O que as empresas precisam saber sobre embalagens acessíveis

A agência Wunderman Thompson lançou um relatório chamado “The Future 100: Tendências e Mudanças para observar em 2022” apontando o que podemos esperar para os próximos anos. 

Para minha surpresa, (e eu acho que para sua também!), a agência destaca que o uso de embalagens inclusivas será uma realidade cada vez mais exigida pelo público. 

Por mais que algumas empresas estejam preocupadas em promover a diversidade em sua comunicação, não podemos dizer o mesmo quando o assunto é acessibilidade. Não estou falando só de adaptações arquitetônicas, como rampas e elevadores, mas sim de mudanças de comportamento das marcas em relação às pessoas com deficiência. 

Existem diversas maneiras de tornar os produtos e suas embalagens mais acessíveis para o público. Ao aplicar um dos princípios do Design Universal, a Kellogs, por exemplo, disponibilizou uma linha dos seus cereais com braille nas caixas.

A Microsoft também inovou nesse quesito, ao convidar gamers com deficiência para ajudar a montar uma embalagem acessível para o XBox adaptado. Não faz sentido criar um produto para esse público, para entregá-lo em uma caixa difícil de abrir, não é?

O mesmo vale para outros segmentos, como produtos de beleza, higiene pessoal ou de alimentos. Oferecer produtos fáceis de manusear vai favorecer tanto as pessoas com deficiência, quanto aqueles com mobilidade reduzida. 

Ronald Mace. Descrição: Foto em preto e branco de um homem branco com barba, óculos e cabelo liso curto sentado em uma cadeira de rodas. Ele está sorrindo em direção à câmera. Ele usa um terno com gravata de bolinhas. No fundo dá para ver algumas árvores embaçadas.
Ronald Mace. Descrição: Foto em preto e branco de um homem branco com barba, óculos e cabelo liso curto sentado em uma cadeira de rodas. Ele está sorrindo em direção à câmera. Ele usa um terno com gravata de bolinhas. No fundo dá para ver algumas árvores embaçadas.

Em meados de 1985, o arquiteto Ronald Mace desenvolve o conceito de Design Universal. Ele defende que ambientes acessíveis são aqueles aptos a receber pessoas independentemente de suas idades, estaturas, habilidades, condições sensoriais ou físicas. Mais tarde, esse conceito foi aplicado em produtos, equipamentos e serviços. Em 1997, o Centro de Design da Universidade da Carolina do Norte definiu 7 princípios do Design Universal:

  1. Uso equitativo;
  2. uso flexível;
  3. uso simples e intuitivo;
  4. informação perceptível;
  5. tolerância a erros;
  6. baixo esforço físico;
  7. tamanho e espaço para aproximação e uso.

Não basta só chamar pessoas com deficiência para fazer publi. Tem que mudar a cultura da marca para que realmente seja inclusiva para todes. Imagina que incrível se marcar como a Avon, Natura ou Nivea tivessem o nome dos produtos em braille. Não seria demais?


Fontes:

The Future 100: Trends and Change to Watch in 2022. https://www.wundermanthompson.com/insight/the-future-100-2022. Acesso em 04 de abril de 2022.

What Every Brand Needs to Know About Adaptive Packaging. https://www.shutterstock.com/blog/adaptive-packaging-for-brands. Acesso em 04 de abril de 2022.

GOMES, Danila; QUARESMA, Manuela. Introdução ao design inclusivo. 1. ed.- Curitiba: Appris, 2018.

Deficiência ou ineficiência?

Vamos repensar o uso de algumas palavras e expressões capacitistas?

A começar, devemos evitar associar o termo “deficiência” como algo faltando, insuficiente, escasso ou mal feito. Tampouco usar a expressão “(d)eficiência”.

Ter deficiência não quer dizer ausência de eficiência, mas “incapacidade de”.

O termo CAPACITISMO, por exemplo, se sustenta nos ideais normativos de “sujeitos CAPAZES de”, ou seja, pessoas sem deficiência, consideradas saudáveis, que podem trabalhar, exercitar, ter uma família e etc.

Uma pessoa com deficiência pode ser eficiente em qualquer uma dessas atividades, mesmo tendo algum tipo de impedimento físico.

Por isso, dizemos que o contrário de eficiência é ineficiência. Exemplos:

Ao invés de dizer “temos deficiência de dados”, use “nossos dados são insuficientes” ou “nossa coleta de dados é ineficiente”.

Deu para entender? Espero que sim.

A partir de hoje se você continuar usando “deficiência” de forma errada, vou tirar 0,5 ponto, hein?

Brincadeiras à parte, se tiverem dúvidas podem colocar nos comentários que respondo, ok?

Imagem de destaque

Conheça a atriz Liz Carr ou Como evitar cripface em filmes e séries

É, eu sei. O título desse texto ficou enorme, porém em minha defesa precisava colocar tudo o que o trabalho da Liz representou para mim e, talvez seja o mesmo para você.

Se você não me conhece, precisa saber do meu gosto por filmes de ficção científica, fantasia, distopia e afins para entender melhor esse texto. Raramente assisto outro tipo de estilo, apenas por indicação ou curiosidade mesmo. Nesse tipo de histórias costumo me desprender da realidade, sabe? Imaginar novos cenários, futuros possíveis ou possibilidade de existência.

Dito isso, dia desses estava assistindo o filme “Infinite” lançado esse ano (2021) com os atores Mark Wahlberg e Chiwetel Ejiofor como personagens principais. O longa foi inspirado no romance “The Reincarnationist Papers”, de D. Eric Maikranz, que narra a história de pessoas que possuem o dom de lembrar de suas vidas passadas. Com o passar dos anos, após alguns conflitos foram separadas em dois grupos: os Infinites e os Niilistas. O primeiro via na reencarnação uma possibilidade de evolução, já o segundo se sentiam presos à existência eterna, por isso pretendiam destruir toda a humanidade para romper esse ciclo.

Foto na horizontal de uma cena do filme. A esquerda está o ator Chiwetel Ejiofor (homem negro de terno preto) em pé, segurando uma bala de revólver enquanto olha para o ator Mark Wahlberg (homem branco de jaqueta preta) sentado do outro lado da mesa. O cenário é escuro e possui algumas janelas com grades. Fim da descrição.
Cena de tensão entre os personagens principais. Descrição no texto alternativo.

Tirando a deliciosa interpretação do Chiwetel no papel de vilão inescrupuloso, não me senti tão empolgada com o filme. Na verdade, achei um pouco exagerado em algumas cenas, porém enquanto assistia, eis que me surpreendo com a aparição de uma mulher cadeirante entrando na cena. Inicialmente imaginei ser alguma atriz conhecida fazendo cripface, porém quando a câmera se posicionou frontalmente, eis que para minha surpresa era a atriz Liz Carr, uma mulher com deficiência “de verdade”.

Chamamos de cripface a prática capacitista de utilizar atores sem deficiência para interpretar personagens com deficiência. O termo ganhou popularidade a partir das mobilizações de ativistas PcD contra roteiristas de grandes produções e estúdios de cinema.

Quando vi Liz em cena me veio um sentimento agridoce.

Ao mesmo tempo em que fiquei empolgada com sua personagem – uma cientista responsável pelo departamento tecnológico dos Infinitos – me peguei pensando em como a nossa invisibilidade social provoca feridas em nosso inconsciente, que nos leva a considerar raras aparições de pessoas com deficiência em propagandas, filmes e séries um grande evento. Porém, ao mesmo tempo me pergunto: como não se animar?

Descrição resumida. Foto em formato horizontal de uma cena do filme. O cenário é uma sala em formato arredondado com janelas. Mark está olhando para Liz enquanto duas mulheres ao fundo os acompanha. Ela é branca, tem cabelo branco curto, usa blusa azul de gola alta e óculos de armação preta. Está sentada em uma cadeira motorizada olhando para Mark. No rodapé da imagem está a frase "Garrick é nossa mestre de tecnologia e pesquisa". Fim da descrição.
Liz Carr interpreta a cientista Garrick. Descrição no texto alternativo.

Quem é Liz Carr?

Atriz britânica, comediante, apresentadora e ativista internacional dos direitos das pessoas com deficiência, Carr já é conhecida pela participação na série da BBC “Silent Witness”, em seu papel como a examinadora forense, Clarissa Mullery. Assumiu o papel desde 2012, encerrando sua participação no começo de 2020. Em entrevista para a BBC, disse que tinha dúvidas em como a produção iria desenvolver as gravações com a presença de um profissional com deficiência no set.

Ao longo dos oito anos de filmagem, conseguiu ajustar o roteiro sempre que apareciam algumas falas problemáticas. Em entrevista para a BBC disse “Fui questionada se eu estava orgulhosa do que alcançamos em termos de representação na série. Oh, meu Deus, é claro que estou.”

Descrição resumida. Cartaz da série "Silent Witness" da BBC com os nomes dos atores na parte superior. Ocupando o centro da imagem estão 4 atores brancos, um homem de terno, Liz usando uma camisa florida, sentada na cadeira de rodas, ao seu lado direito uma mulher loira de sobretudo azul escuro e um homem usando jaqueta e calça jeans escura. No fundo a vista de uma cidade com alguns prédios.
Cartaz da série “Silent Witness”. Descrição no texto alternativo.

A atriz também faz parte de vários grupos de comédia britânicos, como o “Abnormally Funny People”, o podcast “Ouch! Podcast” e, trabalhou como pesquisadora para o painel de comédia da BBC, “Have I Got News for You”.

Cadeirante, desde os sete anos de idade, Liz relata suas experiências com a deficiência de forma cômica para provocar a plateia dos seus shows.

“Tive algumas broncas, o que é fantástico… Pareço muito frágil para algumas pessoas, então é como todo estereótipo que você não esperava. As pessoas geralmente parecem apavoradas. ‘Oh meu Deus, ela vai ser engraçada? Podemos rir disso?’”, diz a atriz.

Atuante no ativismo pelos direitos das pessoas com deficiência há mais de 25 anos, Liz Carr faz parte do Not Dead Yet UK, grupo de pessoas com deficiência que se opõem ao suicídio médico assistido.

Em busca de outros enredos

Com a justificativa (para não dizer, desculpa) de não encontrar bons atores com deficiência para realizar os papéis, o cripface contribui para sustentar os discursos de tragédia e/ou superação nos enredos, uma vez que constroem narrativas em que o personagem ora adquire deficiência após um acidente, doença ou castigo, ora possuem um sonho ou memória de quando não possuía deficiência.

Porém, nos últimos anos temos visto algumas produções que trazem personagens com deficiência em filmes e séries, como o caso de “Special”, “Fuga”, “3%” que saem um pouco dos discursos capacitistas de vitimismo, superação e tragédia. Ou seja, existem alternativas criativas para construir boas narrativas onde pessoas com outras corporalidades estejam presentes em cena.

Sim, eu sei. Ainda é muito pouco.

Porém, da mesma forma que a ausência de pessoas LGBTQIA+, negras e mulheres é reivindicada por vários artistas nas redes sociais, ativistas com deficiência constantemente se mobilizam para expor os danos que essa invisibilidade provoca no imaginário social.

Quanto mais atrizes e atores como Liz ocuparem as telas, teremos mais oportunidade de falar sobre temas importantes a nossa vivência com deficiência como acesso a saúde e educação de qualidade, sexualidade e relações afetivas, acessibilidade e o uso de tecnologias assistidas no cotidiano, dentre outras questões tão relevantes quanto.

Por ora, deixo a dica para verem Liz em cena. Além de saciar o desejo ativista de ver uma mulher cadeirante fazendo um papel super bacana, você pode curtir um filme nas horas vagas.

Incrível, não é? Se tiver outras dicas, deixe aqui nos comentários.


Fontes:

https://lizcarr.co.uk/

https://biographymask.com/liz-carr/

https://twitter.com/thelizcarr

Descrição da imagem: Card com foto grande em preto e branco de uma mulher branca de cabelos compridos ocupando toda a esquerda. Dentro da cabeça, em tamanho menor, está uma foto em vermelho de uma jovem branca sentada em uma cadeira de rodas dentro de sua cabeça. Ela está gritando com expressão de pavor, enquanto a mulher está serena. À direita, próximo ao rodapé, está uma barra vermelha se esvaindo em direção a foto. Em cima da barra está escrito "Dica de Filme" na cor vermelha. No rodapé à esquerda está a assinatura @disbuga na cor vermelha. Fim da descrição.

Dica de filme: Fuja (Netflix)

Descrição da imagem: Card com foto grande em preto e branco de uma mulher branca de cabelos compridos ocupando toda a esquerda. Dentro da cabeça, em tamanho menor, está uma foto em vermelho de uma jovem branca sentada em uma cadeira de rodas dentro de sua cabeça. Ela está gritando com expressão de pavor, enquanto a mulher está serena. À direita, próximo ao rodapé, está uma barra vermelha se esvaindo em direção a foto. Em cima da barra está escrito "Dica de Filme" na cor vermelha. No rodapé à esquerda está a assinatura @disbuga na cor vermelha. Fim da descrição.
Dica de filme: Fuja (Netflix)

Fazia tempo que um filme não me provocava tanto quanto “Fuja”, novo filme de Sarah Paulson disponível na @netflixbrasil. O suspense conta a história de uma mãe superprotetora que cuida de Chloe, uma adolescente com deficiência, em uma cidadezinha no interior dos Estados Unidos. A história começa com muito mistério em torno do excesso de cuidados, medicamentos e o isolamento social das duas. Porém, ao longo da narrativa vão se desdobrando as consequências deste estilo de vida a medida que Chloe começa a questionar as ações da mãe.

Calma, não pretendo dar spoilers sobre o filme. Aliás, recomendaria um alerta de gatilho na plataforma porque o que se passa na história é um perfeito exemplo de como funciona a violência doméstica em pessoas com deficiência. Se você vive algo semelhante, recomendo não assistir. Ou se o fizer, dê pausas para respirar antes de continuar.

Há uma passagem no filme em que é possível como os agressores articulam sua manipulação para desacreditar a vítima. Quem seria capaz de condenar uma mãe que durante toda vida só quis cuidar bem de sua filha? Aliás, qual familiar não abusaria de vez em quando deste controle?

Infelizmente, vemos muitos casos de verdadeiros cárceres privados disfarçados de proteção. Nisso, o filme fez muito bem em retratar as sutilezas das privações de contato sociais, acesso ao mundo externo e abusos psicológicos.

Outro ponto positivo fica para a escolha da atriz com deficiência @kierajallen que cumpriu muito bem o papel, dando um show de atuação e performance. Foi muito bom ver a personagem encontrando formas de “fugir” das situações impostas pela mãe, demonstrando a importância de saber reconhecer criticamente a diferença do cuidado e da opressão.

Fica a recomendação deste título, mas peço que observem esses detalhes e reflitam sobre eles. Depois me conta o que acharam, combinade?

5 anos de LBI

Descrição da imagem: Card com uma foto em preto e branco de uma mulher negra, cadeirante, segurando um tablet na mão conversando com pessoas sentadas a sua frente. No canto superior a direita tem um retângulo fino na cor azul. Logo abaixo o seguinte texto em branco: 5 anos de criação Lei Brasileira de Inclusão (Lei Federal nº13.146/2015). No canto inferior a esquerda tem um retângulo fino na cor azul. Ao lado, a assinatura @disbuga. Fim da descrição.

No dia 06 de julho de 2015 entrava em vigor a Lei Brasileira de Inclusão (LBI), também chamada de Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015), que pretendia garantir os direitos a saúde, educação, trabalho, assistência social, transporte dentre outros.

A semente da LBI foi lançada no Congresso Nacional, 15 anos atrás, pelo então deputado federal Paulo Paim (PT-RS). Ao chegar ao Senado, ele reapresentou a proposta, que acabou resultando na Lei 13.146/2015. A relatora, na época deputada federal, Mara Gabrilli (PSDB-SP) ajustou o texto original às demandas dos movimentos sociais e aos termos da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (Decreto Legislativo 186/2008), que recomendava a eliminação de qualquer dispositivo que associasse deficiência com incapacidade.

Urge lembrar a importância de um regime democrático para garantia dos direitos das pessoas com deficiência, que viabilize sua participação na tomada de decisões políticas como estabelecido em tratados e convenções internacionais. Por esse motivo, mais do que comemoração é necessário reforçar o combate a um governo instável, arrogante, anti-democrático e violento que ignora o impacto de suas ações na vida de pessoas com deficiência.

Nada de nós, sem nós. Hoje e sempre!

Fonte/Dados: Agência Senado

Descrição: foto de Ieska sentada na cadeira de rodas com um fundo de parede amarela, chão com pedras e uma faixa de grama. Ela está sorrindo olhando para o lado direito, usa óculos escuros com aros vermelhos e suas mãos estão repousadas sobre os joelhos. Ao seu lado, a frase Inhotim para está sobre uma faixa vermelha, seguida da palavra cadeirantes sobre uma faixa azul. Logo abaixo, a frase por Ieska Tubaldini está em uma faixa amarela. Ocupando uma parte da faixa azul e amarela, uma pequena faixa roxa escrito Parte II. Fim da descrição.

INHOTIM PARA CADEIRANTES – parte II

Você chegou aqui e não faz ideia de quem eu sou. Está certo, não te culpo por isso!

Olá! Eu sou a Ieska (com “i”!) e a Fatine me convidou para essa pequena invasão no mês de janeiro. Começamos falando do Instituto Inhotim e pode ser que você encontre mais sentido nisso tudo se começar pela parte 1 desse relato.

Pronto? Então sigamos 🙂

A verdade é uma só: eu não queria sair da Galeria Psicoativa. Nossa motorista perguntou qual era o próximo destino e eu respondi um sincero “qualquer lugar que você quiser me levar, moça”, já que, depois do que eu tinha acabado de viver (incluindo as trilhas de ida e volta pelo meio do mato, lógico), eu me esqueci totalmente do que mais eu queria ver ali.

Analisamos o mapa e decidimos ir à Galeria do Cildo Meireles e é aí que entra, mais uma vez, a simpatia e a disponibilidade do pessoal do Instituto. Não fosse a dica da nossa motorista, eu não teria visto duas obras que eu estava louca para ver: Elevazione, de Giuseppe Penone, e Beam Drop Inhotim, de Chris Burden. Ambas ficam a céu aberto, no caminho entre galerias, e a moça foi muito gentil nos levando até bem pertinho delas e ainda manobrando o carrinho para que eu pudesse fazer as fotos nos melhores ângulos possíveis.

Galeria Cildo Meireles

Nosso último destino com o carrinho privado foi a Galeria Cildo Meireles, pois eu estava doida para experimentar a obra “Desvio para o vermelho”, tanto que eu nem sabia que ela não era a única da galeria e tive mais duas ótimas surpresas chegando lá!

Começamos pela “Glove Trotter”, uma sala escura cujo piso é coberto por bolas dos mais diversos tamanhos sob uma manta de aço. Maravilhosa! Passamos um tempão nessa obra, porque, veja bem, a primeira palavra que eu falei quando era bebê foi “bola” (palavras da minha mãe, não minhas palavras!!!), então, é, o tema da obra me atraiu bastante.

Uma coisa muito legal foi percebermos, mais uma vez, as diferentes visões de cada um sobre uma obra. Eu e meu padrasto batizamos esta de “mundo da bola”. A primeira foto eu que tirei, de cima para baixo, como se eu estivesse vendo esse planeta de uma espaçonave (o efeito da câmera até dá a entender que temos estrelas nesse “céu” escuro!). A segunda, ele tirou, abaixado, como se tivesse aterrissado no planeta e fizesse parte dele. Acho que essas são minhas duas fotos preferidas de todo o passeio!

Descrição: A manta de aço é prateada, iluminada por luzes brancas, dando um aspecto lunar à obra. É possível ver a forma de bolas de diversos tamanhos, dispostas por todo o chão.

Legenda: Cildo Meireles, “Glove Trotter”, 1991. Foto feita por mim.
Descrição: A manta de aço é prateada, iluminada por luzes brancas, dando um aspecto lunar à obra. É possível ver a forma de bolas de diversos tamanhos, dispostas por todo o chão.
Descrição: Por ser tirada de um ângulo mais baixo, a iluminação está mais forte e é possível ver o contorno das bolas sobre o fundo preto das paredes, dando um aspecto de diversas montanhas.

Cildo Meireles, “Glove Trotter”, 1991. Foto feita pelo meu padrasto.
Descrição: Por ser tirada de um ângulo mais baixo, a iluminação está mais forte e é possível ver o contorno das bolas sobre o fundo preto das paredes, dando um aspecto de diversas montanhas.

Depois, chegamos ao que eu tanto queria: a sala vermelha repleta de informação vermelha e sentimento vermelho. Objetos fascinantes, uma bagunça perfeitamente orquestrada. Eu amei demais essa instalação. Não vou mostrar tudo dela porque vocês tem que ir!

Descrição: Foto tirada no espelho de um armário. Estou ao centro, em minha cadeira de rodas, sorrindo. Ao fundo, as paredes brancas da galeria apinhadas de objetos vermelhos, nos mais diversos tons, como quadros, móveis e todo tipo de objeto do cotidiano. O piso também é vermelho.

Legenda: Cildo Meireles, “Desvio para o vermelho”, 1967-1984.
Descrição: Foto tirada no espelho de um armário. Estou ao centro, em minha cadeira de rodas, sorrindo. Ao fundo, as paredes brancas da galeria apinhadas de objetos vermelhos, nos mais diversos tons, como quadros, móveis e todo tipo de objeto do cotidiano. O piso também é vermelho.

Por fim, fomos para “Através”, o chão de vidro. Nessa eu não entrei, por motivos puramente logísticos: meus pneus infláveis não sobreviveriam, rs, mas fiz meus acompanhantes entrarem para eu escutar o som dos cacos. Não basta ser família, tem que participar, né?

O som da Terra

Inhotim é gigante e, em condições “padrão”, já é preciso saber priorizar, porque é impossível ver tudo em um dia só. A essa altura estávamos há cerca de três horas em Inhotim e, com aquele tanto de “sacolejos”, meu corpo já pedia arrego, então era hora de escolher como encerrar o passeio. Algumas das obras que eu queria conhecer estavam em manutenção no dia, assim, a escolhida foi a brilhante “Sonic Pavilion”, de Doug Aitken.

Descrição: À esquerda, meu tênis cor de vinho no apoio de pés da cadeira de rodas. Acima, os tênis pretos do meu padrasto e, abaixo, os tênis azuis claro com cadarços roxos de minha mãe. Estamos cercando um buraco com borda de metal no chão, que é um carpete de madeira.

Legenda: Doug Aitken, “Sonic Pavilion”, 2009. Nossos pezinhos em volta do som da terra
Descrição: À esquerda, meu tênis cor de vinho no apoio de pés da cadeira de rodas. Acima, os tênis pretos do meu padrasto e, abaixo, os tênis azuis claro com cadarços roxos de minha mãe. Estamos cercando um buraco com borda de metal no chão, que é um carpete de madeira.

Eu sou muito ligada à música e a sons de modo geral. Não à toa, essa foi a minha obra favorita junto com o “Forty Part Motet”. Fiquei assim, pertinho dessa abertura no chão escutando a voz que o nosso planeta tem a 200 metros de profundidade. Depois me afastei dele, fechei os olhos e só voltei pro “mundo real” quando me cutucaram para irmos embora. Que experiência!

Despedida… de volta para a favorita

Decidimos voltar para onde começamos, já que aquela obra não saía da nossa cabeça. Ao contrário da primeira vez, onde eu só fiquei parada no centro da sala, dessa vez escolhi rodar pelas caixas de som e parar logo abaixo de uma delas. Estando sentada na minha cadeira, ouvindo o som de baixo para cima, minha sensação era de estar mergulhada em um mar de música. Talvez quem ouça essas vozes em pé, à mesma altura da caixa, tenha uma sensação diferente, e eu acho esse tipo de diversidade simplesmente fantástico! No fim, entre primeira e segunda visitas, passamos cerca de meia hora só na instalação do “Forty Part Motet”.

Valeu?

Muito mais do que eu consigo expressar! Inhotim não é passeio só para quem gosta de arte. Você só precisa gostar de andar por um lugar belíssimo, repleto de plantas, flores, árvores, pavilhões e esculturas interessantes.

Penso que o carrinho foi providencial para o melhor aproveitamento do nosso tempo. Com a cadeira de rodas manual, seria bem cruel tanto para mim pelo piso acidentado quanto pela minha família, que precisaria me levar por todas as subidas e descidas. Também não teria chegado a todos os pontos que cheguei.

Talvez com uma cadeira motorizada seja possível maior autonomia, mas ainda sim recomendo o uso do carrinho e a visita fora da alta temporada, para que o atendimento seja tão diferenciado quanto o que eu tive.

Inhotim pode ser mais acessível do que é, com certeza – uma pequena faixa de asfalto pelas ruas de pedra não prejudicaria a paisagem e ajudaria muito a nossa circulação-, mas, como eu comentei no começo, ele já pratica o tipo de acessibilidade que considero mais importante: a acessibilidade atitudinal.

Saí de lá com o sentimento de que quero voltar mais quantas vezes forem possíveis, para conhecer e revisitar cada cantinho desse espaço inspirador – aceito convites, alô, Inhotim, me chama para resenhar toda a acessibilidade do Instituto, haha!

Assim, no fim das contas, apesar dos problemas que conhecemos muito bem, esse é um lugar que vale muito a pena.

Concorda? Discorda? Conhece Inhotim e teve uma experiência diferente? Conta para a Fati e para mim nos comentários do post e até a próxima aventura acessível! 🙂


Ieska é redatora, microempresária, ariana com lua em leão e tia de duas fofurinhas. Tem atrofia muscular espinhal e cinéfila sim ou com certeza?

Inhotim para cadeirantes

Por Ieska Tubaldini

Como a gente faz quando invade o blog da amiga? Acho que devo me apresentar, né? Isso, tudo bem.

Oi, pessoal! Tudo bem? Feliz ano novo! Muito prazer, eu sou a Ieska (com “i”!) 🙂

Em setembro de 2018 eu realizei um desejo de um tempão: ir para BH conhecer a mulher maravilhosa que criou esse blog e que, muito gentilmente, topou essa minha invasão. Então vamos começar? Decidi seguir a ordem cronológica da minha aventura mineira, por isso hoje vou falar sobre minha visita ao Instituto Inhotim. Nós optamos por dividir esse post em duas partes porque, veja bem, pelo jeito eu falei demais sobre esse lugar incrível, rs.

Inhotim é acessível?

Bom… Depende do que você entende por acessível?

A verdade é que, considerando todo o contexto de Inhotim – um lugar construído para lazer do proprietário, quase um templo particular de arte, em uma cidade pequena do interior de Minas, que antes sequer tinha pretensão de ser aberto ao público -, ele quase é o mais acessível para cadeira de rodas que pode ser. Sim, quase.

Inhotim conta com o que eu, pelo menos, considero o pilar principal da acessibilidade: pessoal treinado e muito disposto a fazer com que a experiência da pessoa com mobilidade reduzida seja a melhor possível.

Ao chegar com a minha família (nunca siga o caminho mais rápido proposto pelo seu gps, ele vai te mandar para uma estrada de terra e, sabemos, nada poderia ser mais terrível para nossas colunas), não precisamos sequer buscar ajuda antes de um funcionário surgir com um carrinho (daqueles de golfe que, tenho certeza, você também sempre quis usar) para nos levar até a recepção do instituto.

Cadeirante chegando em Inhotim

Eu poderia inserir uma foto da minha chegada em Inhotim, mas ela não foi exatamente bonita ou confortável, rs.

O piso é de pedra, um pouco melhor do que paralelepípedos, mas não tanto. O carrinho de transporte não conta com equipamento de segurança para travar a cadeira de rodas nele (ponto bastante negativo, que pode ser melhorado) e a minha cadeira de rodas também não tem cinto de segurança, então eu basicamente fiz o caminho me segurando, sendo segurada pelo meu padrasto e, confesso, só não me importando muito com isso, porque estar em Inhotim era um sonho e a gente fica um pouco passional nessas horas.

Ao chegar na recepção, fomos recebidos por funcionários muito simpáticos e muito, muito aptos mesmo a nos ajudar. Tomamos conhecimento que pessoas com mobilidade reduzida (desde cadeirantes até idosos) tem direito a 50 minutos de carrinho à sua disposição e, depois, podem fazer uso gratuito de todos os carrinhos que circulam pelo parque em rotas pré-determinadas, como se fossem linhas de ônibus.

Esse serviço é, geralmente, pago – o carrinho privado, com o motorista à disposição, para 5 pessoas custa R$ 500/diária ou R$ 200 por hora, enquanto os que circulam pelo parque custam R$ 30 por pessoa (você recebe uma pulseira na entrada e ela te dá o direito de pegar o carrinho a qualquer momento e ir para onde ele estiver indo). Você encontra todas as informações sobre isso aqui.

Como eu + um acompanhante tínhamos a gratuidade dos carrinhos com rotas pré-determinadas e estávamos em três pessoas, pagamos R$ 30 para a terceira pessoa e todos tivemos acesso ao serviço.

Nos foi explicado que nem todos os carrinhos tinham espaço para a cadeira de rodas e que iríamos depender disso durante nosso passeio, mas constatamos, no fim, que boa vontade não faltava e que bastava pedir para qualquer funcionário do parque um carrinho acessível que logo aparecia um para nos levar onde quiséssemos.

Importante: nós fomos em uma quinta-feira, fora da alta temporada, quando o parque está bem menos cheio do que costuma, então com certeza esse tipo de disponibilidade aconteceu por causa disso. Em dias mais cheios ou nas férias pode ser que as coisas sejam um pouco mais complicadas.

O presente de boas-vindas

Você gosta muito, muito mesmo de futebol e certamente não está esperando qualquer referência a ele dentro de um museu de arte, até que entra pela primeira porta que este museu te oferece (a Galeria Praça) e… dá de cara com um estádio para 1 milhão de pessoas. Inacreditável, né? Pois foi isso que aconteceu.

É preciso subir por uma rampa de madeira e nós fizemos isso sem a menor ideia do que havia lá em cima. Quase comecei a chorar quando chegamos e eu entendi o que era aquilo. Nessa foto vocês conseguem ter uma ideia do tamanho dessa “maquete”, pelo comparativo com a pessoa que está ao fundo.

Descrição: Maquete de um estádio de futebol circular, na qual constam incontáveis cadeirinhas azuis na arquibancada. É possível ter ideia da dimensão da maquete pelas pernas de uma pessoa, ao fundo, que ocupam o espaço de um único bloco de cadeiras. A foto foi tirada de cima, buscando dar a ideia da profundidade da maquete.

Legenda: Paul Pfeiffer, “Vitruvian Figure”, 2008
Descrição: Maquete de um estádio de futebol circular, na qual constam incontáveis cadeirinhas azuis na arquibancada. É possível ter ideia da dimensão da maquete pelas pernas de uma pessoa, ao fundo, que ocupam o espaço de um único bloco de cadeiras. A foto foi tirada de cima, buscando dar a ideia da profundidade da maquete.

Saindo dessa sala e já pensando que minha vinda já tinha valido a pena, entramos na sala ao lado e… bam, mais um momento mágico: um coral de caixas de som, onde cada caixa reproduz a voz de um integrante do coral da Catedral de Salisbury, Inglaterra. Magnânimo. Você encontra muitas resenhas sobre o que é essa obra e todas as outras que eu vou mencionar aqui. Eu não quero ser repetitiva, nem sou entendedora suficiente de arte, só gosto muito de estar em contato com ela, então vou só me ater ao meu sentimento geral sobre tudo o que vi e, é claro, sobre a acessibilidade de todo o passeio.

Descrição: À esquerda, o meu rosto. Estou sorrindo e olhando para o lado, em direção às caixas de som que estão à direita. É possível ver três das caixas, dispostas lado a lado, sobre pedestais.

Legenda: Janet Cardiff, “Forty Part Motet”, 2001. Tirei essa foto em um dos poucos momentos que me mantive de olhos abertos/existindo nessa dimensão.

Descrição: À esquerda, o meu rosto. Estou sorrindo e olhando para o lado, em direção às caixas de som que estão à direita. É possível ver três das caixas, dispostas lado a lado, sobre pedestais.

Pegamos o carrinho e… moça, por favor, me leva pra ver o Tunga!

Nossa motorista particular para a primeira hora de visita sugeriu que fizéssemos uso do serviço para visitar as galerias de arte mais isoladas ou de difícil acesso. Essa dica foi fundamental, pois eu descobri que a galeria que eu mais queria conhecer seria impossível de acessar a pé – ela é, literalmente, no meio do mato.

A Galeria Psicoativa do Tunga era com certeza um dos principais motivos que me levaram a Inhotim e a minha experiência nela já começou no caminho. Uma cadeirante não costuma ter chance de se ver embrenhada em uma trilha de difícil acesso, eu mesmo nunca tive a expectativa de viver esse tipo de aventura, mas foi exatamente o que aconteceu para chegarmos a essa galeria.

Cheguei completamente quebrada? Cheguei. Mas já estava muito empolgada pela experiência nova? Estava, sim!

Depois de chegar na galeria, ela é 100% acessível para circularmos pelos três pisos. São rampas de madeira bastante amplas e não tão íngremes, de modo que eu, pelo menos, não encontrei qualquer dificuldade e rodei por toda a galeria.

Descrição: Neste detalhe da obra, é possível ver um enorme esqueleto humano, preto e dourado, deitado sobre uma rede e suspenso a, estimo, cerca de 2 a 3 metros de altura.

Legenda: Tunga, “A luz de dois mundos”, 2010. Essa obra já esteve até no Museu do Louvre, em Paris, e certamente é a minha preferida dessa galeria.

Descrição: Neste detalhe da obra, é possível ver um enorme esqueleto humano, preto e dourado, deitado sobre uma rede e suspenso a, estimo, cerca de 2 a 3 metros de altura.

Dica: visitar essa galeria, especialmente, é uma experiência incrível se você estiver em um grupo de pessoas muito diferentes entre si. Eu, minha mãe e meu padrasto não poderíamos ser mais diferentes em relação ao gosto pelos diversos estilos de arte, então tivemos conversas e trocamos comentários MUITO legais mediante as obras de Tunga. Cada um escolheu um jeito de interagir e de sentir as obras. Rimos muito um do outro e, sinceramente, acho um saco quem acha ruim de pessoas que fazem piadas e interpretações diferentes da original, rs.

Saindo de Tunga, duas gratas surpresas… que você vai conhecer na parte 2 desse relato. Aguarde! 😉


Ieska é redatora, microempresária, ariana com lua em leão e tia de duas fofurinhas. Tem atrofia muscular espinhal e cinéfila sim ou com certeza?

Todo mundo quer um match

Ia esperar terminar todas as temporadas antes de escrever este post, mas estava me coçando para falar sobre isso, rs.

Dia desses vi uma pessoa no facebook recomendando o documentário “Undateable” na Netflix. Trata-se de uma série de histórias de pessoas com deficiência enfrentando a dura jornada em busca de um amor. São várias pessoas com todo tipo de síndromes e deficiências mostrando suas rotinas e como lidam com a falta de oportunidade de experimentarem um relacionamento.

Inicialmente, relutei em assistir por temer ser mais uma daquelas narrativas cheias de sentimentalismos e carregadas de dramaticidades, mas achei melhor dar uma chance, já que para criticar uma coisa é preciso conhecê-la antes. Para minha surpresa foi um ótimo engano. Ao invés daquele discurso enfadonho de superação, encontramos ali histórias de pessoas reais com sonhos de vida e desejos como qualquer outra. Entretanto, em função de sua deficiência encontram dificuldades para socializar e, consequentemente, para se relacionar com alguém.

Todo o documentário se passa na Inglaterra, onde alguns sites de relacionamento se propuseram a auxiliar pessoas com deficiência encontrarem “sua alma gêmea”. Ao invés de usarem aplicativos comuns como Tinder, por exemplo, elas recorrem a estas empresas para conseguirem achar alguém compatível com seus perfis. São vários personagens, cada um com um histórico diferente. Há casos mais brandos onde a deficiência não afetou tanto o físico da pessoa, até aqueles em que as doenças causaram várias lesões no corpo. 

Pessoas normais, é claro.

Descrição: Montagem com as fotos dos personagems do documentário. No canto superior esquerdo temos a foto de uma moça loira com regata preta segurando uma placa escrito “soumate”. Ao seu lado direito e ocupando o centro superior da imagem há um quadrado branco com a frase “The Undateables” com letras adornadas e corações rosa dos dois lados da palavra “The”. Do lado superior direito há a foto de uma mulher pequena de óculos e cabelo avermelhado usando regata preta e segurando uma placa preta escrito “man in uniform”. Do lado inferior esquerdo um rapaz de barba e óculos preto usando uma camisa de botões segura uma placa preta com a frase “GSOH”. No meio inferior temos a foto de um homem com óculos preto e camisa xadrez. Ele tem a metade de seu rosto desfigurado. Por fim, no lado direito inferior temos um rapaz usando camisa preta, com o cabelo caindo sobre o rosto. Ele está sorrindo levemente e segura uma placa escrito “R/Ship”. Fim da descrição

O que me atraiu no documentário foi mostrar o lado humano de cada um. As pessoas com deficiência são apresentadas em seu dia a dia, trabalhando e saindo com amigos. Alguns ainda moram com seus pais, mas outros vivem sozinhos recebendo ajuda em pequenas atividades domésticas. Essa pequena dependência não é exarcebada, sendo mostrada com naturalidade. Qualquer um pode precisar de um auxiliar para limpar a casa, não é?

As deficiências e síndromes ocupavam “o seu lugar”, ou seja, são mostradas como uma diferença normal. Como se criasse um parâmetro invisível para o espectador em um discurso “fulano tem dificuldades de expressar seus sentimentos por causa do autismo e por isso fica nervoso com primeiros encontros, mas todos ficamos ansiosos quando vamos conhecer alguém pela primeira vez”.

O valor de um match

O envolvimento com as histórias é impossível devido esse nível de proximidade que criamos com os personagens. Conforme avançamos nos episódios, vamos nos familiarizando com as deficiências de cada um e terminamos sem compreender como alguém não dá uma chance para aquelas pessoas. Por isso considero que Undateable (ou “Os impegáveis” em uma tradução bem livre) é um documentário para quem não tem deficiência. 

Muitas vezes dizemos para vocês, sem deficiência, nossas dificuldades quando falamos sobre relacionamentos. Muitas vezes, alguns na tentativa de diminuir nossas dores costumam dizer “não é bem assim”, “isso é coisa da sua cabeça” e por aí vai. Entretanto, lidar com anos de recusa pode nos causar problemas de autoconfiança, autoestima e de socialização piorando ainda mais as possibilidades de conhecer alguém.

Pessoalmente, acho covardia desconsiderar essa realidade de solidão da pessoa com deficiência. O capacitismo pode destruir uma mente. Nem todos conseguem enfrentá-lo sem ajuda de profissionais ou de familiares. Aliás, na grande maioria dos casos, a família contribui para esse estado de infantilização da pessoa impedindo seu amadurecimento.

Por isso, recomendo que assistam e observem como somos iguais a vocês quando o assunto é o desejo de ser amado. Acredito que é um bom momento para abrir a mente e mudar o olhar. Com certeza vale MUITO a pena!

Uma pequena crítica

Apesar de ser uma ótima oportunidade para refletirmos e expormos nossas dificuldades de relacionamentos, surgiu em mim alguns incômodos enquanto assistia. São eles:

  1. Valorização exagerada sobre relacionamentos: não quero menosprezar aqui a solidão que experimentamos durante nossa vida, tampouco ignorar os sentimentos de cada personagem, mas confesso minha preocupação ao observar tamanha carência em alguns. Apesar de saber como é bom ter alguém ao nosso lado, isso não deve ser nossa única razão de ser. Por isso, mencionei a importância da família em oferecer uma educação que promova a autonomia da pessoa com deficiência. Talvez esse “tom” seja proposital no documentário, mas me incomodou.
  2. A necessidade de “abrir” uma brecha em sites de relacionamentos: neste ponto entra a famosa questão “separar para nivelar”. Ou seja, ainda precisamos estipular cotas para que possamos ter a mesma oportunidade. Eis a importância de se combater os preconceitos atitudinais, desconstruir velhos pensamentos a respeito da deficiência, fazendo com que nossas semelhanças consigam superar as diferenças.
  3. O perigo do mito da relação com iguais: achei muito interessante ver o esforço da empresa em buscar pessoas com dificuldades de aprendizagem para se relacionarem entre si, contudo me preocupou o modo como o espectador sem deficiência pudesse compreender isso. É muito comum ouvirmos pessoas dizerem “ah, você é cadeirante poderia namorar alguém cadeirante também” como não nos restasse outra opção a não ser envolver com nossos pares. Acho importante, entenderem que também temos a opção de nos apaixonar por qualquer um, indo além dos estereótipos.

Tirando isso, não deixe de assistir, hein? 😉

O que podemos fazer?

Certo dia já não conseguia dormir direito. No começo imaginei ser cansaço demais, excesso de preocupações do trabalho refletindo no meu organismo. A noite foi trocada pelo dia e as tarefas não eram executadas com a mesma intensidade. Neste ponto meu alerta ligou, como uma ficha caindo admiti o meu problema: era ansiedade. Lá vamos nós para mais uma terapia.

Imagem de uma mulher de óculos com o rosto virado para esquerda, seus ombros se encontram com as árvores da paisagem formando uma silhueta escura. O fundo é de um céu estrelado com degradês com tons de azul escuro em cima até mais claro embaixo.

Sempre me considerei ansiosa, mas acreditava conseguir conviver com ela, poderia até me ver como alguém “normal”. Contudo, minhas ações foram adquirindo novos significados e como um estalo me vi como uma pessoa super ansiosa. Foi muito estranho perceber isso, porém ao mesmo tempo foi libertador notar o que motivava minhas atitudes para então poder iniciar um processo de mudança.

Sou uma pessoa que ama pensar. Pode parecer estranho dizer isso, mas reflexões são um tipo de lazer para mim. Amo aprender sobre algo, ler e relacionar as informações. O lado negativo disso tudo é o excesso, como tudo na vida, é claro. Há momentos em que gostaria de desligar minha mente um pouco e não pensar em nada. Porém uma das características da ansiedade é este turbilhão de pensamentos, em sua maioria negativos.

Existem muitos gatilhos para acioná-los e isso depende muito da sua história. No meu caso, muito do que me transtorna hoje foi gerado em minha adolescência quando tive minha primeira e mais forte depressão. Apesar dos anos e tratamentos passados ainda permanece em mim (e nos meus dias) aquele monstrinho sussurrando em meu ouvido todas as falhas e desacertos de minha caminhada.

Lidar com ansiedade não é uma tarefa fácil, contudo também não é impossível. É preciso paciência e, apesar da ironia disso é necessário compreender que esta também é um exercício. Sabe, todo mundo tem suas batalhas pessoais. Seus dias de chuva ou tempestades. Por isso, não precisamos passar por estas fases sozinhos.

A terapia me auxilia a identificar o que me faz mal e como meus pensamentos são “mentirosos” às vezes. Quando me vejo diante de um desafio em que racionalmente sou capaz de lidar e minha mente diz o contrário, preciso respirar, dizer para mim “Claro que consigo fazer isso. Já fiz várias vezes e me dei bem em todas elas.” e me jogar. Guimarães Rosa, escritor mineiro, costumava dizer:

O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem

 

É preciso muita coragem para admitir que há algo errado em você, mas principalmente é preciso se amar demais para permitir a mudança. Desistir de você é o primeiro passo para vida deixar de ter significado. Por isso, sugiro cara leitora (ou leitor) que não desista. Respira fundo, busque ajuda e cuide de sua saúde mental.

Será que sou eu?

Começa com uma ideia nova, um frescor de inspiração depois de um longo período sem produzir nada. A novidade nos revigora, dá ânimo para traçar novos planos, sonhar com possibilidades de mudar algo em nossas vidas. Ainda que seja pouca coisa como testar uma nova receita de molho ou mais significativo como mudar de emprego, quando estamos com intenção de buscar novos rumos tudo parece conspirar a favor.

É como se o universo dissesse “vai e arrasa”.

Gif da Beyoncé. Seu rosto é mostrado de cima com uma expressão serena, é possível ver seus cabelos trançados balançando e seus braços abertos. Ela usa um casaco de pele e abaixo está escrito “I slay” (uma gíria que significaria “eu arraso”).

A voz que tudo muda

Quando tudo parece dar certo, surge uma voz com a pergunta mais fatal do universo: será que você dá conta?

Gif de um boneco vermelho balançando os braços como se não soubesse o que fazer

É impressionante a força destruidora da dúvida. Podemos estar certos do que buscamos, mas se por algum motivo duvidarmos disso tudo começa a esvair como um castelo de areia quando recebe o toque das ondas do mar. O projeto é interrompido antes mesmo de ser colocado em prática. Inventamos desculpas para justificar e confirmar os falsos julgamentos. É a síndrome do impostor se fazendo presente em nossas vidas.

Somos todos impostores?

Emma Watson, atriz que fez Hermione em Harry Potter, declarou em uma entrevista à revista Rookie: “Parece que quanto melhor eu me saio, maior é o meu sentimento de inadequação, porque penso que em algum momento, alguém vai descobrir que eu sou uma fraude e que eu não mereço nada do que conquistei”. Esse sensação de ser uma farsa é muito comum, principalmente em mulheres de acordo com um estudo realizado pela psicóloga Gail Matthews, da Universidade Dominicana da Califórnia, nos Estados Unidos, que afirma que esta síndrome atinge em menor ou maior grau 70% dos profissionais bem-sucedidos.

É possível que algumas pessoas com deficiência desenvolvam a síndrome do impostor por acreditarem ser incapazes de desempenhar esta ou tal tarefa por causa de sua deficiência. É claro que precisamos criar adaptações para fazer algumas coisas, porém não há motivo para deixá-las inacabadas. Às vezes não será possível fazer um curso em um espaço por falta de acessibilidade, porém há condições de fazê-lo online, por exemplo. Em alguns casos, deixamos até mesmo de sair de casa para conhecer pessoas por medo do julgamento, ainda que tenhamos certeza do quão interessante nós somos.

Claro que tal síndrome não é exclusividade nossa, tampouco gira somente em torno dos atributos físicos. Geralmente a síndrome está relacionada a algum sentimento de incapacidade, inferioridade que alimentamos há muito tempo. Existem pessoas tímidas demais que se julgam incapazes de realizar algo por medo de exposição, outras pessoas desistem de um emprego por não acreditar ser inteligente o suficiente para o cargo mesmo tendo todas as qualificações para tal. Cada um direciona seu impostor para suas crenças limitantes.

Eu sou uma pessoa que constantemente deixa projetos inacabados, tenho facilidade em elaborar novas ideias, porém não consigo dar prosseguimento nelas. Essa incapacidade me deixa sempre chateada e quando percebo começo a acreditar que realmente não conseguirei sucesso naquilo que busco. Como sou ansiosa, inicio um círculo vicioso de pensamentos ruins centrados em uma única crença de incapacidade construída ao longo dos anos.

Como lidar com isso?

O Buzz Feed fez uma lista muito boa com 17 dicas bem úteis para lidar com isso, você pode vê-la aqui. Pessoalmente, após fazer terapia resolvi tomar algumas atitudes para amenizar minha síndrome:

1 – Fazer um check list: antes de começar minhas atividades, gosto de anotar tudo para ao longo do dia ir conferindo se consegui realizá-las. Dá uma sensação boa ver que ao final do dia fiz a lista toda ou boa parte dela.

2 – Entender o tempo: algumas coisas vão demorar para serem realizadas, mas não quer dizer que estejam paradas. Para evitar a procrastinação o item 1 ajuda bastante.

3 – Se conhecer: não é apenas saber seu nome, mas saber de suas qualidades reais. Observar suas conquistas, sua história e aprender a se valorizar por isso. Se conhecer ajuda no enfrentamento das dúvidas que eventualmente podem aparecer.

4 – Guarde suas conquistas: Uma foto, um email com cliente aprovando e elogiando seu trabalho, seja o que for crie um espaço para te fazer lembrar das suas conquistas quando você duvidar delas.

5 – Não tenha medo de errar: Muitas vezes deixamos de fazer as coisas por medo do erro, medo de sermos vistos como “burros”, porém é importante entender o valor do erro como oportunidade de aprendizado. Sei que vivemos em uma sociedade onde os acertos são celebrados, mas é preciso sair fora do esquema social para não ser refém dele.

6 – Minha deficiência não é algo ruim: Por fim, aceitar a deficiência é FUNDAMENTAL. Não somos incapazes, não somos piores por termos deficiência, portanto não podemos permitir sermos julgados por ela, tampouco nos diminuirmos também.

A síndrome do impostor pode aparecer em sua vida, mas cabe a você acreditar nela ou não. Muitas vezes fazemos as coisas com medo mesmo e ao final descobrimos sermos capazes de ir muito além do que esperávamos. Portanto, não pare. Respira fundo e mantenha a caminhada.

 

Gif de uma mulher de cabelos pretos usando óculos escuro, regata azul com os braços erguidos em posição de força. No fundo azul claro caem pétalas rosa que mudam de cor para o azul.

P.S.: Para fazer este texto eu levei três semanas e fiquei me questionando se deveria fazer mesmo ou não. Mas fiz e espero que gostem dele, assim como gostei de fazer. 😉
Sugestão de leitura e fonte: http://www.huffpostbrasil.com/2014/04/07/7-sinais-de-que-voce-e-uma-das-vitimas-da-sindrome-do-impostor_a_21667908/