Deficiência e feminismo: uma conversa necessária! Parte – 1

Já falamos aqui sobre a necessidade de pautas anticapacitistas nas discussões feministas, para visibilizar a vida de diversas mulheres com deficiência que também é impacta pelas opressões do patriarcado. Como bem reforça a autora Rosemarie Garland Thomson, a forma que a sociedade encara a deficiência está relacionada com o contexto e a cultura em que vivemos. Por isso, sempre dizemos que existem modos específicos para pensar e discutir questões que afetam a vivência de uma pessoa com deficiência.

O modelo biomédico, por exemplo, entende a deficiência só como uma lesão, impedimentos físicos, sensoriais e intelectuais: é o resultado de uma disfunção de em alguma parte do corpo. Assim, a deficiência é analisada como incapacidade: precisa ser “consertada” com intervenções médicas para que a pessoa com deficiência alcance a “normalidade”. [1]

Ou seja, esse modelo biomédico desconsidera todo o contexto social da pessoa com deficiência, focando exclusivamente na biologia e no corpo. Porém, quando observamos as barreiras arquitetônicas, de transporte, comunicacionais e reprodução de atitudes capacitistas (preconceito contra pessoas com deficiência) vemos como esses contextos sociais são responsáveis por dificultar a inserção das pessoas com deficiência na sociedade.[2]

Ilustração em preto e branco de várias mulheres, com diferentes tipos de deficiência atravessando ruas e direções diversas.
Fonte: Feminism in India

Feminismo e deficiência: uma relação necessária!

Assim, “nasceu” o modelo social. Com a proposta de considerar o contexto social e psicológico da pessoa com deficiência, esse modelo foi assimilando novas ideias a partir dos estudos da deficiência e feministas. 

Entretanto, como a experiência de ser uma mulher com deficiência que, ora desempenha o papel de cuidadora, ora de mãe, é única as pesquisas feministas envolviam temas que relacionavam a deficiência com gênero, dependência, interdependência, cuidados e dor provocadas por lesões. [3]

Sempre reforço em minhas falas que ao falarmos de deficiência é preciso pensar em DEFICIÊNCIAS. Ou seja, existem diferentes tipos de experiências que nos diferenciam, ainda que sejamos afetados pelos mesmos obstáculos sociais. Mesmo se todas as barreiras físicas, culturais e sociais fossem eliminadas, nem todos poderiam usufruir de plena autonomia e independência.

Conquistas já alcançadas!


O modelo social permitiu avanços legais que transformaram a vida das pessoas com deficiência, mas essa conversa vai ficar para o próximo texto. Ok? 😉


*Colaboração de Felipe Gruetzmacher

Nascido em 02/12/1988, é um eterno idealista. Acredita no potencial transformador da literatura. É um otimista nato, gosta de apoiar pessoas e é um romântico incorrigível. Por conta desse amor pelas letras, virou um copywriter: um especialista em comunicação, persuasão e marketing.


Referências: GESSER, Marivete; GOMES, Ruthie Bonan; LOPES, Marivete; TONELI, Maria Juracy Filgueiras. Novos diálogos dos estudos feministas da deficiência. Scielo, 2019. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ref/a/c7sJxYbSppg9kQMNvwvN6fh/?lang=pt . Acesso 22 de julho de 2022.

[1] (Débora DINIZ, 2007; Marivete GESSER; Adriano NUERNBERG; Maria Juraci TONELI, 2012).

[2](Sueli DIAS; Maria OLIVEIRA, 2013)

[3](DINIZ, 2007).


“Mulher Faz Ciência”, parcerias de escrita

Finalmente saiu o livro “Modos de Dizer as Ciências: narrativas, meios e mediações na divulgação científica”, o qual tive o prazer de assinar o artigo “A mediação dos afetos no processo de produção do e-book e do podcast Mulher Faz Ciência” com a querida jornalista, Alessandra Ribeiro.

Capa do livro, formato vertical. O fundo é azul, com listras diagonais, na parte superior está um megafone com um balão de fala cheio de elementos científicos. logo abaixo está uma faixa em branco com o texto Modos de Dizer as Ciências. Narrativas, meios e mediações na divulgação científica.

Com artigos realizados pela equipe da revista @minasfazciencia, organizado pelos jornalistas e professores, Vanessa Fagundes e Maurício Guilherme , a obra se propõe a apresentar debates e reflexões sobre “métodos, conceitos, princípios, produtos, ferramentas e práticas de Divulgação Científica, referentes a propostas de comunicação pública do Brasil e do exterior.”  

“Os artigos, escritos por colegas de equipe que também são professores e profissionais da comunicação, oferecem novas abordagens para o estudo de fenômenos do campo e contribuem para fortalecer a divulgação científica enquanto local de práticas inovadoras e de saberes”, comenta Vanessa.

Você pode fazer o download gratuito nas versões PDF e e-book, no link: https://minasfazciencia.com.br/ ou na minha bio.

O que as empresas precisam saber sobre embalagens acessíveis

A agência Wunderman Thompson lançou um relatório chamado “The Future 100: Tendências e Mudanças para observar em 2022” apontando o que podemos esperar para os próximos anos. 

Para minha surpresa, (e eu acho que para sua também!), a agência destaca que o uso de embalagens inclusivas será uma realidade cada vez mais exigida pelo público. 

Por mais que algumas empresas estejam preocupadas em promover a diversidade em sua comunicação, não podemos dizer o mesmo quando o assunto é acessibilidade. Não estou falando só de adaptações arquitetônicas, como rampas e elevadores, mas sim de mudanças de comportamento das marcas em relação às pessoas com deficiência. 

Existem diversas maneiras de tornar os produtos e suas embalagens mais acessíveis para o público. Ao aplicar um dos princípios do Design Universal, a Kellogs, por exemplo, disponibilizou uma linha dos seus cereais com braille nas caixas.

A Microsoft também inovou nesse quesito, ao convidar gamers com deficiência para ajudar a montar uma embalagem acessível para o XBox adaptado. Não faz sentido criar um produto para esse público, para entregá-lo em uma caixa difícil de abrir, não é?

O mesmo vale para outros segmentos, como produtos de beleza, higiene pessoal ou de alimentos. Oferecer produtos fáceis de manusear vai favorecer tanto as pessoas com deficiência, quanto aqueles com mobilidade reduzida. 

Ronald Mace. Descrição: Foto em preto e branco de um homem branco com barba, óculos e cabelo liso curto sentado em uma cadeira de rodas. Ele está sorrindo em direção à câmera. Ele usa um terno com gravata de bolinhas. No fundo dá para ver algumas árvores embaçadas.
Ronald Mace. Descrição: Foto em preto e branco de um homem branco com barba, óculos e cabelo liso curto sentado em uma cadeira de rodas. Ele está sorrindo em direção à câmera. Ele usa um terno com gravata de bolinhas. No fundo dá para ver algumas árvores embaçadas.

Em meados de 1985, o arquiteto Ronald Mace desenvolve o conceito de Design Universal. Ele defende que ambientes acessíveis são aqueles aptos a receber pessoas independentemente de suas idades, estaturas, habilidades, condições sensoriais ou físicas. Mais tarde, esse conceito foi aplicado em produtos, equipamentos e serviços. Em 1997, o Centro de Design da Universidade da Carolina do Norte definiu 7 princípios do Design Universal:

  1. Uso equitativo;
  2. uso flexível;
  3. uso simples e intuitivo;
  4. informação perceptível;
  5. tolerância a erros;
  6. baixo esforço físico;
  7. tamanho e espaço para aproximação e uso.

Não basta só chamar pessoas com deficiência para fazer publi. Tem que mudar a cultura da marca para que realmente seja inclusiva para todes. Imagina que incrível se marcar como a Avon, Natura ou Nivea tivessem o nome dos produtos em braille. Não seria demais?


Fontes:

The Future 100: Trends and Change to Watch in 2022. https://www.wundermanthompson.com/insight/the-future-100-2022. Acesso em 04 de abril de 2022.

What Every Brand Needs to Know About Adaptive Packaging. https://www.shutterstock.com/blog/adaptive-packaging-for-brands. Acesso em 04 de abril de 2022.

GOMES, Danila; QUARESMA, Manuela. Introdução ao design inclusivo. 1. ed.- Curitiba: Appris, 2018.

Deficiência ou ineficiência?

Vamos repensar o uso de algumas palavras e expressões capacitistas?

A começar, devemos evitar associar o termo “deficiência” como algo faltando, insuficiente, escasso ou mal feito. Tampouco usar a expressão “(d)eficiência”.

Ter deficiência não quer dizer ausência de eficiência, mas “incapacidade de”.

O termo CAPACITISMO, por exemplo, se sustenta nos ideais normativos de “sujeitos CAPAZES de”, ou seja, pessoas sem deficiência, consideradas saudáveis, que podem trabalhar, exercitar, ter uma família e etc.

Uma pessoa com deficiência pode ser eficiente em qualquer uma dessas atividades, mesmo tendo algum tipo de impedimento físico.

Por isso, dizemos que o contrário de eficiência é ineficiência. Exemplos:

Ao invés de dizer “temos deficiência de dados”, use “nossos dados são insuficientes” ou “nossa coleta de dados é ineficiente”.

Deu para entender? Espero que sim.

A partir de hoje se você continuar usando “deficiência” de forma errada, vou tirar 0,5 ponto, hein?

Brincadeiras à parte, se tiverem dúvidas podem colocar nos comentários que respondo, ok?

Beleza de quem?

“Mas o mapa da feiura também era marcado por doenças, sem contar os casos de quem tivesse o azar de nascer com alguma deformidade. A dita desgraça tinha preferência em ser associada aos pés largos e grandes, à cabeleira mal penteada ou rala, aos olhos sem brilho ou demasiadamente pequenos.”

História da Beleza no Brasil. Denise B. de Sant’Anna

O trecho acima é do livro “História da Beleza no Brasil”, da autora Denise B. de Sant’Anna. Nesse capítulo, intitulado “Feios de Doer”, ela aborda como eram retratadas as mulheres consideradas feias na virada para o século XX. Porém, infelizmente ainda encontramos rastros desse tipo de pensamento, seja em conversas cotidianas, ou nos discursos políticos na TV.

Infelizmente, falar de beleza ainda é considerado um tema fútil por estar associado ao mercado da moda, de produtos estéticos e comércio. Entretanto, não dá para ignorar que a deficiência produza modos de invisibilizar os sujeitos e, por isso motivo, tem relação direta com a autoestima de mulheres com deficiência.

Chamamos atenção de olhares curiosos, paternalistas e religiosos. Esse azar de “nascer com alguma deformidade” se repete nas expressões que costumamos ouvir: “se acontecesse comigo não sei o que faria”. 

Quando ouço esse tipo de coisa, tenho vontade de dizer: “e você realmente acha que nasci sabendo?” Claro que não.

Sentir-se bem consigo, não é só se achar bonita. Você constrói sua própria forma de ser, mas não dá para encontrar paz se todas as imagens e ideias de corpo ideal te fazem viver em guerra com o espelho. Por isso, precisamos trazer a deficiência ao debate sobre corpo feminino, para entender como o capacitismo está impregnado nos padrões de beleza.

Qual é sua história, afinal?

Autodeterminação. 

Foi essa palavra que ficou na minha cabeça após minha participação e, de outras mulheres com deficiência, no primeiro dia do curso regional de liderança e empoderamento de mulheres com deficiência da América Latina e do Caribe promovido pela Rede Latino-americana de Organizações Não Governamentais de Pessoas com Deficiência e suas Famílias (Riadis), com o apoio do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA).

Depois de discutirmos sobre o processo de formação de nossas identidades, tivemos um momento para refletirmos sobre quem nós somos. A pergunta “qual é a história da sua vida” nos foi colocada com a intenção de nos convidar a olhar para dentro de nossas crenças pessoais, valores, medos, alegrias e expectativas. Olha, foi um baita mergulho.

Sabe quando você pula de uma vez na piscina? Neste caso, para mim, foi uma piscina de memórias cheia de lugares, pessoas e planos ora realizados, ora frustrados.

A gente se acostumou tanto a contar as partes difíceis de nossas histórias marcadas pelo capacitismo, que muitas vezes esquecemos dos intervalos onde as vitórias e conquistas pessoais nos servem de combustível para seguir em movimento durante os dias.

Manter-se na luta contra o capacitismo é também estar em vigilância contra o capacitismo que, por vezes, ainda vive em nós. Sabe essa voz sussurrando no seu ouvido “você sabe que não é capaz de fazer isso por causa da sua deficiência”? Faz parte de uma coleção de estigmas e preconceitos presentes na mente da nossa cultura.

Como fazer parte de alguma coisa, se ainda me encontro perdida? Lembrar de quem somos, do que somos capazes de fazer são alguns dos vários caminhos para se autodeterminar coletivamente. Somos mulheres com deficiência, não apesar da deficiência.

Temos inseguranças, dúvidas e receios, mas também somos força, sonhos e desejo. Rever nossos relatos é um exercício de autoconhecimento, de auto respeito e, principalmente, de autocuidado. Por isso, te pergunto mais uma vez: como você tem contado a história de sua vida?

Dia Nacional da Luta das Pessoas com deficiência

Descrição: Card com fundo azul. À direita, uma faixa branca com uma notícia de título: Deficientes realizam hoje o dia de luta. À esquerda, ocupando o centro as frases na cor branca “21|09 Dia nacional de luta das pessoas com deficiência”, além da assinatura “@disbuga” na vertical. No rodapé, a frase “Folha de São Paulo | 21 de setembro de 1982. Fim da descricão.
Texto do fragmento:
Deficientes realizam hoje o dia de luta

Com um ato público marcado para às 11h30, na praça da Sé, seguido de uma visita ao Centro Cultural São Paulo, sete entidades que reúnem pessoas deficientes realizam hoje o Dia Nacional de Luta, que ocorrerá em diversas cidades, conforme foi definido durante o encontro de delegados estaduais realizado de 16 a 18 de julho em Vitória, Espírito Santo.

O objetivo principal da manifestação é dar continuidade ao Ano Internacional das Pessoas Deficientes – reservado pela ONU em 1981 –, ou, com prefere Galeno Silva, um dos coordenadores do Movimento pelos Direitos das Pessoas Deficientes (MDPD), “mostrar que o Ano terminou mas os problemas continuaram”. Para ele, a iniciativa da ONU permitiu, no Brasil, a divulgação, junto aos deficientes, de seus direitos e a conscientização do potencial de luta que possuem. Ainda como saldo daquele Ano, Galeno aponta “a aumento do espaço que a imprensa tem dedicado” aos problemas dessa camada da sociedade. Segundo dados colhidos pelo MDPD junto à Onu, trata-se de uma camada significativa da população, calculada por esse organismo em dez por cento da população, ou seja, cerca de 2,5 milhões de pessoas no Estado.
[descrição da imagem está no texto alternativo]

Hoje é dia para relembrar a importância da mobilização pelos direitos das pessoas com deficiência, momento para refletir sobre o passado, mas principalmente atentar para as dificuldades que ameaçam o nosso bem-estar futuro.

É também tempo de celebrar nossas conquistas, desde a mudança de nomenclaturas que nos humanizam e reforçam nossa condição de sujeitos (usar pessoa com deficiência, ao invés de deficientes, por exemplo), até a possibilidade de construirmos coletivos com atuação nacional e de acolhimento às diversidades no ser e viver com deficiência.

Hoje reconhecemos nossas identidades, nos identificamos em nós e nos outros. Temos orgulho de nossos corpos, nossas histórias, nossas dores e singularidades.

As barreiras não cessam, perdemos alguns direitos nos últimos anos e, ainda permanecemos invisibilizados nos demais movimentos sociais. Nossa luta, porém, não se cala. Queremos nossos espaços reconhecidos, nossas vozes recebendo a devida atenção, pois nossa vida é preciosa demais para ser ignorada.

Que hoje seja o momento para você, sem deficiência, se perguntar: o que tenho feito para tornar o mundo mais acessível? O que tenho feito para adotar uma postura menos capacitista? 

Enquanto isso, meus sinceros agradecimentos a cada ativista com deficiência que segue firme na militância. Desejo a todes um ótimo dia, afinal toda luta se constrói nos encontros e se mantém com uma boa dose de paixão, amor e amizade.  

P.S.: Não se usa mais o termo deficientes, mas PESSOA com deficiência.

Minhas conversas com Frida

Dia 06 de julho comemora-se o aniversário de Frida Kahlo. Nessa data, vocês podem notar várias postagens nos feeds das redes sociais ora contando a história da pintora ou mulheres prestando homenagens à pintora. Esse ano (2021) por falta de tempo, planejamento e, por esse meu jeito aleatório de conduzir meu conteúdo, me dediquei a algumas repostagens nos stories do Instagram para não deixar a data passar em branco.

Porém, me senti mal durante a semana. Ora essas, estamos falando dela. “Como assim você não vai fazer um texto?”, me questionei. A verdade é que me parece insuficiente dizer algo sobre um sentimento que vai além do vocabulário, sabe?

Eu e Frida temos uma relação única. Sim, somos próximas dessa maneira. A gente se entende na coluna quebrada, na pintura realizada na cama, na imagem do veado com flechas, no amparo entre o pulsar do coração que alimenta a cena das duas Fridas. Um reconhecimento singular, impossível de explicar. Na ausência de palavras busquei a foto que me toca.

Foto em formato vertical de Frida Kahlo. Ela é uma mulher branca, de cabelos pretos com laços azul claro, sobrancelha junta e um pouco de bigode. Usa uma camiseta vermelha com estampas etnicas amarelas, saia azul longa com renda branca na barra. Ela está olhando para a esquerda, com uma expressão pensativa e está segurando um cigarro  na mão direita. O fundo é possível ver alguns prédios antigos, um muro pequeno feito de tijolos e o piso cinza. Fim da descrição.
Foto com texto alternativo

Esse registro feito por um dos seus amores, Nickolas Muray, é meu punctum, como diria Barthes. Gosto desse seu jeito de olhar para o nada. Como se enxergasse algo que não entendemos ainda. É como se ali, no vazio, ela se escondesse para aliviar sua dor.

Aí, no topo deste prédio é onde nos encontramos sempre. Onde temos nossas melhores conversas, conselhos, mas principalmente, os melhores silêncios. ❤️ Obrigada por tudo, querida.


*Texto originalmente publicado dia 9 de julho: https://www.instagram.com/p/CRH3RbSMRuu/

Imagem de destaque

Conheça a atriz Liz Carr ou Como evitar cripface em filmes e séries

É, eu sei. O título desse texto ficou enorme, porém em minha defesa precisava colocar tudo o que o trabalho da Liz representou para mim e, talvez seja o mesmo para você.

Se você não me conhece, precisa saber do meu gosto por filmes de ficção científica, fantasia, distopia e afins para entender melhor esse texto. Raramente assisto outro tipo de estilo, apenas por indicação ou curiosidade mesmo. Nesse tipo de histórias costumo me desprender da realidade, sabe? Imaginar novos cenários, futuros possíveis ou possibilidade de existência.

Dito isso, dia desses estava assistindo o filme “Infinite” lançado esse ano (2021) com os atores Mark Wahlberg e Chiwetel Ejiofor como personagens principais. O longa foi inspirado no romance “The Reincarnationist Papers”, de D. Eric Maikranz, que narra a história de pessoas que possuem o dom de lembrar de suas vidas passadas. Com o passar dos anos, após alguns conflitos foram separadas em dois grupos: os Infinites e os Niilistas. O primeiro via na reencarnação uma possibilidade de evolução, já o segundo se sentiam presos à existência eterna, por isso pretendiam destruir toda a humanidade para romper esse ciclo.

Foto na horizontal de uma cena do filme. A esquerda está o ator Chiwetel Ejiofor (homem negro de terno preto) em pé, segurando uma bala de revólver enquanto olha para o ator Mark Wahlberg (homem branco de jaqueta preta) sentado do outro lado da mesa. O cenário é escuro e possui algumas janelas com grades. Fim da descrição.
Cena de tensão entre os personagens principais. Descrição no texto alternativo.

Tirando a deliciosa interpretação do Chiwetel no papel de vilão inescrupuloso, não me senti tão empolgada com o filme. Na verdade, achei um pouco exagerado em algumas cenas, porém enquanto assistia, eis que me surpreendo com a aparição de uma mulher cadeirante entrando na cena. Inicialmente imaginei ser alguma atriz conhecida fazendo cripface, porém quando a câmera se posicionou frontalmente, eis que para minha surpresa era a atriz Liz Carr, uma mulher com deficiência “de verdade”.

Chamamos de cripface a prática capacitista de utilizar atores sem deficiência para interpretar personagens com deficiência. O termo ganhou popularidade a partir das mobilizações de ativistas PcD contra roteiristas de grandes produções e estúdios de cinema.

Quando vi Liz em cena me veio um sentimento agridoce.

Ao mesmo tempo em que fiquei empolgada com sua personagem – uma cientista responsável pelo departamento tecnológico dos Infinitos – me peguei pensando em como a nossa invisibilidade social provoca feridas em nosso inconsciente, que nos leva a considerar raras aparições de pessoas com deficiência em propagandas, filmes e séries um grande evento. Porém, ao mesmo tempo me pergunto: como não se animar?

Descrição resumida. Foto em formato horizontal de uma cena do filme. O cenário é uma sala em formato arredondado com janelas. Mark está olhando para Liz enquanto duas mulheres ao fundo os acompanha. Ela é branca, tem cabelo branco curto, usa blusa azul de gola alta e óculos de armação preta. Está sentada em uma cadeira motorizada olhando para Mark. No rodapé da imagem está a frase "Garrick é nossa mestre de tecnologia e pesquisa". Fim da descrição.
Liz Carr interpreta a cientista Garrick. Descrição no texto alternativo.

Quem é Liz Carr?

Atriz britânica, comediante, apresentadora e ativista internacional dos direitos das pessoas com deficiência, Carr já é conhecida pela participação na série da BBC “Silent Witness”, em seu papel como a examinadora forense, Clarissa Mullery. Assumiu o papel desde 2012, encerrando sua participação no começo de 2020. Em entrevista para a BBC, disse que tinha dúvidas em como a produção iria desenvolver as gravações com a presença de um profissional com deficiência no set.

Ao longo dos oito anos de filmagem, conseguiu ajustar o roteiro sempre que apareciam algumas falas problemáticas. Em entrevista para a BBC disse “Fui questionada se eu estava orgulhosa do que alcançamos em termos de representação na série. Oh, meu Deus, é claro que estou.”

Descrição resumida. Cartaz da série "Silent Witness" da BBC com os nomes dos atores na parte superior. Ocupando o centro da imagem estão 4 atores brancos, um homem de terno, Liz usando uma camisa florida, sentada na cadeira de rodas, ao seu lado direito uma mulher loira de sobretudo azul escuro e um homem usando jaqueta e calça jeans escura. No fundo a vista de uma cidade com alguns prédios.
Cartaz da série “Silent Witness”. Descrição no texto alternativo.

A atriz também faz parte de vários grupos de comédia britânicos, como o “Abnormally Funny People”, o podcast “Ouch! Podcast” e, trabalhou como pesquisadora para o painel de comédia da BBC, “Have I Got News for You”.

Cadeirante, desde os sete anos de idade, Liz relata suas experiências com a deficiência de forma cômica para provocar a plateia dos seus shows.

“Tive algumas broncas, o que é fantástico… Pareço muito frágil para algumas pessoas, então é como todo estereótipo que você não esperava. As pessoas geralmente parecem apavoradas. ‘Oh meu Deus, ela vai ser engraçada? Podemos rir disso?’”, diz a atriz.

Atuante no ativismo pelos direitos das pessoas com deficiência há mais de 25 anos, Liz Carr faz parte do Not Dead Yet UK, grupo de pessoas com deficiência que se opõem ao suicídio médico assistido.

Em busca de outros enredos

Com a justificativa (para não dizer, desculpa) de não encontrar bons atores com deficiência para realizar os papéis, o cripface contribui para sustentar os discursos de tragédia e/ou superação nos enredos, uma vez que constroem narrativas em que o personagem ora adquire deficiência após um acidente, doença ou castigo, ora possuem um sonho ou memória de quando não possuía deficiência.

Porém, nos últimos anos temos visto algumas produções que trazem personagens com deficiência em filmes e séries, como o caso de “Special”, “Fuga”, “3%” que saem um pouco dos discursos capacitistas de vitimismo, superação e tragédia. Ou seja, existem alternativas criativas para construir boas narrativas onde pessoas com outras corporalidades estejam presentes em cena.

Sim, eu sei. Ainda é muito pouco.

Porém, da mesma forma que a ausência de pessoas LGBTQIA+, negras e mulheres é reivindicada por vários artistas nas redes sociais, ativistas com deficiência constantemente se mobilizam para expor os danos que essa invisibilidade provoca no imaginário social.

Quanto mais atrizes e atores como Liz ocuparem as telas, teremos mais oportunidade de falar sobre temas importantes a nossa vivência com deficiência como acesso a saúde e educação de qualidade, sexualidade e relações afetivas, acessibilidade e o uso de tecnologias assistidas no cotidiano, dentre outras questões tão relevantes quanto.

Por ora, deixo a dica para verem Liz em cena. Além de saciar o desejo ativista de ver uma mulher cadeirante fazendo um papel super bacana, você pode curtir um filme nas horas vagas.

Incrível, não é? Se tiver outras dicas, deixe aqui nos comentários.


Fontes:

https://lizcarr.co.uk/

https://biographymask.com/liz-carr/

https://twitter.com/thelizcarr

Descrição da imagem: Card com foto grande em preto e branco de uma mulher branca de cabelos compridos ocupando toda a esquerda. Dentro da cabeça, em tamanho menor, está uma foto em vermelho de uma jovem branca sentada em uma cadeira de rodas dentro de sua cabeça. Ela está gritando com expressão de pavor, enquanto a mulher está serena. À direita, próximo ao rodapé, está uma barra vermelha se esvaindo em direção a foto. Em cima da barra está escrito "Dica de Filme" na cor vermelha. No rodapé à esquerda está a assinatura @disbuga na cor vermelha. Fim da descrição.

Dica de filme: Fuja (Netflix)

Descrição da imagem: Card com foto grande em preto e branco de uma mulher branca de cabelos compridos ocupando toda a esquerda. Dentro da cabeça, em tamanho menor, está uma foto em vermelho de uma jovem branca sentada em uma cadeira de rodas dentro de sua cabeça. Ela está gritando com expressão de pavor, enquanto a mulher está serena. À direita, próximo ao rodapé, está uma barra vermelha se esvaindo em direção a foto. Em cima da barra está escrito "Dica de Filme" na cor vermelha. No rodapé à esquerda está a assinatura @disbuga na cor vermelha. Fim da descrição.
Dica de filme: Fuja (Netflix)

Fazia tempo que um filme não me provocava tanto quanto “Fuja”, novo filme de Sarah Paulson disponível na @netflixbrasil. O suspense conta a história de uma mãe superprotetora que cuida de Chloe, uma adolescente com deficiência, em uma cidadezinha no interior dos Estados Unidos. A história começa com muito mistério em torno do excesso de cuidados, medicamentos e o isolamento social das duas. Porém, ao longo da narrativa vão se desdobrando as consequências deste estilo de vida a medida que Chloe começa a questionar as ações da mãe.

Calma, não pretendo dar spoilers sobre o filme. Aliás, recomendaria um alerta de gatilho na plataforma porque o que se passa na história é um perfeito exemplo de como funciona a violência doméstica em pessoas com deficiência. Se você vive algo semelhante, recomendo não assistir. Ou se o fizer, dê pausas para respirar antes de continuar.

Há uma passagem no filme em que é possível como os agressores articulam sua manipulação para desacreditar a vítima. Quem seria capaz de condenar uma mãe que durante toda vida só quis cuidar bem de sua filha? Aliás, qual familiar não abusaria de vez em quando deste controle?

Infelizmente, vemos muitos casos de verdadeiros cárceres privados disfarçados de proteção. Nisso, o filme fez muito bem em retratar as sutilezas das privações de contato sociais, acesso ao mundo externo e abusos psicológicos.

Outro ponto positivo fica para a escolha da atriz com deficiência @kierajallen que cumpriu muito bem o papel, dando um show de atuação e performance. Foi muito bom ver a personagem encontrando formas de “fugir” das situações impostas pela mãe, demonstrando a importância de saber reconhecer criticamente a diferença do cuidado e da opressão.

Fica a recomendação deste título, mas peço que observem esses detalhes e reflitam sobre eles. Depois me conta o que acharam, combinade?