Anita Malfatti, corpo e arte em questionamento

Imagem com fundo azul e roxo, na parte superior está a frase-título "Anita Malfatti, corpo e arte em questionamento". Ao lado, a imagem de Anita em preto e branco. Ela é branca, aparenta ter 50 anos e usa uma roupa social. Está com uma expressão serena e sorrindo. No rodapé está a marca do blog. Fim da descrição.

Há tempos venho tentando escrever este texto, mas não encontrava o momento adequado para tal. Esperei pela pausa dos acontecimentos, mas com o (des)governo atual será bem difícil encontrarmos espaços para estabilidades.

Além dessas peripécias políticas, por aqui a coisa girou. O mestrado veio com seus infinitos textos recheados de filosofias e prazos minúsculos, como também ativou antigas lembranças e inquietações. Sempre existe um ponto de nossa história onde nos vemos confrontadas por situações que apesar de já terem sido enfrentadas, nos mostra um novo lado desse eterno construir/desconstruir a ser superado.

Nessa confusão toda encontrei um motivo para escrever. Anita Malfatti apareceu, conversou comigo e trouxe aprendizado. Porém, gostaria de explicar uma coisa sobre a escrita a seguir. É que não pretendo fazer análises críticas da arte de Anita, tampouco contar todos os detalhes de sua história, mas tentar trazer a alma desta artista para perto de você e, talvez, inspirar seu modo de ver e viver.

A história e os pincéis de Anita

Foto em preto e branco de Anita Malfatti sorrindo. Ela é branca, aparenta ter 50 anos, está com os cabelos presos em coque, usa colar de pérolas, um blazer branco fechado e um brinco de pedra. Sua expressão é serena e ela olha direto para câmera.
#PraTodosVerem Foto em preto e branco de Anita Malfatti sorrindo. Ela é branca, aparenta ter 50 anos, está com os cabelos presos em coque, usa colar de pérolas, um blazer branco fechado e um brinco de pedra. Sua expressão é serena e ela olha direto para câmera. Fim da descrição.

Anita Malfatti (1889-1964), essa senhora fofa na imagem, foi uma das artistas que fizeram parte da Semana de Arte Moderna em 1922. Sua mostra é considerada um marco para a renovação das artes plásticas no Brasil.

Nasceu em São Paulo, no dia 2 de dezembro de 1889. Filha de Samuel Malfatti, engenheiro italiano e de Betty Krug, descendente de alemães e de nacionalidade norte-americana. Era a segunda filha do casal, porém a única que nasceu com uma atrofia no braço e na mão direita.

Sim, isso mesmo que você acabou de ler: Anita Malfatti era uma mulher com deficiência!

Faço questão de destacar essa característica da artista para guardarmos sua existência como uma referência. Infelizmente, não temos muitos registros de pessoas com deficiência que se destacam na história, por isso cada descoberta como essa merece ser evidenciada.

Acredito que esteja surpresa (o) ao descobrir esse fato. É, eu também fiquei. Mas resolvi falar da artista por outros motivos, como mencionei antes. Não farei um artigo sobre sua vida e obra, deixarei alguns links ao final deste texto para quem se interessar. Destacarei dois momentos de sua história onde me vi tocada de alguma maneira.

O primeiro deles ocorreu quando Anita perdeu o pai muito nova, iniciando uma fase de muitas dificuldades para a família, levando sua mãe a dar aulas de pintura e idiomas para sustentar os filhos. A artista, nessa fase com 13 anos, se viu sem propósito e acreditou na morte como a melhor forma de resolver seus dilemas.

Caminhou até a linha do trem e se deitou debaixo dos dormentes. Ali encontrou o que precisava, não a morte, mas o despertar:


“[…] Nada ainda me revelara o fundo da minha sensibilidade. Resolvi, então, me submeter a uma estranha experiência: sofrer a sensação absorvente da morte. […] Um dia saí de casa, amarrei fortemente as minhas tranças de menina, deitei-me debaixo dos dormentes e esperei o trem passar por cima de mim. Foi uma coisa horrível, indescritível. O barulho ensurdecedor, a deslocação de ar, a temperatura asfixiante deram-me uma impressão de delírio e de loucura. E eu via cores, cores e cores riscando o espaço, cores que eu desejaria fixar para sempre na retina assombrada. Foi a revelação: voltei decidida a me dedicar à pintura.

Anita Malfatti


Uma pedra chamada Lobato

Já o segundo momento e mais conhecido ocorreu quando a pintora participou da Semana de Arte Moderna de 1922, e integrou, ao lado de Tarsila, Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti De Picchia, o Grupo dos Cinco. Durante toda a semana, de 13 a 18 de fevereiro de 1922, o saguão do Teatro Municipal de São Paulo esteve aberto com obras de Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Vicente do Rego Monteiro, Harberg Brecheret, entre outros.

Da esquerda para a direita: Patrícia Galvão (Pagu), Anita Malfatti, Benjamin Peret, 
Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Elsie Houston, Álvaro Moreyra, Eugênia Moreira 
e Maximilien Gauthier – foto: Estação Central do Brasil – durante a exposição de Tarsila do 
Amaral no Rio de Janeiro, em 1929

A mostra foi recebida com espanto e curiosidade, com grande visitação Anita chegou a vender oito quadros. Entretanto, Monteiro Lobato escreveu uma crítica com o título “A propósito da exposição Malfatti”, porém mais conhecida como “Paranoia ou mistificação?”, onde expressou de forma negativa suas considerações sobre as pinturas.

Imagem da pintura de Anita onde retrata uma mulher sentada olhando para o alto. Há predominância das cores amarela, laranja e alguns tons de verde.
A boba. 1915-16. Óleo s. tela (61×50,5). Col. Museu de Arte Contemporânea da USP, SP. #PraTodosVerem Imagem da pintura de Anita onde retrata uma mulher sentada olhando para o alto. Há predominância das cores amarela, laranja e alguns tons de verde. Fim da descrição.

Após a crítica, muitas pessoas reagiram contra a artista. Todos os quadros vendidos foram devolvidos e ela iniciou uma fase de grande ostracismo.


“Depois da exposição Anita se retirou. Foi para casa e desapareceu, ferida. Mulher que sofre, diria depois Mário de Andrade. […] Depois da exposição, da agressão às telas, da devolução dos quadros – e enquanto os futuros modernistas se atualizavam para depois eclodir com força – a pintora, cercada de uma aura de ‘maldita’, viu sua obra ser silenciada. Ela confessaria mais tarde: ‘Então começou o peso do ostracismo. Todo o meu trabalho ficou cortado – alunas, vendas de quadros, e começaram as brigas nos jornais’. Anita Malfatti conhecia agora toda a extensão do fosso que separava as suas obras das acadêmicas locais, […] violara com elas praticamente todos os padrões da arte acadêmica, e ainda alguns sociais”.

Marta Rossetti Batista
BATISTA, Marta Rossetti. Anita Malfatti e o início da arte moderna no Brasil: vida e obra. São Paulo, 1980. Dissertação (Mestrado) – Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – ECA/USP. v. 1. p.196


Corpo e arte em questionamento

Comecei meu mestrado em Comunicação este ano, após um bom intervalo dos estudos acadêmicos. Neste período fora da faculdade, me dediquei ao trabalho, blog e mantendo os boletos e séries em dia.

Estando a maior parte do tempo em casa ou com amigos quando saía fui me habituando a uma zona confortável onde não experimentava a deficiência provocada a falta de acessibilidade nos espaços. Apesar do meu corpo já não “funcionar” como antes por causa do avanço de minha distrofia, ainda assim me sentia funcional com minhas atividades, uma vez que o ambiente era projetado para mim.

Entretanto, quando iniciei meus estudos na UFMG algo mudou. Infelizmente devida a falta de investimento do governo em educação, o repasse de verbas para as universidades federais fica comprometido. A maioria não tem condições de realizar mudanças em suas estruturas, desse modo tentam “aprimorar” o já existente com adaptações possíveis.

Lidar com esta realidade me fez reviver antigos dilemas pessoais. O corpo agora já não é mais o mesmo, portanto minha experiência com o ambiente mudou. Aquela liberdade, ainda que pequena, agora precisa ser acompanhada. Se antes conseguia organizar minhas coisas ou ir ao banheiro sozinha, agora é necessário pedir para alguém fazer isso.

Anita voltou a pintar tempos depois do episódio com Monteiro Lobato, há relatos de que chegou a ilustrar algumas obras do autor apesar da mágoa pelo que aconteceu. De alguma maneira encontrou uma forma de lidar com aquilo, continuou sua arte apesar de continuar sendo incompreendida por todos, inclusive pelo melhor amigo Mario de Andrade.

Enfrentou o preço de ser fiel a si, apesar de tudo. Foi uma das maiores artistas do país, ao mesmo tempo foi fragilizada pela dureza do seu tempo. Foi nessa força que me conectei com sua história.

Algumas pessoas acreditam que nascer com a deficiência traz mais facilidades no processo de aceitação. Seria mais fácil “superar” algo se tem mais tempo para conviver com aquilo. Entretanto, não somos todos eternos aprendizes na vida? Não temos que confrontar-nos todos os dias com questões antigas e insuperadas? Quem seria completo, afinal?

As obras da artista não eram compreendidas pela sociedade porque estavam em outro tempo. O problema não eram suas cores e pinceladas marcantes, seu modo de ver o mundo e representá-lo. Da mesma forma, muitas vezes não nos sentimos pertencentes a um lugar porque ele ainda não está preparado para nós.

Talvez eu não me sinta confortável na UFMG pela falta de acessibilidade no lugar ou quem sabe minhas agruras pessoais em lidar com este novo corpo. De toda forma resolvi abraçar essa vulnerabilidade, não preciso ser uma miss superação que dá conta de tudo na vida.

Acredito na força destes momentos de fragilidade porque neles sempre surge uma oportunidade de entender novos sentidos para nossas vidas. Não precisamos nos prender em um trilho para ver novas cores, mas podemos buscar inspirações nas pequenas coisas do cotidiano. Com o tempo tudo se encaixa ao lugar novamente. ❤


Fontes informações/imagens:

http://www.elfikurten.com.br/2013/05/anita-malfatti-precursora-do-movimento.html

https://cultura.estadao.com.br/noticias/artes,anita-malfatti-100-anos-de-polemica-com-monteiro-lobato,70002125682

https://www.ebiografia.com/anita_malfatti/

https://www.escritoriodearte.com/artista/anita-malfatti

https://www.recantodasletras.com.br/biografias/4769991

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