Qual é a voz do seu corpo?

Se me perguntarem uma das palavras para representar a tendência visual da nossa época, sem dúvida responderia “corpo” ou “auto imagem”. Acredito que não houve em outro momento um sentimento de controle do corpo, ou body control, como a atual. Somos donos da nossa identidade e a usamos para nos reafirmar. A selfie na frente do espelho para nutrir o ego, abriu espaço para os ensaios fotográficos e fotos espontâneas para mostrar nossas belezas naturais e casuais.

Claro que as redes sociais ajudaram no processo, os perfis abarrotam-se com posts conceituais e quase editoriais daqueles que por mero acaso acabaram se tornando influenciadores digitais. Ver alguém semelhante a você em situações antes exclusivas de modelos inacessíveis, facilitam essa identificação com esses famosos instantâneos. Principalmente se você pertencer a uma minoria.

Na ausência de pessoas para nos representar, recorremos ao cotidiano para construirmos nossas narrativas pessoais. Nessa lacuna vemos surgir vários personagens para todos os tipos de identidade, dentro do mesmo espectro representativo. Por exemplo, pessoas com deficiência, temos: cadeirantes, surdos, mudos, surdo e mudos, cegos e por aí vai. Qualquer um pode ser um representante de uma minoria, e isso não é demérito. É liberdade e, principalmente é resistência.

Entretanto, como disse acima, estamos na era dos corpos e com ela trazemos a luz um importante debate: até onde minha exposição vira objetificação?

Antes de iniciar meu ponto de vista, gostaria de deixar claro que não estarei defendendo uma posição conservadora em relação ao tema. Defendo a liberdade de todo mundo fazer o que quiser. Inclusive, se quiser, manda nudes! 😀

Para ilustrar esse pensamento, usarei como exemplo o questionamento da Matrioska no twitter que foi o catalizador dessa avalanche de ideias que vieram em minha cabeça esses dias, rsrs.

Quando comecei a me sentir confortável com meu corpo, me sentindo capaz de conquistar e seduzir alguém, tomei a decisão de fazer um ensaio sensual. Ver-me linda em uma foto era uma espécie de confirmação de minha capacidade de ser mulher. Após esse período me sentia confortável comigo, ao ponto de postar imagens que hoje pensaria duas vezes antes de publicar. Talvez seja essa pirada que a Raquel cita acima, mas também é como expus em um texto realizado para o blog “Cadeira Voadora”, da minha querida Laura Martins (que você pode ler completo aqui):

A fotografia possui uma força transformadora, especialmente quando não temos corpos dentro dos padrões, pois nos permite assumir papéis desconhecidos ao nosso ser, porém reveladores de uma essência adormecida. É como se por um instante tivéssemos o poder de ser o que sempre sonhamos. Talvez seja por este motivo que algumas pessoas com deficiência, após participarem de ensaios fotográficos, sintam-se mais confiantes ao observarem o resultado nas fotos.

Olivier Fermariello, fotógrafo italiano, autor do ensaio chamado “Je t’aime moi aussi” onde diversas pessoas com deficiência posavam nuas, defende que a deficiência é um espelho da sociedade, pois a maioria de nós não estão de acordo com os padrões da beleza manipulada. Por esse motivo, buscou retratar nas suas fotos situações variadas, transitando entre o cotidiano e a sensualidade com o propósito de tratar o tema nudez com a naturalidade que se espera para esses corpos. Ou como bem explicou a escritora Ellyn Kail, em seu blog Feature Post (no link há mais imagens do ensaio, mas cuidado, há cenas de nudez 😉 ),

“sob seu olhar, o corpo humano não é ignorado nem fetichizado, existindo em um continuum nuançado de desejo individual. À medida que suas imagens se movem sonhadoramente entre a esfera surreal do devaneio erótico e o escopo do todos os dias, o corpo nu torna-se um meio de desafio, uma afirmação corajosa do eu amoroso em uma cultura que o nega “. 

Descrição da imagem: modelo deitada em um sofá de modelo antigo e estofado marrom claro. Ela está usando uma camisola branca, pernas para cima, usando um sapato de salto alto vermelho e segurando um balão rosa em formato de coração. Na parede, de aparência antiga e descascada, há uma foto da virgem Maria.

Em entrevista para o site HuffPost, Olivier afirma que “a diversidade é assustadora para as pessoas porque reflete nossa aparência longe da perfeição. Quando se trata de assuntos como sexualidade e deficiência, geralmente nos sentimos desconfortáveis ​​e preferimos não falar sobre isso. A diversidade, portanto a deficiência, diz respeito a todos nós de certa forma e, como tal, a sociedade precisa combater seus fantasmas falando livremente sobre isso, a fim de crescer “.

Descrição da imagem: Imagem de um banheiro com azulejos brancos com pequenos detalhes pretos. No centro da imagem, em frente a um espelho está uma mulher anã com toalha enrolada nos cabelos, de costas em cima de um banco usando calcinha e sutiã azul escuro como se tentasse alcançar o seu reflexo no espelho. Ao seu lado esquerdo tem uma toalha rosada pendurada no suporte. Do direito, há um secador no chão sobre papéis, mas com o fio ligado na tomada.

A gente tem essa necessidade de se afirmar quando não estamos dentro da caixinha social, mas muitas vezes acabamos presas aos padrões. O corpo é nosso, mas as regras ainda são ditadas por eles. Nesse looping precisamos nos equilibrar na tênue corda entre minhas liberdades pessoais e minhas escolhas. Quero demonstrar que sou uma pessoa sexual e sensual para quem? Porquê? Deixar de mostrar meu corpo favorece a quem?

Pessoalmente, acredito que o limite está em nossas mãos. Cabe a nós a reflexão que esteja mais favorável com nossas convicções e estar preparada para suportar as consequências delas, sejam positivas ou não. Quando eu me mostro há ali vários sentimentos que dizem respeito ao modo que eu me vejo, porém quando alguém se vê em mim, o que sou deixa de ser único e se torna coletivo. Minha imagem se torna uma mensagem maior do que a inicial. Acredito que é neste ponto que devemos focar. O que diz a sua nudez? Qual é a voz do seu corpo, afinal?

Para finalizar, reitero que tudo está em completa transformação nesse mundo. Por isso, o que hoje pode ser diverso, amanhã se tornará padrão.

Link de apoio ao conteúdo:

http://www.beautifuldecay.com/2014/07/31/intimate-portraits-people-disabilities-questions-societies-notions-beauty/?view=true  

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