O mundo freak de Diane

Nunca escondi meu interesse pelo estudo das imagens, principalmente àquelas que representam pessoas com deficiência. Muito além da minha formação e preferência por design, há um desejo de compreender quais são as intenções e mensagens por trás de tantas fotografias que vemos por aí. A máxima “uma imagem fala mais do que mil palavras” nunca foi tão verdadeira.

Talvez pela força dessa “paixão” muito conteúdo tem surgido para mim, seja em forma de postagem ou citações em artigos. Dessa maneira, muito despretensiosamente conheci o trabalho de Diane Arbus e fiquei me perguntando como vivi tanto tempo sem conhecê-la. Caso você também não a conheça, segue comigo e se impressione com essa contraditória e brilhante fotógrafa.

Prazer, Diane

Descrição: Imagem em preto e branco de Diane segurando uma câmera na altura do peito. Ela é branca, possui cabelo curto e está usando uma camisa de botões e uma bolsa pendurada no braço esquerdo. Ao fundo, vemos imagem de uma praça com pessoas.

Diane Arbus nasceu no dia 14 de março de 1923 em Nova Iorque, foi uma fotógrafa e escritora norte-americana. No início da sua carreira, ao lado do marido, trabalhou em uma agência para diversas edições de revistas de moda na época, entretanto cansou-se deste estilo e buscou produzir algo mais autoral.

Buscou no cotidiano de pessoas marginalizadas sua maior inspiração, através de fotografias em preto-e-branco carregadas de dramaticidade provocada pelos jogos de sombras trouxe estética e beleza ao estranho, tornando-se pioneira do estilo e conhecida como “fotógrafa de aberrações” fazendo popularizar o termo freak usado para representar pessoas esquisitas, fora do que chamamos de corponormatividade.

Infelizmente, apesar do seu brilhantismo profissional, era uma pessoa presa em seus demônios e viveu com depressão durante muitos anos. Em 1971, após sucessivas crises, Arbus suicidou-se. Após sua morte, sua filha cuidou de toda sua obra, lançando coletâneas com imagens conhecidas e algumas inéditas. Isso permitiu que todo seu trabalho popularizasse alcançando novos públicos, o que permitiu se tornar a primeira norte-americana a expor na Bienal de Veneza.

O mundo freak de Diane

Há um boato em que Diane teria confessado a um amigo seu desejo de não ser reconhecida apenas como uma fotógrafa de aberrações. Apesar deste termo ser utilizado para representar sua obra, o considero limitante, pois em suas imagens não há o estranho, mas o real. Havia um esforço em captar a essência dos seus modelos, fazendo-a emergir em seus mundos profundamente, participando de suas vidas, de suas realidades cotidianas.

Buscava um grau de entrosamento com aquelas pessoas, de tal modo que a permitia alcançar o momento exato em que elas passassem a agir de forma livre. Algo que ela chamava de “lacuna entre intenção e efeito”, segundo artigo de Emy Kuramoto:

(…) damos um sinal ao mundo para que pensem em nós de uma certa maneira, mas há um ponto entre o que você quer que as pessoas saibam de você e o que você não pode evitar que elas saibam a seu respeito. E isso tem a ver com o que eu sempre chamei de lacuna entre intenção e efeito. (PHILLIPS, 2003, p. 57, tradução livre da autora)

Essa liberdade permitia também a criação de subjetividades, imagens que beiram o grotesco e o bizarro ou carregam um sentido místico em sua composição. A ausência da simetria ou seu excesso trazem desconforto aos olhos, ao mesmo tempo em que nos hipnotiza. Um dos maiores exemplos é a foto Identical Twins, Roselle, N.J. 1967, capa de uma coletânea publicada após sua morte. A imagem serviu de inspiração para Stanley Kubrick criar as sinistras gêmeas Grady, no filme O Iluminado (1980), e a famosa cena em que elas aparecem assustadoramente.

Descrição: Duas meninas gêmeas idênticas com vestido preto de gola branca, arquinho branco na cabeça. No fundo, uma parede branca com o piso escuro.

Diane registrou travestis, anões, pessoas com deficiência sempre de maneira íntima, como se fosse uma personagem presente ali na cena, apesar de não aparecer nas imagens. Os olhares fixos na câmera nos convida a olhar para aqueles corpos tão diferentes daqueles que encontramos na mídia, certamente opostos dos manequins de moda que a própria fotografou no início de sua carreira. Entretanto, o curioso e, para mim um dos pontos mais belos de sua obra, é universalizar o freak que há em todos nós.

Buscou não a simetria comum nos ensaios, mas aquele momento em que deixamos escapar a lacuna a qual ela se referiu. Nos mostra como somos estranhos, desconfigurados em nosso dia a dia. É aquele olhar que não busca enaltecer a realidade, mas representá-la em sua totalidade.

Descrição da imagem: Travesti se preparando para apresentar. Ela está sem camisa, não possui seios, seu cabelo está curto e as sobrancelhas desenhadas com maquiagem. Ao fundo o camarim com luzes, espelho e roupas penduradas.

A estética no marginal

Os anos 60 foram importantes para a comunidade LGBT. Caçados pela polícia de Nova Iorque, na época seguindo uma política higienista de limpar a cidade dos “indesejáveis”, organizaram como movimento e iniciaram as primeiras manifestações pela causa. Todo esse período foi marcado por uma profunda revolução social e sexual no Ocidente, levando a criação de culturas para todo grupo que se considerava marginal, entre eles as pessoas com deficiência.

Descrição: Menina com síndrome de Down usando um maiô com as alças pendentes. Com a mão esquerda ela tenta arrumá-lo. No seu cabelo está uma touca de natação.

Acredito que influenciada por esse ambiente, Diane viu uma oportunidade de retratar estas pessoas que buscavam sair da invisibilidade imposta pelas normatividades sociais em todo seu espectro sexual, racial e corporal. Para o mundo ela retratava a margem, o freak, monstros escondidos e apresentados como algo fantástico, bizarro, entretanto quando vemos suas fotografias encontramos ali pessoas não muito diferentes de todos nós. Ora brincando com seus corpos, fazendo caretas, poses, ora registradas em atitudes consideradas normais.

Para nós, freaks, a fotógrafa foi um respiro. O início de uma oportunidade em nos mostrar e dominar o modo de retratar nossos corpos, uma vez que dentro dos padrões eles já foram considerados incapazes, uma representação daquilo que não deve ser representado. Me atrevo a dizer que Diane Arbus deu o pontapé para todo esse processo de representatividade que tanto buscamos e lutamos atualmente, por esse motivo me vi inspirada a escrever estas linhas sobre seu trabalho.

Com suas fotos percebi que seu mundo freak há tanta realidade, que já não incomoda receber este termo. Neste mundo há muito de mim, de você que me lê, pois a verdade é que por trás de formas disformes há aquela essência que todos possuímos. Por dentro, no final das contas, todo normal é freak

 

Referências para produção deste texto:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Diane_Arbus

http://www.webradioepocas.com.br/2014/08/a-libertacao-gay-nos-anos-60-e-70-era-o.html

https://www.jmcohen.com/artist/Diane_Arbus/biography/

KURAMOTO, Emy. A representação disruptiva de Diane Arbus; do documental ao alegórico. 2006. 184f. Dissertação de Mestrado, UNICAMP, Campinas, 2006.

 Imagens: Google

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