Das engrenagens…

Por Manoella Back


Estava eu, serelepe, apressada e atrasadinha para ir ao trabalho.

Alííívio!

Assim que cheguei ao ponto, subi no ônibus. O bom dia para o motorista e cobradora não diminui o teor dos olhares que recebemos quando passamos pela catraca com cartão ou “passe” de gratuidade.

Ora, é de manhã e todo mundo tem pressa, ué?

Eu também a tinha, mas estava “de boas” quando sentei ao lado de uma senhora que não conseguiu disfarçar seu olhar de incômodo por eu ser “jovenzinha” e estar em um assento preferencial. Lá pelas tantas, ela olha para minhas pernas e solta:

– É de nascença, isso aí?

Contive o ser piadista que ia tomando conta de mim e respondi educadinha, já tentando eliminar as perguntas que viriam em posteridade:

– Sim, é de nascença. Tive PC. Nasci prematura. Tenho sequelas. E blá, blá, blá, blá, né….

Ela soltava um “noossaaa” a cada ponto final… (A fácil e amarga história dos “exemplos de superação” né, mores?) Eu “de boas” – olha o Lua em Câncer – ia só ouvindo ela dizer que o neto dela, de nove anos, também nasceu com “essas coisa”. Que ele chorava na escola. Zombavam dele, mas que hoje ele tinha superado.

AHHH, TAAA, NÉ?, pensei. Doeu aqui!

Porque eu sei que o “ser zombado” é para sempre, em diversos teores, nesta sociedade cruel.

As cicatrizes podem diminuir, mas são para sempre.

Eu sei que não é todo mundo que entende isso. E o “não entender” dos outros por pura ignorância ou egoísmo também dói.

Eu respirei fundo e respondi:

“Que bom…”, querendo manter aquele bem estar que só a ilusão é capaz de proporcionar.

A ilusão que o neoliberalismo traz.

A ilusão que te fizeram e fazem acreditar.

Mas eu não faço só poesia dramática, samba e amor.

Lá pelas tantas, interrompendo o silêncio, outra vez a senhora solta:

– Max, tu tá encoxxxtada né, nega? [Quem é do litoral catarinense já ouviu este sotaque ao menos uma vez]

– Não, eu disse. Estou indo trabalhar.

Mas a senhora mandou uns diversos “que absuuuuuuurdoo”.

Eu não perdi tempo. Falei o quanto absurda era a Reforma da Previdência para nós. E que mesmo que revisem algumas questões sobre o BCP*, a Reforma continua ruim para muitos trabalhadores brasileiros, em especial trabalhadoras. Expliquei de forma breve a importância de um Conselho. Disse que o CONADE** foi extinto. Falamos dos manicômios – para minha surpresa ela conhecia a história do Holocausto Brasileiro – conversamos sobre o risco dos manicômios e o quão ruim isto é para quem é diferente do que a sociedade espera, assim como eu, o netinho dela e tantos outros. Que não adiantava a primeira dama fazer discurso em libras e que, na prática, se proclamem retrocessos como estes para quem tem deficiência. Que quem tinha eleito a criatura que nos governa também uma parcela de culpa. Mas que a gente tinha que ficar “de olho” em tudo isso.

Chegou minha hora de descer. “Ganhei” a discussão. Não por ter entoado meu ponto de vista que nem sempre é aceito. Mas por receber olhares da senhorinha que diziam pensar muito. Ela saiu diferente daquele busão que mal ventilava.

Não dá para romantizar o que fiz, obviamente, porque falta. Falta muito! Não estou “encostada”, mas sou um número para uma empresa que preenche vaga de cotas para não pagar multa.

MESMO COM FORMAÇÃO PARA DOMINAR O MUNDO!

É triste. É revoltante. Há um monitorar de sentimentos todos os dias para que se consiga trabalhar e sobreviver. Há um autoconvencer se de que é possível, a cada madrugada insone, dominar o mundo, aquele mesmo das linhas acima.

A aspiração ainda é que este desejo consiga romper com o funcionamento das nossas máquinas porque os corpos – deficientes ou não – não são apenas isto.

Para que a poesia já esteja feita.

E que nos reste o samba e o amor até bem mais tarde!


Manoella Back é jornalista, especialista em Cultura & Literatura, aquariana-louca-da-astrologia, fã de Harry Potter, samba, teatro, cerveja e MPB. Luta por um mundo melhor por meio da justiça, direitos humanos e promoção da igualdade.


*Benefício de Prestação Continuada

**Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência

Imagem ilustrativa de Ari: https://dribbble.com/Made_ByAri

2 comentários sobre “Das engrenagens…

  1. Parabéns Manu vc nao lembra de mim mas eu lembro muito bem de vc família do bem vc tao pequeninha moreninha uma boneca linda muito lindo amei saudades de todos 😍💋

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    1. Olá Izete! Realmente isso já faz uns 20 anos, não é mesmo? Eu era criança, mas lembro de você, sim! Fico muito feliz que tenhas gostado do texto. Muito obrigada!

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