro do que é ser mulher. De que mulher estamos falando? Que mulher é essa que está em seu repertório? Qual é sua cor, sua classe, sua sexualidade, seus sonhos?

Que mulher com deficiência temos falado? É possível generalizar as nossas experiências? A minha vida não é a mesma que a sua, mesmo que você tenha algum tipo de deficiência. Ainda que tenhamos o mesmo diagnóstico, continuaremos sendo diferentes.

Por esta razão, tenho questionado como temos abordado assuntos que são comuns a todas as pessoas. Tomemos, por exemplo, a sexualidade. Falamos sobre direito ao afeto, ao sexo, matrimônio e maternidade a partir de qual perspectiva? Será que não estamos focando apenas nas experiências heterossexuais?

Às vezes, tenho a impressão que pressupomos que toda mulher com deficiência tem o desejo de corresponder aos papéis de gênero feminino, como se esta fosse a única maneira de ser mulher. Acaso toda mulher com deficiência quer casar, namorar e ter filhos? Não será possível ser mulher sem assumir estes lugares?

Como ficam as mulheres trans com deficiência? Lésbicas? Assexuais? São formas de mulheridades que estamos considerando em nossas pautas?

O que proponho aqui é uma reflexão sobre o lugar que buscamos ocupar em nossas lutas. Algo que tenho feito muito ultimamente, sabe? Porque por uma limitação de acesso a diferentes realidades, formas de conhecimento de todos os tipos, acabamos reproduzindo os mesmos argumentos e permanecemos revirando as mesmas questões, sem conseguir avançar em nossa luta.

Se queremos falar de mulher, precisamos encarar o fato de que ser mulher é abordar de uma infinidade de mulheres. São delas, portanto, que devemos falar.

Um corpo a ser encarado

“Ele me olhava com cara de horror!” Foi o que uma seguidora, mulher com deficiência, disse ao me contar como uma criança a observava na rua. Para minha felicidade, ela não se abateu. Afinal, não era a primeira vez que este tipo de reação acontecia, tampouco seria a última. Incomodou-se com a falta de orientação dos pais, que para ela seriam os responsáveis pelas atitudes dos filhos.

Além do processo de desqualificação provocado pelo capacitismo, as mulheres com deficiência experienciam as pressões e exigências de performatividade dos papéis destinados aos corpos femininos provocadas pelo machismo. Por esta razão, algumas mulheres com deficiências sentem-se violadas quando notam este tipo de olhar. Como se fossem despidas diante de uma multidão que insiste em espiar em todas as brechas de seu corpo. Corpos marcados, com escolioses, cicatrizados, “malformados” ou paralisados são aqueles que despertam o olhar invasivo, caretas de espanto, expressões de nojo, medo e curiosidade. Há pessoas que não apenas encaram, mas desejam tocar, sentir a pele daquele outro como se tivesse autorização para isso.

Mulheres com deficiência se reinventam, ou melhor, resistem. Entretanto, quando conseguem construir uma autoestima encontrando algum conforto com a própria imagem, logo são colocadas em um pedestal de “superação” o qual apenas reforça a invisibilidade de todo esse processo de desvalorização que são culturalmente submetidas.

É importante reconhecer que alguns olhares violentam, atravessam a pessoa que os recebe. Precisamos aprender a controlar nossos anseios e educar as crianças para aprender a lidar com as diferenças. Já pensou nisso?

Freaks: a deficiência como espetáculo para as massas

Descrição de imagem: Foto em tons rosa de uma mulher anã usando um vestido do século XIX. Sua expressão é séria, olhando para a direita. Ela está escorando em um toco de madeira. A esquerda, próximo a sua cabeça, o texto “Freaks, a deficiência como espetáculo para as massas”. Fim da descrição.

Nos meados do século XIX, o mundo se encantava com as câmeras e a capacidade delas de registrar imagens de lazer como viagens, encontros familiares e eventos. Além destes temas, outra atividade também ganhava destaque na sociedade e atenção das câmeras: espetáculos com pessoas de aparência e características consideradas diferentes aos padrões da época, conhecidos como “freaks”.

Nas manchetes, eles eram considerados como aberrações da natureza, seres primitivos, exóticos, monstruosos expostos em circos, feiras e museus repletos de um público curioso e ansioso para ver as atrações. Entretanto, quem estava ali, a ser observado, eram pessoas com deficiências visíveis, pessoas gordas, pessoas tatuadas, anões, mulheres com barba e imigrantes que se ocupavam de entreter e alimentar o imaginário do público.

Um dos principais idealizadores destes espetáculos foi P. T. Barnum, com seu “American Museum” na Broadway, em 1842, o qual inspirou os atuais modelos de entretenimento para massas com as suas técnicas de divulgação e apresentação. (se você assistiu ao filme “O Rei do Show” deve se lembrar do personagem principal)

Porém, a realidade é bem menos glamourosa do que foi demonstrado na tela. Grande parte dos “freaks” viviam em condições de pobreza, submetendo-se a explorações das suas diferenças como fonte de renda. Alguns realizavam ensaios fotográficos para vender suas imagens como souvenirs. A maioria usava nomes artísticos sempre acompanhados de textos que enfatizavam o mistério de seus corpos, entretanto a maioria destes termos desqualificavam e animalizavam suas vidas, como “abominável”, “terrível”, “horripilante”, dentre outras.

Existem diversos estudos sobre este fenômeno, com diferentes abordagens sobre o consentimento dos “freaks” neste processo. Contudo, o que podemos aferir é o impacto negativo que o termo “freak” inscreve até hoje nos corpos com deficiências visíveis uma carga de espetacularização das nossas vivências, que supostamente legitima a observação constante e indiscreta.

Referência: BOGDAN, Robert. Picturing disability: beggar, freak, citizen, and other photographic rhetoric. Org. Robert Bogdan, Martin Elks, James A. Knoll. New York: Syracuse University Press, 2012.
TROMP, Marlene. Victorian freaks: the social context of freakery in Britain. Columbus: The Ohio State University Press, 2008.

Imagem com fundo azul e roxo, na parte superior está a frase-título "Anita Malfatti, corpo e arte em questionamento". Ao lado, a imagem de Anita em preto e branco. Ela é branca, aparenta ter 50 anos e usa uma roupa social. Está com uma expressão serena e sorrindo. No rodapé está a marca do blog. Fim da descrição.

Anita Malfatti, corpo e arte em questionamento

Há tempos venho tentando escrever este texto, mas não encontrava o momento adequado para tal. Esperei pela pausa dos acontecimentos, mas com o (des)governo atual será bem difícil encontrarmos espaços para estabilidades.

Além dessas peripécias políticas, por aqui a coisa girou. O mestrado veio com seus infinitos textos recheados de filosofias e prazos minúsculos, como também ativou antigas lembranças e inquietações. Sempre existe um ponto de nossa história onde nos vemos confrontadas por situações que apesar de já terem sido enfrentadas, nos mostra um novo lado desse eterno construir/desconstruir a ser superado.

Nessa confusão toda encontrei um motivo para escrever. Anita Malfatti apareceu, conversou comigo e trouxe aprendizado. Porém, gostaria de explicar uma coisa sobre a escrita a seguir. É que não pretendo fazer análises críticas da arte de Anita, tampouco contar todos os detalhes de sua história, mas tentar trazer a alma desta artista para perto de você e, talvez, inspirar seu modo de ver e viver.

A história e os pincéis de Anita

Foto em preto e branco de Anita Malfatti sorrindo. Ela é branca, aparenta ter 50 anos, está com os cabelos presos em coque, usa colar de pérolas, um blazer branco fechado e um brinco de pedra. Sua expressão é serena e ela olha direto para câmera.
#PraTodosVerem Foto em preto e branco de Anita Malfatti sorrindo. Ela é branca, aparenta ter 50 anos, está com os cabelos presos em coque, usa colar de pérolas, um blazer branco fechado e um brinco de pedra. Sua expressão é serena e ela olha direto para câmera. Fim da descrição.

Anita Malfatti (1889-1964), essa senhora fofa na imagem, foi uma das artistas que fizeram parte da Semana de Arte Moderna em 1922. Sua mostra é considerada um marco para a renovação das artes plásticas no Brasil.

Nasceu em São Paulo, no dia 2 de dezembro de 1889. Filha de Samuel Malfatti, engenheiro italiano e de Betty Krug, descendente de alemães e de nacionalidade norte-americana. Era a segunda filha do casal, porém a única que nasceu com uma atrofia no braço e na mão direita.

Sim, isso mesmo que você acabou de ler: Anita Malfatti era uma mulher com deficiência!

Faço questão de destacar essa característica da artista para guardarmos sua existência como uma referência. Infelizmente, não temos muitos registros de pessoas com deficiência que se destacam na história, por isso cada descoberta como essa merece ser evidenciada.

Acredito que esteja surpresa (o) ao descobrir esse fato. É, eu também fiquei. Mas resolvi falar da artista por outros motivos, como mencionei antes. Não farei um artigo sobre sua vida e obra, deixarei alguns links ao final deste texto para quem se interessar. Destacarei dois momentos de sua história onde me vi tocada de alguma maneira.

O primeiro deles ocorreu quando Anita perdeu o pai muito nova, iniciando uma fase de muitas dificuldades para a família, levando sua mãe a dar aulas de pintura e idiomas para sustentar os filhos. A artista, nessa fase com 13 anos, se viu sem propósito e acreditou na morte como a melhor forma de resolver seus dilemas.

Caminhou até a linha do trem e se deitou debaixo dos dormentes. Ali encontrou o que precisava, não a morte, mas o despertar:


“[…] Nada ainda me revelara o fundo da minha sensibilidade. Resolvi, então, me submeter a uma estranha experiência: sofrer a sensação absorvente da morte. […] Um dia saí de casa, amarrei fortemente as minhas tranças de menina, deitei-me debaixo dos dormentes e esperei o trem passar por cima de mim. Foi uma coisa horrível, indescritível. O barulho ensurdecedor, a deslocação de ar, a temperatura asfixiante deram-me uma impressão de delírio e de loucura. E eu via cores, cores e cores riscando o espaço, cores que eu desejaria fixar para sempre na retina assombrada. Foi a revelação: voltei decidida a me dedicar à pintura.

Anita Malfatti


Uma pedra chamada Lobato

Já o segundo momento e mais conhecido ocorreu quando a pintora participou da Semana de Arte Moderna de 1922, e integrou, ao lado de Tarsila, Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti De Picchia, o Grupo dos Cinco. Durante toda a semana, de 13 a 18 de fevereiro de 1922, o saguão do Teatro Municipal de São Paulo esteve aberto com obras de Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Vicente do Rego Monteiro, Harberg Brecheret, entre outros.

Da esquerda para a direita: Patrícia Galvão (Pagu), Anita Malfatti, Benjamin Peret, 
Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Elsie Houston, Álvaro Moreyra, Eugênia Moreira 
e Maximilien Gauthier – foto: Estação Central do Brasil – durante a exposição de Tarsila do 
Amaral no Rio de Janeiro, em 1929

A mostra foi recebida com espanto e curiosidade, com grande visitação Anita chegou a vender oito quadros. Entretanto, Monteiro Lobato escreveu uma crítica com o título “A propósito da exposição Malfatti”, porém mais conhecida como “Paranoia ou mistificação?”, onde expressou de forma negativa suas considerações sobre as pinturas.

Imagem da pintura de Anita onde retrata uma mulher sentada olhando para o alto. Há predominância das cores amarela, laranja e alguns tons de verde.
A boba. 1915-16. Óleo s. tela (61×50,5). Col. Museu de Arte Contemporânea da USP, SP. #PraTodosVerem Imagem da pintura de Anita onde retrata uma mulher sentada olhando para o alto. Há predominância das cores amarela, laranja e alguns tons de verde. Fim da descrição.

Após a crítica, muitas pessoas reagiram contra a artista. Todos os quadros vendidos foram devolvidos e ela iniciou uma fase de grande ostracismo.


“Depois da exposição Anita se retirou. Foi para casa e desapareceu, ferida. Mulher que sofre, diria depois Mário de Andrade. […] Depois da exposição, da agressão às telas, da devolução dos quadros – e enquanto os futuros modernistas se atualizavam para depois eclodir com força – a pintora, cercada de uma aura de ‘maldita’, viu sua obra ser silenciada. Ela confessaria mais tarde: ‘Então começou o peso do ostracismo. Todo o meu trabalho ficou cortado – alunas, vendas de quadros, e começaram as brigas nos jornais’. Anita Malfatti conhecia agora toda a extensão do fosso que separava as suas obras das acadêmicas locais, […] violara com elas praticamente todos os padrões da arte acadêmica, e ainda alguns sociais”.

Marta Rossetti Batista
BATISTA, Marta Rossetti. Anita Malfatti e o início da arte moderna no Brasil: vida e obra. São Paulo, 1980. Dissertação (Mestrado) – Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – ECA/USP. v. 1. p.196


Corpo e arte em questionamento

Comecei meu mestrado em Comunicação este ano, após um bom intervalo dos estudos acadêmicos. Neste período fora da faculdade, me dediquei ao trabalho, blog e mantendo os boletos e séries em dia.

Estando a maior parte do tempo em casa ou com amigos quando saía fui me habituando a uma zona confortável onde não experimentava a deficiência provocada a falta de acessibilidade nos espaços. Apesar do meu corpo já não “funcionar” como antes por causa do avanço de minha distrofia, ainda assim me sentia funcional com minhas atividades, uma vez que o ambiente era projetado para mim.

Entretanto, quando iniciei meus estudos na UFMG algo mudou. Infelizmente devida a falta de investimento do governo em educação, o repasse de verbas para as universidades federais fica comprometido. A maioria não tem condições de realizar mudanças em suas estruturas, desse modo tentam “aprimorar” o já existente com adaptações possíveis.

Lidar com esta realidade me fez reviver antigos dilemas pessoais. O corpo agora já não é mais o mesmo, portanto minha experiência com o ambiente mudou. Aquela liberdade, ainda que pequena, agora precisa ser acompanhada. Se antes conseguia organizar minhas coisas ou ir ao banheiro sozinha, agora é necessário pedir para alguém fazer isso.

Anita voltou a pintar tempos depois do episódio com Monteiro Lobato, há relatos de que chegou a ilustrar algumas obras do autor apesar da mágoa pelo que aconteceu. De alguma maneira encontrou uma forma de lidar com aquilo, continuou sua arte apesar de continuar sendo incompreendida por todos, inclusive pelo melhor amigo Mario de Andrade.

Enfrentou o preço de ser fiel a si, apesar de tudo. Foi uma das maiores artistas do país, ao mesmo tempo foi fragilizada pela dureza do seu tempo. Foi nessa força que me conectei com sua história.

Algumas pessoas acreditam que nascer com a deficiência traz mais facilidades no processo de aceitação. Seria mais fácil “superar” algo se tem mais tempo para conviver com aquilo. Entretanto, não somos todos eternos aprendizes na vida? Não temos que confrontar-nos todos os dias com questões antigas e insuperadas? Quem seria completo, afinal?

As obras da artista não eram compreendidas pela sociedade porque estavam em outro tempo. O problema não eram suas cores e pinceladas marcantes, seu modo de ver o mundo e representá-lo. Da mesma forma, muitas vezes não nos sentimos pertencentes a um lugar porque ele ainda não está preparado para nós.

Talvez eu não me sinta confortável na UFMG pela falta de acessibilidade no lugar ou quem sabe minhas agruras pessoais em lidar com este novo corpo. De toda forma resolvi abraçar essa vulnerabilidade, não preciso ser uma miss superação que dá conta de tudo na vida.

Acredito na força destes momentos de fragilidade porque neles sempre surge uma oportunidade de entender novos sentidos para nossas vidas. Não precisamos nos prender em um trilho para ver novas cores, mas podemos buscar inspirações nas pequenas coisas do cotidiano. Com o tempo tudo se encaixa ao lugar novamente. ❤


Fontes informações/imagens:

http://www.elfikurten.com.br/2013/05/anita-malfatti-precursora-do-movimento.html

https://cultura.estadao.com.br/noticias/artes,anita-malfatti-100-anos-de-polemica-com-monteiro-lobato,70002125682

https://www.ebiografia.com/anita_malfatti/

https://www.escritoriodearte.com/artista/anita-malfatti

https://www.recantodasletras.com.br/biografias/4769991

Imagem com fundo avermelhado com uma ilustração de uma pessoa andando de bengala em frente a um painel com várias ilustrações de pessoas com deficiência. No meio a frase em branco "Um olhar sobre a deficiência" e no rodapé, também em branco, o logo do blog.

Um olhar sobre a deficiência

Por Amanda Gondim

Oi pra você que está lendo esse texto com seus olhos, espero que seja interessante porque confesso que por conta da minha baixa visão eu levei um tempo maior do que geralmente levaria.

Foto de Amanda estilo selfie. Ela tem cabelos castanhos um pouco ondulados, está com um sorriso delicado. Está usando uma blusa preta e o fundo da imagem sugere que ela está sentada em um banco acolchoado cinza.
#pratodosverem Foto de Amanda estilo selfie. Ela tem cabelos castanhos um pouco ondulados, está com um sorriso delicado. Está usando uma blusa preta e o fundo da imagem sugere que ela está sentada em um banco acolchoado cinza. Fim da descrição.

Bom, eu sou Amanda, mas pessoas me conhecem mais como Gondim. Sou advogada em Direito de mulheres, lgbtqs, a minha causa são os direitos humanos, uma forma de ressignificar o direito na minha vida e viver com um propósito, porém mais recentemente as pessoas com deficiência passaram a estar inseridas na minha percepção de mundo e ser humano.

Pra que isso ocorresse precisei ir além do convívio com essas pessoas durante a vida toda. Precisei viver essa realidade, esse mundo diverso do que fui condicionada a tentar me encaixar nas ilusórias construções sociais de padrões inalcançáveis.

A minha diabetes tipo 1, que caminha comigo desde a infância ativou em mim uma retinopatia diabética proliferativa e então vivo esse processo de perda gradativa da visão desde o ano de 2015 e de lá pra cá me vejo em um mundo diferente e que talvez, se eu não vivenciasse, não reconheceria sua existência. A baixa visão me trouxe uma nova perspectiva sobre a sociedade e como não somos educados para conviver e reconhecer as particularidades dos indivíduos.

Mesmo sendo mulher, advogada em direito de mulheres, lgbts, e ser portadora de diabetes tipo 1, já vivi em meu cotidiano e enfrentei na área profissional e pessoal, situações desumanas e desesperadoras, mas me deparo com esse novo mundo de pessoas que sempre estiveram aí e são invisíveis à sociedade e condicionadas em um capacitismo horrível que remove delas suas particularidades, potencialidades e vontades tornando algumas tentativas de inclusão, uma verdadeira hipocrisia que só nos mostra que a perda dessa habilidade sensorial não é uma tragédia particular e sim social.

Partindo disso, quero mostrar a realidade e o processo de uma pessoa comum em seus enfrentamentos com a baixa visão, e no meu caso, a questão do direito e dos grupos vulneráveis e trazer a informação e desconstrução dos preconceitos sobre as pessoas com baixa visão e as diferentes perspectivas que enriquecem a experiência humana.

Quero deixar uma mensagem positiva à todxs que assim como eu vivenciam situações e experiências sob um olhar ressignificativo. E que ressignificar nossa vida é uma oportunidade incrível. Além de promover a desconstrução desse papel de vítima ou de super-herói que em alguns momentos acabam sendo colocados nas pessoas com deficiência.

Desejo mostrar a realidade desse processo e dar uma voz às pessoas que possuem deficiência. A sociedade ainda esconde a pessoa com deficiência sob pretensões deturpadas de inclusão e os caminhos para que consigamos o respeito e o reconhecimento como pessoas de direitos são a educação, a informação, a inserção nos espaços e a representatividade.

Ilustração: Dadu Shin | Foto: Arquivo pessoal


Amanda é advogada, feminista, ativista em direitos das mulheres, ascendente em áries e umbadista. Arquétipo de Xangô, acredita que o amor é a maior forca que existe e luta pela justiça. Tem diabetes do tipo 1, é deficiente visual e mãe de um gato chamado Ice.

Não é feminismo se não tiver mulheres com deficiência

Sim, já começo a provocação no título, como se fosse um grito no meio da multidão. Daqueles entoados com paixão, com indignação e força para provocar mudanças. Precisamos desses momentos às vezes, não é? Colocar tudo para fora e reorganizar as coisas aqui dentro. Me sinto assim depois de vivenciar dias super intensos no ELLA – Encontro LatinoAmericano Feminista, na cidade de La Plata (Argentina). Emerge em mim uma nova mulher.

Silenciamento ou falta de conhecimento?

Não pretendo com este texto criticar o feminismo, contudo preciso fazer esta provocação para conseguirmos avançar dentro do movimento. Além disso, preciso compartilhar minha experiência com o Ella, pois apesar de passar três dias após meu retorno de La Plata, ainda tenho a sensação de ter vivido um mês naquele lugar.  

#paratodosverem Do lado esquerdo minha imagem de corpo inteiro usando uma blusa verde escura, um lenço verde claro, calça preta e allstar vermelho. Ao fundo um grupo de mulheres em roda atentas ao que estou falando. Estamos em uma quadra de esportes com o piso verde, arquibancada e portas de vidro  ao fundo.
#paratodosverem Do lado esquerdo minha imagem de corpo inteiro usando uma blusa verde escura, um lenço verde claro, calça preta e allstar vermelho. Ao fundo um grupo de mulheres em roda atentas ao que estou falando. Estamos em uma quadra de esportes com o piso verde, arquibancada e portas de vidro  ao fundo. Foto: Divulgação Ella

É lindo estar em um ambiente com mulheres empoderadas, independentes e abertas ao aprendizado. Ouvi histórias lindas de superação pessoal, conquistas antes consideradas impossíveis para algumas. A liberdade de se expor foi única. Notei também a reação de muitas quando relatava as dificuldades que nós experimentamos por causa do capacitismo e machismo. 

Já esperava desconhecimento sobre a deficiência em si, como lidar ou perceber a falta de acessibilidade nos espaços. Sabia também que muitas delas sequer imaginavam o que é ser uma mulher com deficiência, afinal minha “função” ali era trazer esse relato para o debate. Contudo, não deixa de ser incômodo de certa maneira.

Sim, sei que ninguém nasce sabendo. Também sei da ausência de conhecimento e tudo mais. Porém nada disso deixa de ser desagradável às vezes. Ali, fui ouvida, mas e aqui fora? Muitas vezes vejo sites, blogs e páginas limitando as ações do feminismo as negras, gordas, trans, lésbicas e nada sobre nós. 

Somos mulheres. Temos desejos, anseios, medos, inseguranças, sofremos opressão tanto quanto as outras, somos limitadas pela falta de acessibilidade e somos castradas socialmente, uma vez que desconsideram nossa capacidade de construir relações afetivas.

Há um grito contido, silenciado e ignorado por muitas. Há mulheres vivendo sem saber o que é ser mulher. Não se vêem como tal, portanto não entendem como o feminismo seria bom para a vida delas. Aliás, não se vêem no feminismo. Muitas ainda precisam de um apoio para se erguer. 

Aprendi no Ella que os machistas, racistas e capacitistas não passarão. Vi a força e potência da mulher, fui recebida e ouvida com carinho e empatia. Creio que vivi o feminismo de um modo muito bonito. Por isso digo: não admito um movimento que não nos caiba. Faremos barulho, seguiremos unidas e vamos construir um feminismo real e inclusivo.

Só preciso saber de uma coisa: você está comigo?

 

Do auto ódio ao que se dane padrões

Por Manoella Back

 

Você já sentiu ódio de si? Pois este é algo que nos acomete/ acometeu por diversas vezes. Consciente ou inconscientemente. Muitas delas por não corresponder aos sinais fenotípicos ou normalizados por uma sociedade de padrão europeu e sem quaisquer limitações de bom senso.

“Ahhh, mas Manu, todos nós já nos odiamos e blá, blá”… ZZZzzz

Sim, mas somos indesejáveis em algum momento de nossas vidas como naquela escola tida como “de valores” ou “inclusivas” quando colegas e professores são excludentes em suas aulas.

Somos indesejáveis quando empresa “X” te limita aos cargos menos valorizados ou teus colegas te colocam para fazer trabalhos mecânicos e que “não precisam pensar” – sim, eu já ouvi isso! – mesmo sabendo dos seus quereres e capacidades.

Há aqueles que, não importa o teu esforço, não te reconhecem porque meritocracia é coisa para gente reacionária ver e história para boi dormir.

E aquele boy/ girl mega progressista que diz que te ama, te admira (ahaaam, seeeei!) mas que não te assume? Isso é porque você é defiça, meu bem! Isso e mais o auto ódio.

Porque as pernas não se mexem. Ou não se mexem como deveria. Ou porque você não ouve. Não enxerga como “dizem ser para enxergar”. Por causa da ausência de muitas políticas públicas. Por causa de uma mídia que não te representa ou faz uso de humoristas racistas e capacitistas em trabalhos duvidosos e desumanos.

Ou quem não lembra dos anões do Pânico na TV?

Preconceitos e afetos velados.

Descrição: Desenho de uma silhueta feminina em branco com pontilhados para recortar contornando. Ela está sentada em uma cadeira preta. Fim da descrição. Imagem de Stephen Wood

Nosso discurso no espaço privado e micropolítico é silenciado. Quando se é mulher e tem deficiência, nem se fala. Porém, quando você consegue ter força o suficiente para fazer com que sua voz ultrapasse algumas fronteiras receberás aplausos de quem te criticou. Participarás de mesas com educadores ou artistas em que as palavras construção, liberdade de criação, subverter, acolher, respeitar e libertar serão constantes mas, ao atingir, as questões da deficiências, estas mesmas palavras se transformarão em “problema” ao tocar o tema da deficiência ou suas experiências são surrupiadas sem dó, nem piedade. Ou seja, aceitação e inclusão até a página 7.

De novo, nós, submetidas e submetidos às relações de poder normatizadas. Há quem diga constantemente que somos tímidos ou nos pintem “sem querer querendo” como “dóceis”. Mas é a história. De subjugação. É o silenciamento que nos faz estar ou deixar de estar em determinados espaços.

Levantar estas questionamentos me recorda uma passagem de Simone de Beauvoir em O Segundo Sexo em que aponta que “somente as que têm um credo político, que militam em sindicatos, que confiam no futuro, podem dar um sentido ético às ingratas fadigas cotidianas.”  Puxo esta afirmação aos desafios de pessoas com deficiência e minorias para que se promova o poder de questionar o que mundo nos oferta.

Para quem leu ou releu até aqui, sinto desapontar. Os que nos leem com mais frequência por aqui sabem que somos mega bem humorados, mas desta vez, aquelas palavrinhas que podem te deixam com borboletas no estômago não vão rolar. Auto ódio não é brincadeira: são nossas autoestimas e formas de olhar, rir e viver a vida em jogo. Não tenho uma pílula mágica sobre como lidar com o auto ódio. Eu só encontro palavras como imposição e enfrentamento. Em tudo. Para todos.

Há quem me acuse de ressentida ou atribua adjetivos do tipo. Mas quero crer num processo de construção intelectual/ cognitiva em conjunto. Empatia, pode ser, mas só para facilitar o rolê porque ela ainda é uma palavra bonitinha-da-malandragem.

Não tenho respostas porém, faço perguntas: é fácil não nos ressentir frente às atuais conjunturas sociopolíticas que deficientes, mulheres e outras minorias vivem? O que esperar de famílias, amigos, relacionamentos ou governos além do que está [im]posto? O campo dos comentários está aí para que vocês reflitam comigo. Quero é fumacinha saindo de nossas cabeças de tanto pensar. Vem comigo?


Manoella Back é jornalista, especialista em Cultura & Literatura, aquariana-louca-da-astrologia, fã de Harry Potter, samba, teatro, cerveja e MPB. Luta por um mundo melhor por meio da justiça, direitos humanos e promoção da igualdade.