Conheça a atriz Liz Carr ou Como evitar cripface em filmes e séries

É, eu sei. O título desse texto ficou enorme, porém em minha defesa precisava colocar tudo o que o trabalho da Liz representou para mim e, talvez seja o mesmo para você.

Se você não me conhece, precisa saber do meu gosto por filmes de ficção científica, fantasia, distopia e afins para entender melhor esse texto. Raramente assisto outro tipo de estilo, apenas por indicação ou curiosidade mesmo. Nesse tipo de histórias costumo me desprender da realidade, sabe? Imaginar novos cenários, futuros possíveis ou possibilidade de existência.

Dito isso, dia desses estava assistindo o filme “Infinite” lançado esse ano (2021) com os atores Mark Wahlberg e Chiwetel Ejiofor como personagens principais. O longa foi inspirado no romance “The Reincarnationist Papers”, de D. Eric Maikranz, que narra a história de pessoas que possuem o dom de lembrar de suas vidas passadas. Com o passar dos anos, após alguns conflitos foram separadas em dois grupos: os Infinites e os Niilistas. O primeiro via na reencarnação uma possibilidade de evolução, já o segundo se sentiam presos à existência eterna, por isso pretendiam destruir toda a humanidade para romper esse ciclo.

Foto na horizontal de uma cena do filme. A esquerda está o ator Chiwetel Ejiofor (homem negro de terno preto) em pé, segurando uma bala de revólver enquanto olha para o ator Mark Wahlberg (homem branco de jaqueta preta) sentado do outro lado da mesa. O cenário é escuro e possui algumas janelas com grades. Fim da descrição.
Cena de tensão entre os personagens principais. Descrição no texto alternativo.

Tirando a deliciosa interpretação do Chiwetel no papel de vilão inescrupuloso, não me senti tão empolgada com o filme. Na verdade, achei um pouco exagerado em algumas cenas, porém enquanto assistia, eis que me surpreendo com a aparição de uma mulher cadeirante entrando na cena. Inicialmente imaginei ser alguma atriz conhecida fazendo cripface, porém quando a câmera se posicionou frontalmente, eis que para minha surpresa era a atriz Liz Carr, uma mulher com deficiência “de verdade”.

Chamamos de cripface a prática capacitista de utilizar atores sem deficiência para interpretar personagens com deficiência. O termo ganhou popularidade a partir das mobilizações de ativistas PcD contra roteiristas de grandes produções e estúdios de cinema.

Quando vi Liz em cena me veio um sentimento agridoce.

Ao mesmo tempo em que fiquei empolgada com sua personagem – uma cientista responsável pelo departamento tecnológico dos Infinitos – me peguei pensando em como a nossa invisibilidade social provoca feridas em nosso inconsciente, que nos leva a considerar raras aparições de pessoas com deficiência em propagandas, filmes e séries um grande evento. Porém, ao mesmo tempo me pergunto: como não se animar?

Descrição resumida. Foto em formato horizontal de uma cena do filme. O cenário é uma sala em formato arredondado com janelas. Mark está olhando para Liz enquanto duas mulheres ao fundo os acompanha. Ela é branca, tem cabelo branco curto, usa blusa azul de gola alta e óculos de armação preta. Está sentada em uma cadeira motorizada olhando para Mark. No rodapé da imagem está a frase "Garrick é nossa mestre de tecnologia e pesquisa". Fim da descrição.
Liz Carr interpreta a cientista Garrick. Descrição no texto alternativo.

Quem é Liz Carr?

Atriz britânica, comediante, apresentadora e ativista internacional dos direitos das pessoas com deficiência, Carr já é conhecida pela participação na série da BBC “Silent Witness”, em seu papel como a examinadora forense, Clarissa Mullery. Assumiu o papel desde 2012, encerrando sua participação no começo de 2020. Em entrevista para a BBC, disse que tinha dúvidas em como a produção iria desenvolver as gravações com a presença de um profissional com deficiência no set.

Ao longo dos oito anos de filmagem, conseguiu ajustar o roteiro sempre que apareciam algumas falas problemáticas. Em entrevista para a BBC disse “Fui questionada se eu estava orgulhosa do que alcançamos em termos de representação na série. Oh, meu Deus, é claro que estou.”

Descrição resumida. Cartaz da série "Silent Witness" da BBC com os nomes dos atores na parte superior. Ocupando o centro da imagem estão 4 atores brancos, um homem de terno, Liz usando uma camisa florida, sentada na cadeira de rodas, ao seu lado direito uma mulher loira de sobretudo azul escuro e um homem usando jaqueta e calça jeans escura. No fundo a vista de uma cidade com alguns prédios.
Cartaz da série “Silent Witness”. Descrição no texto alternativo.

A atriz também faz parte de vários grupos de comédia britânicos, como o “Abnormally Funny People”, o podcast “Ouch! Podcast” e, trabalhou como pesquisadora para o painel de comédia da BBC, “Have I Got News for You”.

Cadeirante, desde os sete anos de idade, Liz relata suas experiências com a deficiência de forma cômica para provocar a plateia dos seus shows.

“Tive algumas broncas, o que é fantástico… Pareço muito frágil para algumas pessoas, então é como todo estereótipo que você não esperava. As pessoas geralmente parecem apavoradas. ‘Oh meu Deus, ela vai ser engraçada? Podemos rir disso?’”, diz a atriz.

Atuante no ativismo pelos direitos das pessoas com deficiência há mais de 25 anos, Liz Carr faz parte do Not Dead Yet UK, grupo de pessoas com deficiência que se opõem ao suicídio médico assistido.

Em busca de outros enredos

Com a justificativa (para não dizer, desculpa) de não encontrar bons atores com deficiência para realizar os papéis, o cripface contribui para sustentar os discursos de tragédia e/ou superação nos enredos, uma vez que constroem narrativas em que o personagem ora adquire deficiência após um acidente, doença ou castigo, ora possuem um sonho ou memória de quando não possuía deficiência.

Porém, nos últimos anos temos visto algumas produções que trazem personagens com deficiência em filmes e séries, como o caso de “Special”, “Fuga”, “3%” que saem um pouco dos discursos capacitistas de vitimismo, superação e tragédia. Ou seja, existem alternativas criativas para construir boas narrativas onde pessoas com outras corporalidades estejam presentes em cena.

Sim, eu sei. Ainda é muito pouco.

Porém, da mesma forma que a ausência de pessoas LGBTQIA+, negras e mulheres é reivindicada por vários artistas nas redes sociais, ativistas com deficiência constantemente se mobilizam para expor os danos que essa invisibilidade provoca no imaginário social.

Quanto mais atrizes e atores como Liz ocuparem as telas, teremos mais oportunidade de falar sobre temas importantes a nossa vivência com deficiência como acesso a saúde e educação de qualidade, sexualidade e relações afetivas, acessibilidade e o uso de tecnologias assistidas no cotidiano, dentre outras questões tão relevantes quanto.

Por ora, deixo a dica para verem Liz em cena. Além de saciar o desejo ativista de ver uma mulher cadeirante fazendo um papel super bacana, você pode curtir um filme nas horas vagas.

Incrível, não é? Se tiver outras dicas, deixe aqui nos comentários.


Fontes:

https://lizcarr.co.uk/

https://biographymask.com/liz-carr/

https://twitter.com/thelizcarr

3 comentários em “Conheça a atriz Liz Carr ou Como evitar cripface em filmes e séries

  1. Grata pelo texto. Assistindo o filme Infinito resolvi buscar algo sobre o elenco porque, de fato, fiquei na duvida se a atriz cadeirante era real, e encontrei aqui. Não a conhecia. Adorei seu texto. O filme é bem exagerado, uma espécie de Velozes e Furiosos kkkk, mas dá pra curtir. Abraços.

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