O capacitismo nosso de cada dia nos dói hoje

O texto de hoje é da Manoella Back (lembram dela?) onde expõe uma experiência bem desagradável, mas que trouxe reflexões interessantes para ela. Vamos conferir?

O que eu mando aqui no Disbuga hoje é um certo sustinho que eu tive exatamente há um ano. Dores. Algumas dores. Sempre defendi que toda pessoa com deficiência carrega dores. Mas as que volta e meia se instalam em mim são as emocionais. Que diga esta minha Lua em Câncer!
Porém aqui, me refiro às últimas dores físicas deste um ano atrás mesmo.

Para quem não sabe, há 16 anos eu fiz uma cirurgia bastante séria e, a grosso modo “colocou minhas pernas tortas no lugar.” Doeu tanto que, no último ano, achei que iria para a faca novamente. Mal estava andando. Mas mais do que as tais dores físicas, foram as feridas emocionais que estavam abertas outra vez. Lembro exatamente como tudo aconteceu, até ter virado “textão” aqui por estas redes.

Descrição: Imagem com fundo preto e várias frases vermelhas em inglês. No meio, um desenho em preto e branco de um jovem cadeirante com uma mão no rosto em uma expressão cansada. Fim da descrição.

Havia feito raio X, soro e algumas horinhas de hospital. Ao entrar no Pronto Atendimento, pedi ajuda para minha mãe caminhar comigo quando a enfermeira veio com “voz de pedagoga de educação infantil”:

– Mamãe, ela é especial?

Fiz a minha maior cara de “WHAT A FUCK?!?”

E a enfermeira continuou como se meu carão de nada servisse: “Ahhhh, é sim! Todos somos especiais, né?” [blá, blá, blá]…

É óbvio que não aguentei, dei piti, daria outro se fosse preciso, discursei o que gostam de chamar de politicamente correto na frente da equipe médica que o meu “problema” não era mental como eles estavam interpretando e que ninguém precisava falar comigo naquele tom. Aliás, mesmo se minha limitação fosse mental, não falariam assim comigo. Aquela forma de tratamento não foi justa. Desde a infância eu passava por isso. Expus meus pontos de vista e projetos de vida afim de que se calassem.

Precisei me reafirmar e mostrar que eu não aceito que me tratem como tola. De novo!

Eu chorei, o povo se escandalizou e eu falei alto. Falaria de novo se fosse preciso. Doeu a alma. Entretanto, como falei para vocês, fui breve.

O que eu quero dizer com tudo isso? O preconceito aparece onde a gente menos espera. As pessoas não estão preparadas para olhar nos olhos e falar com a alma. O fato aconteceu há um ano, mas minha posição ainda se mantém: teria “dado de dedos”, argumentado mais e dado uma “voadeira” porque pacífico é o oceano.

Continuamos rezando a missa de cada dia: não é porque tenho certas limitações físicas, permanentes ou temporárias, que não posso sentir, expressar e me manifestar. Não sou menos humana por isso e nem está tatuado “incapaz” na minha testa. Parece óbvio, mas esta situação deixou claro que nada é tão claro assim. Ou seja, não estou inventando a roda por aqui!

Além de toda essa situação precisei enfatizar para alguns – como se não fosse possível observar – minha deficiência física e que tenho DIREITO a acompanhante no Pronto Atendimento, já que “não estou gestante!”

Descrição: Gif da Alice (personagem do desenho “Alice no País das Maravilhas) batendo os dedos no rosto com uma expressão entediada. Fim da descrição.

Discriminação? Bem sorrateira e inimaginável! Eu poderia ter feito mais, muito mais. Acionar área jurídica, contudo certamente ficou um aprendizado aos profissionais que vieram me pedir desculpas e dizer que eu estava certa depois de tudo aquilo. Outra vez., reafirmação constante.

Fiquei bem, medicada, de repouso por enquanto, mas doida para sair rebolando a raba por aí porque assumi o rótulo de rolezeira e ando abusada mesmo.

As dores do ano passado foram resultado de um esforço físico enorme porque o meu “não para quieta” é um ato de resistência no meio de todas as – possíveis – dores. Por isso, para quem me pede para “quietar o facho”, eu só lamento! Não sei mais seguir regras. (Leia- se Sol em Aquário, rs)! E vou continuar assim porque deficientes não são anjinhos com auréola e sorriso doce. De calada, já chega a Virgem Maria, monamú. (Leia- se vou beber hoje, mas ninguém precisa saber!)

A sensação que fica desta história é de que este é só um passinho do eterno “rasgar-se” e “remendar-se” na cara da sociedade. Por isso, eu continuo aqui. Todos os dias.

Mas isso é papo para a mesa de bar!


Manoella Back é jornalista, especialista em Cultura & Literatura, aquariana-louca-da-astrologia, fã de Harry Potter, samba, teatro, cerveja e MPB. Luta por um mundo melhor por meio da justiça, direitos humanos e promoção da igualdade.

Imagem by tumblr

2 comentários em “O capacitismo nosso de cada dia nos dói hoje

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