Carta aos exemplos de superação

Pensei muito antes de escrever esse texto, confesso. Não queria trabalhar esse tema de modo agressivo, tampouco ser complacente com vocês, mas resolvi conversar e propor uma reflexão sobre como esse papo de superação é prejudicial ao nosso debate de real inclusão das pessoas com deficiência na sociedade. 

Talvez seja difícil entender ou enxergar o lado negativo de ser um exemplo de superação, afinal para muitos você é fonte de inspiração em momentos de dificuldade. Você gosta de mostrar que mesmo tendo deficiência é uma pessoa feliz com a vida e disposto a enfrentar tudo o que ela oferece com bom ânimo. Gosta de demonstrar como se adaptou para executar tarefas diárias com suas limitações físicas e conquistou várias coisas. De fato, observando desse modo você é uma pessoa ímpar e de bom coração que busca somente o bem estar do outro. Uma eterna fonte de muito amor e paz. Poderia, quem sabe, após inúmeras palestras pelo mundo afora conquistar o Nobel da paz. Você é uma super-pessoa. 

A questão é: se você não tivesse deficiência seria o mesmo exemplo de superação? 

É claro que dentro do “se” cabe um universo de possibilidades e esta não é a proposta desta carta, mas como disse iremos refletir nestas linhas tudo aquilo que for pertinente e pertencente ao tema. Pode ser que a deficiência tenha causado em você alguma mudança de pensamento que fizesse valorizar a vida mais do que antes. Ou apenas uma pessoa otimista, o que não pode ser considerado um motivo para ser chamado de superação.

Você descobriu que aprendeu a desenhar com seus pés, uma vez que nasceu sem as mãos teve que se adaptar. Isso é natural. Qualquer pessoa faria o mesmo. Quando alguém quebra um braço/perna aprende a se virar com o outro membro sadio. Quem sabe você seja alguém que se empenhou em uma área e conquistou um resultado fantástico que nenhum outro conseguiria. Há de concordar que para isso não é necessário ter deficiência, talento, esforço e oportunidade resolveria bem.

Alguém pode levantar a bandeira de “ah, mas tem gente que nem isso”. Certamente, há pessoas que nem isso, bem como há pessoas que vão além disso e não são consideradas exemplos de superação pela sociedade.

A maioria das características dadas aos exemplos de superação são encontradas em qualquer outra pessoa sem deficiência que não carregam em si esse título. Portanto, tirando esses pontos resta o verdadeiro motivo que transforma uma pessoa com deficiência em alvo: sua incapacidade.

Eu sei é doloroso ler isso, mas é real. Aos olhos de nossa sociedade capacitista a sua incapacidade é a razão de ser considerado um exemplo. Apenas isso. Para a maioria das pessoas, nós com deficiência, não deveríamos sair de casa. Ter vida social, família, sentimentos e trabalho são exclusividade de pessoas capazes. Aliás, somos interessantes no trabalho para o preenchimento das cotas, não pela competência, afinal estudo não é para nós também.

Para a sociedade isso já está pré-definido, são eles que cuidam de nós portanto sabem do que precisamos. Aí você pode me dizer: “mas eu inspiro eles com minha atitude positiva”. Nisso tenho que concordar, porém preciso lembrar que esse momento ocorre quando a maioria deles pensa “nossa, estou péssimo. Ah, mas olha tal pessoa é PIOR DO QUE EU e está feliz.”

Nós somos sempre o pior e você ajuda a reforçar isso. Nossa vida com deficiência não é esse abismo mostrado na televisão e alimentado no imaginário popular, você deveria saber disso. Se não sabe, me desculpe, mas seu discurso de superação está furado. Uma pessoa com deficiência superada empodera-se, não precisa se fazer de feliz ou fazer coisas para inspirar os outros, apenas leva seus dias como qualquer outra sem deficiência. 

Captura de Tela 2016-02-24 às 10.24.15 PMContudo você é um exemplo e como tal faz com que as pessoas pensem que somos iguais a você. É outro problema que está ajudando a criar: a padronização.  Fui buscar o significado da palavra superação e encontrei a imagem de um cadeirante, atleta, com os braços abertos. Nossa sociedade não nos enxerga como indivíduos, mas como grupos, ou seja temos por obrigação moral agirmos como você. É inadmissível sair da fôrma que vocês criaram e quando o fazemos somos chamados de “revoltados”.

Não vejo problemas em ser feliz, valorizar suas conquistas pessoais ou ter uma visão otimista sempre que possível. Acredito que todo ser humano deve buscar meios de viver bem com sua realidade e ter o direito de ser amparado em suas dificuldades. Assim como acredito que a pessoa com deficiência tem o direito de ser vista como indivíduo com suas qualidades, defeitos (sim, apesar de você esconder, bem sei que você tem defeito), características físicas e pensamentos construídos após suas experiências de vida.

Você pode ser uma pessoa inspiradora em qualquer atividade em sua vida, não precisa ter deficiência para tal. Existem pessoas que adoram minha coragem de mudar a cor e corte do cabelo com frequência, para elas pouco importa meu diagnóstico, mas sim meu estilo. É assim comigo em relação a pessoas com e sem deficiência que admiro, busco nelas aquilo que vai além do físico.

Espero que entenda meu ponto de vista, sei como é natural reproduzirmos atitudes que nos disseram ser corretas, contudo é fundamental buscar novos modos de pensar. Pense nisso. Lembre que alimentar um pensamento capacitista é contribuir para falta de acessibilidade em espaços públicos e privados, solidão da pessoa com deficiência e tantos outros resultados negativos que enfrentamos.

Com carinho,

A amiga “revoltada”.