Quem já segue as redes sociais do Disbuga sabe o quanto os últimos dias foram agitados para pessoas com deficiência por causa da polêmica gerada em torno de uma postagem sobre o banimento dos canudos de plástico nos estabelecimentos. Se você não está sabendo o que aconteceu, continue a leitura que vou explicar o que aconteceu.
No dia 10 de julho, Marina começou a expor no Twitter como essa política de banimento dos canudos plásticos prejudicaria a vida das pessoas com deficiência. Foram vários tweets onde ela apresentava justificativas e explicações baseadas em informações sobre tipos de deficiência, produção de lixo e a ausência de inclusão desta medida.

Várias pessoas começaram a expor suas experiências pessoais ou com familiares para endossar a importância da fala de Marina. Foram diversas curtidas e retuites que surpreenderam a própria autora do debate. Entretanto, quando falamos de internet tudo pode acontecer.
Guerra dos Canudos
Como haveria de ser, várias (mas VÁRIAS) pessoas começaram a explicar maneiras de driblar a ausência de canudos, com soluções “sustentáveis” para Marina, como se sua fala reduzisse apenas às suas necessidades. Surgiram diversas opções de canudos de alumínio, bamboo, silicone, de papel, laváveis, biodegradáveis e alguns até apareceram com engenhocas dignas do doutor Buginganga, porém nenhuma dessas pessoas se atentou ao básico de toda discussão: inclusão.

Tal comoção resultou em matérias no Buzzfeed e no G1 de Campinhas que levaram a conversa para além da rede social dando início a uma verdadeira Guerra dos Canudos. De um lado, pessoas supostamente preocupadas com a preservação do meio ambiente. Do outro, pessoas tentando explicar como a medida exclui uma parcela da sociedade. Uma onda de ataques direcionados à Marina fez com que várias pessoas com deficiência rebatessem as mensagens negativas. Foram dias bastante turbulentos, porém muito reveladores.
O show de horrores
“Se quiser por à prova o caráter de um homem, dê-lhe poder” disse Lincoln e nesses dias pude observar a essência desta frase. Foram tantas manifestações singelas e escancaradas de todos os tipos de preconceito, que fica até difícil enumerar aqui. Por esse motivo, vou separar alguns assuntos para facilitar.
- Capacitismo: este é o mais claro e óbvio de todo debate. Diversas pessoas ignoraram a fala de Marina com o falso pretexto de expor soluções ao problema, para simplesmente assumirem suas decisões. Essa atitude é comum nas pessoas sem deficiência, grande parte se acha mais capaz de avaliar nossas necessidades e desqualificam nossos argumentos, considerando-os “má vontade” ou “rebeldia”. Comentários do tipo “nossa, mas você nem tentou fazer tal coisa” ou “ah, mas você também quer o quê?” são típicos exemplos capacitistas. Sem contar, nos ataques diretos à pessoa.
- Machismo: diversas mulheres com deficiência falaram sobre a importância da fala de Marina, expuseram dados e informações relevantes sobre o tema. Entretanto, alguns homens não só ignoraram sua fala, como sequer compartilharam as postagens de outras mulheres. Aliás, é bem comum observar como alguns homens (inclusive com deficiência) desvalorizam nossas falas, assumem nossos protagonismos e ignoram completamente nossas discussões sobre feminismo. Mas, como costumam dizer: nada novo sobre o sol, não é mesmo?
- Ambientalismo fake: Aqui a discussão assume até um caráter jocoso. Foi impressionante observar como as pessoas são incoerentes quando se fala de medidas para salvar o ambiente. Alguns casos é possível notar a falta de conhecimento sobre o processo de produção de lixo, contudo em outros percebemos o esvaziamento do discurso. Ora essas, se você usa um canudo por hobby e não por necessidade real, de nada importa se ele é de bamboo ou inox. Você é apenas um hipster tentando ganhar likes pela postura “sustentável” que tem.
O assunto é inclusão
Essa discussão que Marina propôs é conhecida e arduamente debatida pelas comunidades de pessoas com deficiência nos outros países, tendo como foco o mesmo ponto: inclusão.
Nós não pedimos pela poluição dos oceanos, tampouco somos contra tartarugas, mas questionamos o verdadeiro sentido deste banimento. Retirar um produto de circulação não resolve nem 10% de uma situação grave como a produção de lixo no mundo, apenas dificulta a vida de uma parcela da população.
Inclusão é garantir um modo de vida em que TODA pessoa possa existir sem prejuízo de valor. Encontrar lugares acessíveis (ou minimamente acessíveis) é uma das maiores dificuldades que temos. Há toda uma ansiedade envolvida quando resolvemos sair de casa por causa disso, portanto não é correto nos onerar com mais essa questão.
Não tenho que sair de casa com canudo, porque não é algo que diz respeito somente a mim. Também não diz respeito somente a Marina, afinal não somos as únicas pessoas com deficiência no mundo. Diz respeito a todos.
Infelizmente, bem sabemos que esta discussão vai perder sua força, o banimento vai seguir progressivamente e nós mais uma vez teremos que inserir mais um item em nossas listas. Hoje é o canudo, e amanhã?