O que aprendemos com o episódio da Havan?

Se há uns quatro anos dissessem que receberia em meu whatsapp um vídeo de um empresário reclamando da obrigatoriedade de acessibilidade em sua loja, provavelmente minha primeira reação seria rir e desacreditar em tamanha audácia. Ninguém seria tão cara de pau assim.

Os anos passaram, as coisas mudaram e hoje vemos que isso não só é possível, como aconteceu. Caso não conheça a história farei um resumo para você: Luciano Hang, o famoso “véi da Havan” fez um vídeo e diversos posts no instagram reclamando das adaptações realizadas em sua nova loja na cidade de Chapecó (SC). Segundo ele, a maioria delas de nada serviam além de “enfeiar” seu negócio.

A publicação viralizou nas mídias sociais, muitos considerando sua fala ofensiva, outros concordando e reforçando suas ideias. Alguns sites da imprensa tentaram contato com a empresa, a qual não se pronunciou. Talvez preferiram se calar por confiarem na próxima “estratégia” de Luciano. Para fazer um contraponto ao barulho da primeira postagem, o empresário convidou o presidente da comissão de pessoas com deficiência da OAB de Sumaré (SP), Jelres Freitas que se manifestou favorável as reclamações de Hang.

Até aí, tudo bem. Você pode pensar. Sempre tem gente para apoiar este tipo de coisa.

Porém Jelres é cadeirante, responsável pela defesa dos direitos de pessoas com deficiência na OAB, que não hesitou em dizer que “pisos táteis atrapalham pessoas com muletas”. Além disso, encerrou sua participação no vídeo com mote principal do movimento das pessoas com deficiência no mundo: “nada de nós, sem nós”.  

O que Luciano expôs no vídeo diz muito da imagem que ele busca construir, porém diz mais ainda de uma cultura capacitista do mercado que muitas pessoas fazem de conta não existir. Um imaginário que envolve a todos, inclusive pessoas com deficiência como Jelres bem demonstrou.

A deficiência ainda é vista como um defeito a ser corrigido no corpo do indivíduo, algo a ser escondido, separado da condição de normalidade a qual todos os corpos estão submetidos. Um padrão que estabelece um grau de eficiência do indivíduo a partir da sua capacidade física, sexual e social. Ou seja, pessoas “normais” são aquelas que conseguem andar, se exercitar, heterosexuais com capacidade de gerar filhos, de tomar decisões e participar integralmente da sociedade.

Esse ser é considerado Sujeito autônomo, enquanto todo aquele que se diferenciar dele é considerado Outro. Segundo uma autora chamada Gayatri Spivak, a subalteridade é o lugar deste Outro e seu direito sempre estará submetido a vontade do Sujeito. Para entender melhor, essa relação é o que permite questionamentos como estes:

Se a maioria das pessoas consegue andar, para que preciso adaptar meu negócio? Para que preciso ter um funcionário com deficiência? Para que uma criança com deficiência vai estudar, se ela não poderá trabalhar ou viver com autonomia?

Ter a liberdade de falar este tipo de coisa, só é possível quando existe uma confiança em não sofrer retaliações. Ainda que Luciano sofra algum processo, por mais necessário que seja, infelizmente não será suficiente porque isso ainda será o combate a uma ferida e não ao que causou o ferimento.

Na mesma semana em que liberou esse vídeo, a Havan se tornou uma das patrocinadoras do Vasco, time de futebol no Rio de Janeiro. As camisas estão disponíveis a venda na loja, dias após muitos dizerem boicotar a empresa. Será que os vascaínos vão aderir?

Acessibilidade arquitetônica não é um assunto encerrado ou menos importante, é um tema em constante ameaça. Rampas, pisos táteis, banheiros adaptados, cinemas com audiodescrição são necessários para nossa autonomia. Considerá-los dispensáveis é ignorar o estabelecido pela Lei Brasileira de Inclusão (LBI), no artigo 53º:

A acessibilidade é direito que garante à pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida viver de forma independente e exercer seus direitos de cidadania e de participação social.

Se encontramos um ou outro lugar acessível é por causa da obrigatoriedade da lei, não por benevolência do empresariado. Mesmo com a lei, quantas vezes você, pessoa com deficiência, já ouviu a seguinte frase “ah, aqui não tem adaptação porque nunca vem ninguém com deficiência”?

Esse episódio representou muito bem como foi o 2019 para pessoas com deficiência no país. Demonstrou como pequenos acenos às nossas demandas não são suficientes. É necessário comprometimento e responsabilidade. Nem sempre nossos iguais nos representam, nem toda promessa é inquebrável, por esse motivo nem tudo está garantido. Enquanto projetos de lei insistirem em flexibilizar (ou extinguir) nossas conquistas, continuaremos sendo a minoria que sempre terá de se curvar a maioria.

O ponto positivo dessa história, por sinal deste ano, foi observar como as entidades e associações de pessoas com deficiência se mobilizaram nas adversidades. Talvez isso seja um indício de que é possível resistir, mesmo quando tudo parece ser maior do que nós. Que essa união permaneça em 2020 e enquanto houver pessoas como Luciano por aí.

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