Ouça Frida

Querida, Frida. 

Perdoe-me a intimidade, mas de tanto me ver em suas imagens acabo me atrevendo a pensar que temos algum tipo de conexão. Espero que não se importe. 

Tanta coisa aconteceu desde sua partida. O mundo revirou-se tantas vezes, unindo-se e dividindo em nações e poderes sem o menor sentido. O ser humano ainda permanece como uma pequena parte de um grande jogo de tabuleiro. 

Nós, mulheres, ainda estamos na luta. Aliás, quando não estivemos? Hoje temos um meio capaz de nos unir, tornando as distâncias mero detalhe. Chamamos de internet. É uma rede virtual onde construímos nossas identidades nas chamadas “medias sociais” e ali compartilhamos nossas ideias. 

O feminismo, lembra-se dele? Hoje consegue alcançar diversas mulheres fortalecidas pelos seus princípios de igualdade e empoderamento. Muitas artistas se tornaram símbolo do movimento, mas você é o que chamamos de “deusa feminista”. 

Seu rosto se tornou um ícone, uma espécie de senha para nos reconhecermos. Suas obras, história, tudo o que fez para nós virou uma referencia do que pretendemos alcançar. De alguma maneira ou de outra.

Entretanto, minha querida, infelizmente apagaram um detalhe de sua vida e por esse motivo lhe escrevo esta carta. Sei que seu corpo e suas limitações foram fonte de inspiração e, muitas vezes, de sua dor enquanto mulher. Mas para muitas é o principal ponto de se reconhecer no movimento.

Sua deficiência, bem como a nossa, foi apagada. Toda a história do seu corpo e de sua vida é ignorada nas imagens que a representam em camisetas, xícaras e todo tipo de produto. Suas cicatrizes, fonte de sua força, foram suavizadas. Esquecidas. 

Imagem de ilustração. Quadro da pintora com seu auto-retrato. Ela é branca, de sobrancelhas juntas, cabelos pretos e longos e bigodes. Está chorando, com uma abertura em seu corpo que vai da garganta até a cintura. No lugar dos ossos na coluna estão os fragmentos de uma coluna grega antiga. Ela possui diversos pregos enfiados no corpo. No fundo, um campo verde transmitindo calmaria. Fim da descrição.
Quadro da pintora com seu auto-retrato. Ela é branca, de sobrancelhas juntas, cabelos pretos e longos e bigodes. Está chorando, com uma abertura em seu corpo que vai da garganta até a cintura. No lugar dos ossos na coluna estão os fragmentos de uma coluna grega antiga. Ela possui diversos pregos enfiados no corpo. No fundo, um campo verde transmitindo calmaria. Fim da descrição.

Não sei como se sentiria vendo isso, particularmente considero absurdo. Evitar a lembrança de sua deficiência torna sua obra completamente sem sentido. Sua pintura com a coluna fragmentada esvazia-se da profundidade real quando vejo sua imagem com o corpo todo padronizado e pasteurizado. Aceitaram suas grossas sobrancelhas, suas flores no cabelo, mas rejeitam todo resto.

Talvez você não saiba, contudo hoje nós, mulheres com deficiência, tentamos arduamente sermos vistas como mulheres. Seu trabalho abriu um caminho em sua vida, nós tentamos segui-lo. 

Queremos ser vistas, compreendidas, respeitadas e creio na possibilidade disso, por isso te escrevo. Ouça Frida, sua voz alcançou o mundo, precisamos que seu corpo acompanhe esse caminho.

Buscamos um lugar para nossas colunas tortas, pés pendentes, mãos atrofiadas, corpos gordos… onde nada disso nos limite. Aquele espaço onde ainda seremos mulheres do jeito que somos. 

Sei que posso contar com você. 

Não me estenderei mais nessas linhas, já tomei demais o seu tempo. Até a próxima, minha querida, te vejo nessa jornada.


*Texto originalmente postado no dia 05 de junho de 2018 no site Fala Frida

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