Se for para rir, que seja comigo

Há sempre um tema recorrente em discussões em grupos de movimentos sociais: qual o limite da piada? Muitos foram os casos de manifestações inflamadas nas redes sociais contra comediantes que por descuido ou não deslizaram no tom de suas apresentações. Algumas pessoas acreditam no humor desmedido, livre de censuras e moralidades. Outros, defendem a ideia do humor politicamente correto, pois defendem que a origem de muitas piadas está na estrutura preconceituosa de nossa sociedade.

Existem alguns que defendem o auto-riso, fazem de sua experiência mote para diversas tiradas irônicas e sarcásticas como forma de aliviar as dificuldades pessoais. Me vejo neste último caso, não consigo levar a vida sem humor. Entretanto, acredito que tudo tem limite, principalmente quando lidamos com alguém diferente de nós. Somos todos diferentes, afinal.

Me incomoda a cobrança humorística que costumam colocar sobre pessoas com deficiência. É como se fôssemos obrigados a assumir uma posição jocosa e suave na vida, porém já sabemos a origem disso, não é mesmo? De todo modo, pretendo com esse texto mostrar um meio inteligente e muito engraçado de fazer piadas.

Uma vida com deficiência em quadrinhos

Duas irmãs canadenses, Jessica e Liana, resolveram documentar em desenhos divertidos as diversas vivências com deficiência. No tumblr chamado “The Disabled Life” (“A vida com deficiência” em tradução livre) recolhem comentários dos seus seguidores para transformarem em traços e posts engraçados.

Em entrevista para o site Mashable (disponível completa aqui), as irmãs relatam como o humor auxiliou a lidar com os receios e dificuldades encontradas na vida com deficiência.Ambas foram inicialmente diagnosticadas com atrofia muscular espinhal tipo 1 ao nascimento. Por esse motivo, receberam uma expectativa de vida curta devido as possibilidades de problemas respiratórios graves, fazendo todos acreditarem que não viveriam mais do que 2 anos de idade.

“Quando você cresce pensando que já superou sua expectativa de vida, realmente aprende a abraçar o desconhecido”, diz Jessica. “Nossos pais nos criaram para viver o dia a dia e aproveitar o momento. Realmente, nossa deficiência nos ensinou muito sobre paciência e aceitação – e também nos deu um senso de humor terrivelmente sarcástico.”

Descrição: Imagem com fundo branco com a palavra Selfies centralizada na parte superior. Abaixo dois desenhos de uma moça usando cadeira de rodas segurando um celular. Do lado esquerdo, ela faz uma pose para foto. Do direito, o celular cai de sua mão e ela fica aborrecida. Fim da descrição.

É impossível não se identificar com as diversas situações apresentadas no tumblr, mesmo em inglês é possível entender a linguagem corporal das imagens (todas com descrições). Essa universalidade foi uma das características que mais surpreenderam as irmãs quando começaram a receber relatos de seguidores por email. Para Jessica, ” ter uma comunidade que possa se relacionar e compartilhar histórias é uma coisa tão importante. Sempre tivemos a sorte de ter um ao outro para nos apoiarmos, de modo que poder ajudar a dar isso aos outros é incrível”.

Descrição: Imagem com fundo branco. A direita um desenho de um bumbum feminino com o título “How I think my butt looks” (“Como eu acho que minha bunda se parece” tradução livre). A esquerda um desenho de um bumbum pequeno, cheio de furinhos e com coluna torta. Acima a frase “How it probably looks” (“como ele provavelmente se parece” tradução livre) Fim da descrição.

Ria comigo 

Há uma sutil diferença no tom de uma piada realizada por alguém que vivencia a situação, para aquela realizada por alguém fora da condição. A conexão é imediata quando vemos essas imagens porque é o que vivemos. Em meio ao riso há a identificação, o conforto em perceber que mais alguém pensa como nós.

Já falei isso, mas sempre irei repetir: cada pessoa com deficiência é única. Temos pensamentos diversos, nem sempre o que será permitido para um, será para todos. Alguns podem aceitar brincadeiras de estranhos, outros não.

Pessoalmente, apenas aceito meus amigos e familiares tirarem sarro da minha condição. Aos estranhos, observo bem e dependendo da situação recorro ao bom humor para quebrar os gelos iniciais ou para explicar algo sobre deficiência. Alguns ensinamentos possuem melhor resultado quando o outro está relaxado e com a mente aberta.

Assim sendo, da próxima vez que pensar em fazer piada observe se há espaço para isso. Existe uma imensa diferença entre rir de mim e rir comigo.  

 

Imagens utilizadas do site “The Disable life”

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